Homilia de Dom Geovane na ordenação do padre Ronivon Amorim
“Senhor, aqui estou! Envia-me.” (Is 6,8)
Amados irmãos(ãs), caros presbíteros, diáconos, religiosos e religiosas, seminaristas, pais e familiares do Diác. Ronivon. Sob o olhar materno da Virgem Maria, a Senhora da Piedade, entoemos o nosso Magnificat ao Senhor pelos dons concedidos generosamente à nossa amada Diocese. Bendize, ó minha alma, ao Senhor! (Sl 103).
Aqui nos reunimos para celebrar mais uma ordenação. A ordenação de mais um presbítero, jamais poderá ser considerada somente numa perspectiva numérica. Não. O ato de ordenar mais um padre é um convite ao despertar missionário de nossa Igreja Particular. Muito recebemos, por isso muito mais nos será pedido. A quem muito foi dado, muito mais será exigido (Lc 12,48). Sejamos Igreja em saída, verdadeiramente missionária, presente nas comunidades e periferias do nosso território diocesano!
Caro filho Diác. Ronivon, o sacramento da ordem é uma graça extraordinária concedida àqueles que são chamados a participar do sacerdócio de Cristo, enquanto guias e pastores do seu povo amado. E isto, meu caro filho, sem nenhum mérito de nossa parte. Não somos merecedores de tão grande dom.
Graça, segurança e vantagem
A experiência desta graça – sentir-se amado e chamado pelo Senhor – nos liberta daquela pretensão mundana de sermos credores diante de Deus, quando na verdade somos seus eternos devedores. Quando esquecemos esta dívida impagável, nosso ministério se degenera em moeda de troca e a Igreja passa a ser vista como uma empresa que contrata, dispensa ou descarta seus empregados. Longe de nós esta lógica terrível. Fomos chamados por graça, sem nenhum mérito de nossa parte. Não somos merecedores. Fomos escolhidos para anunciar o Evangelho.
Não esqueçamos jamais de que somos profundamente amados pelo Senhor. Esta deve ser “a nossa segurança e vantagem: saber que fomos chamados e escolhidos por amor”. Assim dizia François Xavier. N. Van Thuan, o Santo cardeal vietnamita.
A certeza de sermos amados pelo Senhor é o sustento diário da nossa missão, a bússola que orienta os nossos passos. Sem esta experiência de sermos abraçados, salvos e purificados pelo seu amor, jamais seremos capazes de dizer como Isaías: Senhor, “aqui estou! Envia-me” (Is 6,8). Eis a resposta do profeta ao sentir-se chamado por Deus e enviado ao povo de Israel, convidando-o à conversão.
Vocação profética
Isaías, cujo nome significa ‘O Senhor Salva,’ é um profeta originário de Jerusalém e viveu por volta do ano 740 ac. Ele era pertencente a uma família sacerdotal. Não por acaso, sua vocação está emoldurada pelo Templo e pela liturgia. Ao iniciar a presidência do culto com a oferta do incenso, Isaías é surpreendido por uma grande manifestação divina.
Este relato vocacional, caro Diác. Ronivon, evidencia que a iniciativa do chamado é sempre de Deus que irrompe de modo surpreendente na vida do profeta, e porque não, na vida de cada um de nós. A cena, solene e gloriosa, é um hino em honra ao Senhor dos Exércitos, entoado pelos Serafins, ministros da corte celeste. Eles cantam a santidade absoluta de Deus, isto é, a sua perfeição, sua grandeza suprema, o seu esplendor invisível aos olhos humanos.
“Numa visão majestosa, Isaías encontra-se diante do Senhor três vezes Santo e é tomado por um grande receio e pelo sentimento profundo da própria indignidade[1]”. É o que acontece em nossas vidas. Diante do Senhor, bom e Justo, somos convidados a olhar para nós com ternura e contemplá-Lo com temor reverencial, porque só Deus é santo e ele nos convida à santidade. Naquela hora o profeta se sentiu interpelado por Deus, revestiu-se de respeito e teve uma aguda percepção da sua vulnerabilidade e desejo de purificação: E disse: “Ai de mim, estou perdido! Sou apenas um homem de lábios impuros, mas eu vi com meus olhos o rei, o Senhor dos exércitos” (Is 6.5). Podemos ver com nossos olhos humanos a glória de Deus presente na história, na vida das pessoas, nas diversas situações que rodeiam a nossa existência.
Diante de Deus, Isaías reconheceu que somente o Senhor é Santo e só Ele pode nos santificar e purificar. Naquela hora um Serafim voou em direção ao profeta, tendo em suas mãos uma brasa incandescente com a qual tocou-lhe os lábios cancelando o seu pecado. Deste modo, Isaías é separado dos seus pensamentos terrenos, dos seus objetivos pessoais e egoístas e se tornou totalmente disponível para Deus. A graça da ordenação faz crescer em nós esta disponibilidade total para Deus. Deixemos de lado nossos desejos pessoais. Deixemos de lado nossos pensamentos terrenos, que nos fazem buscar honra e privilégio. Em habite o espírito de Isaías, para uma disponibilidade sempre maior no serviço eclesial. Aquele gesto realizado pelo Serafim – o ato de colocar a brasa incandescente nos lábios do profeta – revela a força do amor de Deus que não só purifica, mas cria um novo ser e o santifica.
Aquele que é Santo, chama-nos à santidade, mas não anula nossa humanidade. Sustentados pela graça de Deus seremos santos. Mas de que modo? Ressignificando nossos afetos, nossas dores e fracassos; reerguendo-nos a cada dia dos possíveis tropeços ao longo da caminhada. Porque quando Deus nos chama ele nos abraça, mas não nos canoniza. A santidade é um processo que perdura ao longo de toda a nossa existência.
Missão profética
O homem da Palavra de Deus, o profeta, deve ser purificado pela graça divina justamente na sua palavra. A partir de então ele não anunciará a si mesmo, mas será o porta voz do sonho de Deus. Nós, ministros ordenados, fomos instituídos justamente para isto. Para sermos porta-vozes do sonho de Deus e não dos nossos ideais. Foi o que aconteceu com o profeta. Após ter sido purificado, ele se apropria da sua missão profética e a todos anuncia a mensagem de Deus. Após a purificação dos seus lábios, Isaías escuta uma voz que o interpela: Não esqueçamos irmãos, como disse recentemente, o timbre da voz do Senhor chamando-nos sempre, a cada dia, para estar com ele e anunciar o seu Reino.
Neste trecho do livro do profeta Isaías que escutamos a pouco, aparecem dois verbos muito significativos. Deus interpela o profeta da seguinte forma: “Quem hei de enviar? Quem irá por nós?” Estes dois verbos, enviar e ir, evidenciam o sentido de nossa vocação. Somos missão e por isso estamos no mundo. O Senhor nos envia. Temos que ir, temos que caminhar e anunciar com alegria o seu Reino. Deus nos chama, nos purifica com o seu amor e envia-nos em missão. A resposta de Isaías é total e sem hesitação: Aqui estou! Envia-me. Deus não forçou o profeta a nada; somente suscitou dentro do seu coração o desejo de colocar-se a serviço da sua causa. É isto que Deus faz. Não tira a nossa liberdade, mas semeia no nosso coração o desejo de defender a sua causa, a causa de Deus. Que causa é esta? O amor a todos, a acolhida, a atenção aos sofredores. Esta é a causa de Deus. Deus suscita no coração humano a necessidade e a coragem de dizer-lhe sim, mas livremente. Toda vocação é um diálogo entre Deus e o ser humano. Deus suscita no coração humano a necessidade e a coragem de dizer-lhe ‘sim’, mas livremente.
Quão forte é o retrato desta vocação na qual brilham a liberdade, a prontidão e o entusiasmo. A vocação de Isaías é uma escolha pessoal, a adesão madura da sua personalidade, mas é também um risco porque o profeta se defrontará com a resistência ou fechamento daqueles aos quais ele será enviado. Isaías vê claramente a estrada que deverá percorrer. Isaías antevê o seu caminho naquela hora. Sabe que se libertou do passado dos lábios impuros graças à purificação divina e agora intui o destino exigente que o espera.
A resposta livre e generosa do profeta ao chamado divino ilumina nosso caminho de seguimento ao Senhor e nos ajuda a entender algo muito importante: a nossa missão não se realiza de êxito em êxito, mas também mediante o fracasso e as possíveis rejeições.
A admiração e o temor de Isaías diante da manifestação divina são um alerta para todos nós. Diante do três vezes santo, Isaías fica embevecido, em êxtase. E isto deve servir de norte para nós também, afim de que não nos acostumemos com a graça que recebemos, a graça de ser padre, de ser ministro ordenado. Não nos acostumemos com tudo aquilo que fazemos enquanto sacerdotes e ministros do Senhor. É preciso que este assombro, esta admiração diante do ministério a serviço do mistério de Deus, permaneça sempre em nós. Não nos acostumemos com o nosso ser padre. Caso contrário seremos profissionais do Reino e não ministros do Senhor. Este temor reverencial do profeta diante de Deus é o remédio contra aquela falsa familiaridade com Deus que não considera a sua grandeza infinita e não pode atrair a sua misericórdia[2]. Quando nos tornamos íntimos ou familiares – no sentido negativo – para com Deus, nos acostumamos com Ele, e então, Ele deixa de ser o centro da nossa existência. Caro filho Diác. Ronivon, você escolheu também para a liturgia de hoje, o canto do Magnificat, no qual Maria, a Mãe de Jesus, Toda Santa e cheia de beleza, proclama a santidade de Deus no seu Magnificat e nos convida a cultivar aquele necessário temor reverencial diante de Deus quando ela canta na casa de Isabel e Zacarias: “O seu nome é santo, e sua misericórdia se estende, de geração em geração, a todos os que o temem”.
A experiência exigente de purificação pela qual passou profeta Isaias para exercer sua missão é um grande remédio para nós. E nos liberta… e tira dos nossos ombros o pesado fardo da ilusão de sermos perfeitos, intocáveis ou até mesmo superiores aos outros.
Caro filho, dentro de alguns instantes você será ordenado presbítero para celebrar os santos mistérios e servir com ternura o povo de Deus, sobretudo os sofredores, pobres e vulneráveis.
O amor pelo povo nada mais é do que a irradiação do nosso amor para com Deus e a expressão mais bela da liturgia que se realiza no altar. Ainda nesta celebração eucarística você ouviremos todos nós o cântico do Sanctus que proclama a santidade de Deus. Não por acaso este canto foi inserido na liturgia. Mas este hino é uma recordação perene de que Deus é santo e de que somos chamados à santidade. Sede santos como o vosso Pai celeste é santo (Mt 5,48). Mas este hino é também a certeza de que, Aquele que é santo, vem sempre ao nosso encontro. Não importa onde nós estejamos. Não importa onde esteja lançada a âncora da nossa vida. Ele sempre vem ao nosso encontro e nos surpreende. Por isso a liturgia canta: Bendito o que vem em nome do Senhor. Sanctus, Sanctus, Sanctus. Aquele mesmo canto entoado pelos Serafins atualiza-se em cada celebração eucarística. E assim, a Igreja o faz na certeza de que Deus é verdadeiramente o Santo e Ele vem ao nosso encontro sob as humildes aparências do pão e do vinho. Ele vem ao nosso encontro na sua Palavra, na assembleia reunida em seu nome. A Igreja saúda o seu Senhor na Sagrada Eucaristia, na Palavra, na Assembleia como aquele que vem e entra no meio do seu povo. E ao mesmo tempo a Igreja sauda-O como Aquele que permanece sempre conosco e nos encaminha para a sua vinda definitiva[3].
Caro Diác. Ronivon, que o testemunho do Profeta Isaías seja um norte para sua existência. Ele é o profeta da esperança. Ele se abandonou, cheio de confiança nas mãos de Deus. Deixou-se purificar pelo Senhor e prosseguiu firme o seu caminho. Que seja assim também a sua vida. Que a proclamação da santidade de Deus na liturgia se renova em sua vida, buscando uma vida íntegra, reta e santa. E também santificando o povo de Deus por meio do seu ministério. Assim seja.
Dom Geovane Luís da Silva
Bispo de Divinópolis 19/09/2026 – Pará de Minas
[1] Bento XVI, Pregações para o Ano Litúrgico, Ano C, III, 492.
[2] Albert Vanhoye, Il Pane Quotidiano della Parola, p. 486.
[3] Bento XVI, Jesus de Nazaré, Da Entrada em Jerusalém até a Ressurreição, p.23
Foto: @jadergrr