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O apelo de Roma: “poder técnico não se sobreponha à dignidade humana”

17 de julho de 2026

Com informações de Deborah Castellano Lubov e Paolo Ondarza – Vatican News

As vozes dos signatários do documento assinado no Campidoglio ao final da Assembleia Global dos Prêmios Nobel: um convite para governar a IA de acordo com princípios éticos e promover o desarmamento, seguindo os passos da “Magnifica humanitas”. Reina: “as decisões que dizem respeito à vida e à morte, à paz e à guerra, devem permanecer sob o controle humano”. Tomasi: “nunca reduzir a pessoa a um instrumento”. Gualtieri: “orientar o desenvolvimento tecnológico com base no respeito à pessoa”.

Com a assinatura da Declaração de Roma, foi encerrada no Campidoglio a Assembleia Global dos Prêmios Nobel sobre Inteligência Artificial e Guerra Nuclear. O documento, inspirado na encíclica Magnifica humanitas do Papa Leão XIV, reafirma a urgência de governar eticamente a IA e de prosseguir no caminho rumo ao desarmamento nuclear.

A abrir o encontro que encerrou a Assembleia Global dos Prêmios Nobel sobre Inteligência Artificial e Guerra Nuclear, realizada de 14 a 15 de julho no Borgo Laudato si’, nos Jardins Pontifícios de Castel Gandolfo, esteve o prefeito de Roma, Roberto Gualtieri, que lembrou como muitas vezes se deposita uma confiança cega na tecnologia, mas, justamente no caso das armas nucleares, essa confiança pode revelar-se ilusória. É preciso, então, estar atento às repercussões sociais que isso acarreta e que muitas vezes geram concentrações de poder e riqueza, além de novos desequilíbrios regionais e sociais e novas formas de exploração ambiental. Daí a necessidade de elaborar medidas coordenadas de governança global para reduzir o risco de uma escalada nuclear, juntamente com o compromisso com a eliminação das armas nucleares e a rejeição da guerra como solução.

O prefeito de Roma: a tecnologia indisensável para os sistemas urbanos

Roma, destacou o prefeito, é uma cidade que está investindo maciçamente no desenvolvimento tecnológico para melhorar a eficiência dos serviços públicos essenciais, promovendo a coesão social, o bem-estar e a assistência à pessoa. “O ponto crucial, tanto em nível global quanto local”, explicou Gualtieri, “é orientar o desenvolvimento tecnológico de acordo com princípios éticos de respeito à pessoa, igualdade e responsabilidade democrática pelo bem comum. Esse é o cerne do desafio da inovação”. “Para Roma”, declarou o prefeito, “é uma enorme honra sediar a assinatura desta declaração de extrema importância, na esteira da encíclica do Papa Leão XIV. Um documento que compromete a humanidade a rejeitar a ideia de que “a guerra seja um instrumento para resolver controvérsias internacionais” e a “evitar o risco de uma desumanização do uso de armas, que pode levar até mesmo à extinção da humanidade”.

Em seguida, o professor Daniel Holz, da Universidade de Chicago, diretor fundador do Existential Risk Lab (X Lab), lembrou aos presentes que “a má notícia” é que “vivemos em uma época de perigo sem precedentes”, mas “a boa notícia é que há muitas coisas que podemos fazer para nos proteger das armas nucleares e da Inteligência Artificial”.

Reina: o poder da tecnologia após o respeito à dignidade humana

Em sua intervenção em italiano, o cardeal Baldassare Reina, vigário geral da diocese de Roma, destacou a importância da Declaração, uma cidade que representa o direito, mas também o Evangelho, as instituições e os pobres. Por esse motivo, segundo o cardeal, o apelo deve ser sempre “a favor da vida, da razão, da fraternidade e da responsabilidade compartilhada”. O cardeal lembrou que o texto surge em uma época de riscos profundos e transformações rápidas: “a Inteligência Artificial, as armas nucleares, a instabilidade geopolítica, a crise do multilateralismo, a tentação de confiar a segurança ao medo, à dissuasão e à ameaça mútua”.

Reina reafirmou com veemência a convicção de que deve ser o coração humano a orientar a tecnologia e não o contrário: “as decisões que dizem respeito à vida e à morte, à paz e à guerra, ao futuro dos povos e das gerações vindouras”, afirmou, “devem permanecer sob controle humano pleno, responsável e significativo”. Nenhuma máquina pode estar no centro de decisões das quais depende a sobrevivência da humanidade. “O poder da tecnologia não pode se sobrepor à dignidade do homem”. “A paz não pode se basear no equilíbrio do medo”; portanto, reiterou o vigário do Papa, é necessário trilhar um caminho de desarmamento, de confiança, de direito internacional, de cooperação multilateral, de diálogo entre as partes e de tratamento das causas profundas da insegurança. Desarmar, de fato, não significa apenas reduzir arsenais, mas desarmar as mentes, as linguagens, as economias, as relações internacionais; trabalhar por uma economia de paz; investir em saúde e no desenvolvimento humano integral.

A IA pode levar os seres humanos a construir ou a destruir

O Pe. Andrea Ciucci, chanceler da Pontifícia Academia para a Vida, abordou o tema da criatividade humana. Ele observou que, por um lado, os seres humanos são capazes de criar obras-primas incríveis, mas, por outro, a criatividade humana pode causar grandes devastações. Ele afirmou que a Inteligência Artificial e a energia nuclear não são exceção, ressaltando que “a Inteligência Artificial pode levar os seres humanos a construir ou a destruir”. Segundo o sacerdote, a Inteligência Artificial “é um fenômeno global e generalizado; não podemos pensar em resolvê-lo apenas alguns, apenas de um único ponto de vista. Precisamos fazer isso juntos”. “O Papa Leão”, acrescenta, “diz que é preciso desarmar a inteligência artificial, mas isso não significa renunciar à tecnologia”. Desarmar a tecnologia significa “usá-la de maneira humana”.

Também o cardeal Silvano Maria Tomasi e a professora Maria Ressa, da Universidade de Columbia, vencedora do Prêmio Nobel da Paz, dirigiram-se aos presentes com palavras contundentes sobre a corrida armamentista e a necessidade de uma bússola moral nestes tempos de risco sem precedentes. “As dificuldades criadas pelo uso da bomba atômica”, afirmou o cardeal, presidente da Fundação Domus Communis, “prejudicam tanto quem a usa quanto quem é vítima dela. Devemos prevenir essa possibilidade e proteger toda a família humana. É importante não reduzir a pessoa humana a um instrumento, a um meio, a um dado estatístico”.