Pe. Libanio e Frei Francisco van der Poel presentes no XII Encontro Cultural Franciscano
Ontem, dia 11 de setembro 2013 a noite do Encontro Cultural Franciscano iniciou com Frei Francisco Van der Poel, que apresentou o Dicionário da Religiosidade Popular a todos os presentes. Em sua apresentação Frei Francisco fez memória ao Concílio Vaticano II que define a Igreja como Povo de Deus e sendo assim que “no principio do começo do inicio” o que se chamaria Abecedário da Religiosidade Popular, hoje Dicionário, resgata e registra a fé deste povo, de modo especial o povo, a que se refere Medelín em 1968 quando a Igreja fez a opção pelos Pobres.
Partilhando de sua experiência no Vale do Jequitinhonha, confidenciou-nos o papel importante que teve em sua vida missionária, logo ao chegar em Araçuaí, a cozinheira da casa paroquial, D. Filó, que além de cozinhar muito bem, cantava as “rezas” do povo e com ela começou a aprender as “coisas” do povo. Outra personagem importante foi Maria Lira Marques que o ajudou a gravar várias musicas além de pesquisa e registro de 15mil folhas de papel, onde se assentada a vida diária e religiosa do povo do vale do Jequitinhonha. Na época poucos pesquisadores se interessavam pela região.
Nestas experiências, descobriu que a cultura é vida, do nascer ao morrer, do deitar ao levantar, do trabalho à fé. Ainda destacou os 16 anos em que viveu junto ao povo da Colônia Santa Izabel em Citrolândia, Betim/MG, pois “para entender e sentir a vida do pobre se faz necessário viver junto deles”, destacou.
Para falar de religião ou religiosidade sem o Deus vivo, não tem sentido. Deus se revela de várias maneiras diferentes e as pessoas criam formas culturais de responder às revelações de Deus. “Pobre é o diabo que perdeu a graça de Deus”, o pobre é fraco e fraco é o oposto de poder, disso o povo entende.
No Dicionário contem registro de experiências a partir da ajuda de alunos do CELMU [Curso de Formação e Atualização Litúrgico Musical] que vindos de diversas partes do país colaboraram com algum relato de sua experiência de fé.
O povo sabe celebrar! “A experiência religiosa começa na vida e não na capela”. O Dicionário é a brasilidade da religião. A Bíblia deixa de ser normativa, mas sobretudo é o relato de uma experiência religiosa de um povo e não um tratado dogmático de fé, ponderou. A linguagem do culto é do encontro de duas realidades: Divino e Humano. E finalizou: “Ao chegar na Santa Igreja, meu sangue subiu na veia, só para beijar a Virgem da Candeia”.
Já Pe. Libanio SJ, ao apresentar seu livro “Para onde vai a Juventude?” começou dizendo achar graça, pois quem escreve o livro é um velho! Mas ressaltou: “não digo onde os jovens estão tento mostrar para onde eles caminham”.
Destacou algumas tendência da juventude, a saber:
Psíquico x Físico:
A juventude antes tinha uma integração maior entre o físico e o psíquico, de modo especial aqueles que habitavam na zona rural. Há uma explosão no crescimento [corporal], mas ao mesmo tempo não acontece um crescimento psíquico, tornando homens com cabeças de criança. Um jovem com 15 anos antes da Guerra é um jovem de 21 anos hoje, sua capacidade biológica é superior enquanto há um encurtamento do seu psíquico.
Experencial x Projectual:
Segundo Pe. Libanio, na década de 60 os jovens viviam sonhando com o futuro, sendo que a tendência hoje é passar do projectual para o experencial. Indicou o livro “Que é isso companheiro?” de Fernando Gabeira [1979] para melhor exemplificar essa tendência e continuou: no movimento “Vem pra rua” [Junho 2013] apenas 5% dos jovens estavam comprometidos [utópicos] com a realidade, os demais estavam ali para viver uma experiência. Se uma geração não tem nada de utópico não vai construir um país diferente, isso explica a apatia das entidades políticas diante das manifestações, pois as manifestações não são utópicas e sim estão apenas no nível experiencial.
Utopia:
Será que dentro de minha cabeça tem utopia? Se não tenho nada que me move para o futuro, é porque o presente não me permite pensar! Renato Russo escreveu e a gente não se cansa de cantar “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã” de fato, não existe o amanhã, só o hoje. No livro “A tirania do prazer” de Jean Claude Guillebaud, a tese desenvolvida pelo autor é de que, desde 1968 queremos usufruir e gozar o presente. Quando se perguntava para uma pessoa qual a profissão ela queria seguir, responderia muito facilmente: a que mais ajudará o país a crescer; hoje se fizermos esta mesma pergunta teremos a seguinte resposta: eu gosto de matemática; eu gosto de química; eu gosto de musica…
Felicidade x Prazer:
Hoje somos um povo que busca o prazer instantâneo, a felicidade é para o futuro, pois a felicidade para nós hoje é uma dimensão de algo que não se experimenta. A JMJ/2013 viveu o presente, não trouxe utopia. O utópico sede espaço ao presencial, do momento. O mesmo acontece com movimentos neo-pentecostais, inclusive com a RCC.
Afetivo x Sexual:
Basta olharmos para nosso quadro familiar. Diminui os laços afetivos e cresce as relações sexuais. Muitos jovens assumindo a paternidade/maternidade com menos de 15 anos e muitos pais e mães que se distanciam sexualmente, pois o afeto não mais existe.
Juventude x Idoso:
Referindo-se a Carl Rogers “a relação mais profunda que podemos estabelecer é quando captamos e amamos a pessoa como ela é”, em linhas gerais, é receber e aceitar a pessoa como ela é e expressar uma consideração positiva por ela, simplesmente por que ela existe, não sendo necessário que faça, ou seja isto ou aquilo, portanto, aceitá-la incondicionalmente; a empatia, por sua vez, consiste na capacidade de se colocar no lugar do outro, ver o mundo através dos olhos dele e procurar sentir como ele sente; por isso o Papa Francisco encantou a todos!
Intelectualidade x Mídia:
A nossa capacidade informativa é muito maior que nossa capacidade pensar! Não desenvolvendo nossa capacidade intelectual nossa capacidade lingüista ficará deficitária. Hoje somos geniais nas insinuações e não na dissertação.
Finalizando, Pe. Libanio acentuou o motivo de tanta tristeza no mundo, pois não há mais relações, não criamos mais vínculos de relações entre nós, estamos vivendo um esfacelamento afetivo, onde somos facilmente seduzidos, onde qualquer sabor nos agrada. Precisamos urgentemente resgatar em nós o que nossa mãe nos passou de bom.
Após algumas perguntas da platéia, fomos convidados a terminarmos a noite no jardim com saboroso café acompanhado de deliciosos bolos e biscoitos ofertados por Maria de Lourdes Martins.
Por: Frei Laercio