Reflexões sobre o 9º Encontro Nacional da Pascom Brasil
Por Valquíria Souza
Entre os dias 24 e 26 de julho, tive a honra de participar da 9ª edição do Encontro Nacional da Pascom Brasil, realizado em Aparecida (SP). Foi a maior edição da história do evento, reunindo cerca de 1.500 participantes das 19 regionais da CNBB.
Mais do que um espaço de formação, o encontro proporcionou momentos de reflexão sobre a missão da Pastoral da Comunicação diante dos desafios do mundo contemporâneo. Compartilho, a seguir, alguns dos principais aprendizados que podem iluminar nosso trabalho cotidiano na evangelização.
Presença cristã nas redes: postar para engajar ou evangelizar?
Pe. Josileudo Queiroz
Em sua palestra, o padre Josileudo Queiroz trouxe uma provocação essencial para quem comunica em nome da Igreja: “Não devemos tornar nossa opinião pessoal o ensinamento da Igreja.”
Em tempos em que as redes sociais estimulam a exposição constante de opiniões, o palestrante recordou que a missão da Pascom exige discernimento e fidelidade ao Magistério. O comunicador católico é chamado a anunciar o Evangelho, evitando transformar posicionamentos pessoais em doutrina.
Outro desafio apontado foi encontrar equilíbrio entre a liberdade de evangelizar nos meios digitais e a comunhão com a Igreja.
Como destacou:
“O grande desafio é harmonizar a liberdade de anunciar o Evangelho pelos meios de comunicação social com a comunhão ao Magistério da Igreja.”
Ele também reforçou que a presença da Igreja no ambiente digital não é uma tendência passageira.
“Evangelizar no digital não é moda; é coerência com a missão da Igreja.”
Afinal, evangelizar significa estar onde o povo está.
A dimensão pastoral da comunicação
Paolo Ruffini
Prefeito do Dicastério para a Comunicação da Santa Sé, Paolo Ruffini trouxe uma profunda reflexão sobre a essência da comunicação eclesial.
Segundo ele, toda comunicação da Igreja possui uma dimensão pastoral e precisa estar fundamentada na sinodalidade, ou seja, na escuta, na participação e na caminhada conjunta.
Em uma frase marcante, afirmou:
“A Igreja era uma rede antes da rede da internet.”
A comparação recorda que a missão de comunicar sempre esteve presente na vida da Igreja, muito antes das plataformas digitais.
Ruffini também alertou para o risco de uma comunicação marcada por discursos vazios e sem testemunho.
Talvez a frase que mais tenha provocado reflexão tenha sido:
“A confiança não se forma pelas telas, mas em torno das mesas, presencialmente. As telas devem complementar aquilo que já foi construído na vida real.”
Uma lembrança importante de que nenhuma tecnologia substitui o encontro humano.
O algoritmo do anúncio: humanizar a comunicação em tempos de Inteligência Artificial
Oficina com Guilherme Freitas
A oficina começou com uma pergunta simples, mas profundamente desafiadora:
“Em quais momentos, ultimamente, você realmente se sentiu humano?”
Depois, fomos convidados a listar os influenciadores que acompanhamos nas redes sociais. O exercício mostrou como o conteúdo que consumimos influencia diretamente nossa forma de pensar, agir e comunicar.
Guilherme apresentou o conceito de datificação, processo em que nossa vida cotidiana é continuamente transformada em dados que podem ser coletados, analisados e utilizados pelas plataformas digitais.
Também refletiu sobre a chamada performatividade algorítmica, conceito desenvolvido por André Lemos (2021), segundo o qual os algoritmos influenciam aquilo que vemos, pensamos, consumimos e até mesmo a forma como nos relacionamos.
Outro tema abordado foi a economia da atenção, em que as plataformas disputam constantemente nosso tempo e nossa concentração.
Diante desse cenário, Guilherme lembrou que a missão da Pascom vai muito além da produção de conteúdo:
“Gerar relações verdadeiras exige proporcionar o encontro das pessoas com a experiência de Cristo.”
Também alertou para uma realidade inquietante:
“Muita gente que está na Igreja pode, na verdade, estar afastada de Deus.”
Ao abordar a Inteligência Artificial, chamou atenção para um aspecto importante: os algoritmos não são neutros. Eles refletem os dados que recebem e, muitas vezes, reproduzem preconceitos e visões limitadas da realidade.
Assim como a Inteligência Artificial é alimentada pelos conteúdos disponíveis, também nossa comunicação é consequência daquilo que consumimos diariamente.
Sua principal mensagem foi clara: os algoritmos podem ser ferramentas, mas jamais devem substituir a missão evangelizadora.
Além do “like”: a gestualidade do encontro na dimensão pastoral
Marcello Zanluchi
Marcello Zanluchi iniciou sua palestra com uma pergunta provocadora:
“O que existe além da preocupação pelo like?”
A partir dessa inquietação, conduziu os participantes a refletirem sobre a atual crise das relações humanas.
Vivemos conectados, mas nem sempre verdadeiramente próximos. Estamos perdendo a capacidade do encontro pessoal, da escuta e do olhar atento ao outro.
Entre os questionamentos que lançou estavam:
- Quem você realmente enxergou hoje?
- Onde está a humanidade nas comunicações que realizamos?
- Nossa comunicação aproxima as pessoas de Deus ou apenas gera números?
Marcello observou que muitas vezes estamos excessivamente preocupados com métricas, alcance e engajamento, esquecendo-nos da finalidade maior da comunicação evangelizadora.
Sua reflexão ficou sintetizada em uma frase que resume bem toda a proposta do encontro:
“Likes alimentam algoritmos. Encontros alimentam pessoas.”
Essa talvez seja a maior missão da Pascom: utilizar todos os recursos da comunicação sem perder de vista aquilo que nunca poderá ser substituído pela tecnologia — o encontro verdadeiro entre pessoas e, sobretudo, o encontro de cada pessoa com Cristo.
Comunicação que gera encontro
Ao longo dos três dias de formação, ficou evidente que a missão da Pastoral da Comunicação não se resume à produção de conteúdos, fotografias, transmissões ou redes sociais.
Comunicar é criar pontes. É favorecer encontros. É construir confiança. É anunciar o Evangelho com autenticidade.
Em um mundo cada vez mais mediado por algoritmos, métricas e Inteligência Artificial, o maior desafio da Pascom continua sendo profundamente humano: comunicar de forma que as pessoas encontrem Cristo por meio do testemunho, da escuta e da presença.
Essa talvez seja a maior reflexão deixada pelo 9º Encontro Nacional da Pascom Brasil.