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Homilia de Dom Geovane na ordenação presbiteral de Rogério Rafael

22 de agosto de 2026

Eu sou o bom pastor: o bom pastor dá sua vida pelas suas ovelhas.” (Jo 10,11)

Caríssimos irmãos e irmãs, nossa amada Diocese se reúne para celebrar a ordenação presbiteral de mais um dos seus filhos queridos, o Diác. Rogério Rafael Mendes de Oliveira. Aqui estão seus pais, o sr. Joaci Mendes Ferreira e a sra. Maria das Neves de Oliveira Ferreira e demais familiares a quem saudamos com afeto.

Esta liturgia solene é um eco da voz de Cristo, o Bom Pastor. A fidelidade à vocação, especialmente em tempos de crise e provação, fortalece-se quando não nos esquecemos daquela voz[1]. O Senhor Ressuscitado nos chama e podemos escutar o timbre da sua voz nas diversas circunstâncias da vida.

Ao início do meu ministério episcopal nesta Igreja Particular, celebrei a eucaristia no presídio em Divinópolis. Ao despedir-me dos nossos irmãos, ouvi um grito: não se esqueça de nós! Naquela hora, senti-me chamado pelo Senhor. Aquele grito ressoou dentro do meu coração e fez-me recordar o som da voz do Senhor que nos ama, escolhe e chama. O eco daquele grito, ainda hoje, ressoa dentro de mim e tornou-se um norte para minha vida e missão.

Aquele grito revelou-me que Jesus Cristo, o Bom Pastor, não se esquece de ninguém. Todos os sofredores, homens e mulheres, estão tatuados no seu coração misericordioso. A ordenação presbiteral nos une ao coração de Cristo, configurando-nos a Ele na sua ternura e cuidado com o ser humano.

O Pastor

Diante dos fariseus, pretensos guias do povo de Israel, Jesus se autoproclama o Bom Pastor que conduz rumo à liberdade e irradia a beleza do amor do Pai. Assim ele evidencia a diferença entre seu estilo de vida e o modo de agir dos maus pastores. Cristo liberta, dá luz e vida. Os maus pastores, ao invés, oprimem, exploram e escravizam o rebanho.

Na Palestina do tempo de Jesus, pastorear era algo rotineiro, uma atividade muito difusa e familiar a todos. A escassez de água e de pastagens vicejantes, sempre obrigava o rebanho a partir em busca de alimento.

Ao conduzir o rebanho, o pastor permanecia longe de casa dormindo próximo às ovelhas nas cavernas ou grutas. O rebanho, sob o céu estrelado ou escuro, estava sempre exposto aos ladrões e animais selvagens. Por isso, além de guiar, o pastor vigiava, protegia e defendia o rebanho dos seus inimigos e predatores.

Os profetas denunciaram os chefes do povo de Israel, acusando-os de serem pastores maus e infiéis. A pregação profética manteve viva a expectativa da vinda do verdadeiro pastor, antes, de Deus mesmo como pastor. Este anúncio suscitou no coração do povo de Israel a certeza de que Deus era o seu pastor. Jesus Cristo, envolto pelo amor do Pai, deixou-se conduzir pelo seu Espírito e se tornou Pastor segundo o coração de Deus.

O Bom e Belo Pastor

No caminho da vida, Jesus nos acompanha e se revela como nosso guarda e protetor, alimentando-nos com sua Palavra e os Sacramentos.

Neste evangelho Jesus diz algo novo que nunca fora dito antes, ou seja, Ele diz ser um pastor que dá a própria vida pelas ovelhas. Deste modo, Jesus expressa o seu amor excessivo por nós. Ama-nos de modo exagerado e sem limites.

O seguimento a Jesus se dá na acolhida deste amor exagerado. Traduz-se naquela experiência de sentir-se amado, guiado e defendido pelo Senhor; não porque desapareçam fadigas e sofrimentos, mas para que possamos suportá-los na sua companhia. Nossa alegria será maior na partilha de vida com o Senhor e nossos sofrimentos serão mais leves ao sentirmos que o Bom Pastor carrega consigo os dramas da nossa vida humana e frágil.

Quando acolhemos o amor exagerado do Bom Pastor, abrimo-nos ao vasto mundo do seu coração. A fé em Jesus Cristo amplia o nosso horizonte, não admite limites ou cerca, destrói os muros intransponíveis do ódio.

Pastor de todos

Jesus se sente pastor de todos, não só daqueles que já lhe pertencem. A amizade com Ele arrebenta as cercas de arame farpado que tecemos no nosso coração, fechando-nos aos outros, temerosos de tudo que está além do nosso horizonte, por vezes, tão estreito e preconceituoso. Atualmente a sociedade padece desta doença que pode se tornar a enfermidade mais insidiosa para todos nós: o fechamento, a falta de acolhida, a doença do cercado, a febre do limite.

Deixemo-nos guiar pelo espírito do Bom Pastor, que não ama cercados ou muros, e sentiremos o sofrimento dos pobres, sofredores e vulneráveis como algo que nos pertence. Para além das cercas ou muros que edificamos, existe alguém à espera de nossa mão estendida, de uma palavra consoladora e do nosso testemunho de amor. Manter-se fechado ao sofrimento humano, é assumir o pecado da indiferença do qual o Senhor nos pedirá contas, pois Ele não permaneceu atento somente às ovelhas do seu aprisco, mas saiu em busca da ovelha perdida.

O Filho amado de Deus não é pastor apenas de Israel: Ele é o Salvador do mundo. O Senhor não nos quer num recinto fechado como escravos, ao contrário, deseja conduzir para fora todos os que lhe pertencem para que participem da sua liberdade e anunciem o Reino de Deus.

Pastor crucificado-ressuscitado

Jesus se refere ao mistério da sua passagem definitiva à casa do Pai, quando diz que o bom pastor dá a vida pelas ovelhas. Esta oferta da vida não significa somente a morte de cruz, mas também aquele amor corajoso com qual ele defende as ovelhas.

Jesus afirma que entre o pastor e a ovelha existe uma relação recíproca e profunda: Eu sou o bom pastor, conheço as minhas ovelhas e elas me conhecem. Esta relação de intimidade é participação na relação recíproca que existe entre Jesus e o Pai. Por causa desta relação profunda, pessoal e plena de amor, o Bom Pastor dá sua vida pelas suas ovelhas. Por que Ele expõe sua vida ao perigo pelas ovelhas? Porque Ele as tem no seu coração.

O mau pastor ou mercenário, ao invés, está preocupado apenas com o seu salário, as ovelhas estão a serviço da sua vida, e não ele a serviço da vida do povo. O mercenário vê nas ovelhas somente o lucro que poderá tirar delas e, quando vê o lobo se aproximar, não o enfrenta, mas foge e abandona as ovelhas; deixando-as entregues à voracidade do inimigo. Todas as épocas têm os seus lobos. E sua vinda, por mais trágica que seja, deixa claro quem é pastor e quem é mercenário, quem tem a coragem de oferecer a própria vida e quem, pelo contrário, pensa só em salvar a si mesmo. Ao dizer que o Bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas, Jesus nos revela sua generosidade fundada sobre o amor. Ele ama os seus e doa sua vida. Jesus é pastor enquanto Cordeiro de Deus, que com a sua mansidão vence a violência e a morte. Ele não é um pastor a mais, mas o Pastor exemplar que cuida das suas ovelhas.

Pastor e ovelha

Em Cristo Jesus, o Bom Pastor, somos chamados a pastorear. Seremos bons pastores no único Pastor. Em cada um de nós deve coexistir o espírito do Bom Pastor e a autoconsciência de sermos ovelhas do seu rebanho. Não nos esqueçamos de que Jesus enviou os seus discípulos em missão como ovelhas entre lobos (Mt 10,16). Eles devem ir a lugares hostis sem usar de violência ou maldade para se defenderem. Toda ovelha é chamada, por sua vez, a tornar-se Pastor, o Cordeiro que doa sua vida para a salvação do mundo.

Numa época em que se busca autonomia, pensar o ser humano qual ovelha que segue o pastor pode soar como algo que se opõe à nossa liberdade. Mas em Cristo o ser humano torna-se livre, aberto a um caminho e progressos sempre maiores. Seguindo-o, experimentaremos aquilo que somos: filhos amados Pai, irmãos e irmãs uns dos outros. Mantenhamos os nossos olhos fixos no bom e belo pastor, Cristo Jesus, que não conhece outro poder senão aquele de servir e amar, outra riqueza senão aquela de se doar, outra vitória senão aquela de sempre perdoar.

Neste dia em que celebramos a memória da Bem aventurada Virgem Maria, a Senhora Rainha, bela ovelhinha de Cristo, peçamos sua intercessão, para que vivamos como ovelhas do rebanho do seu amado Filho Jesus e juntos alcancemos a fortaleza do Pastor.

Dom Geovane Luís da Silva

Bispo de Divinópolis

22/08/2026

[1] Papa Leão, Uma fidelidade que gera futuro, 5.