Homilia de Dom Geovane Luís na Ordenação Presbiteral de Henrique Teodoro
“Basta-te a minha graça” (2Cor 12,9)
“Amados irmãos(ãs), reunidos sob o olhar da Virgem Maria, Mãe da Esperança, celebramos a ordenação presbiteral deste filho querido, o Diác. Henrique. Estão aqui os seus pais Sr. Salvador Teodoro e a Srª. Teresinha de Souza Barbosa, seus familiares, amigos e irmãos no ministério ordenado com os quais ele exercerá a missão. Caro filho, sua ordenação presbiteral está emoldurada pelo Jubileu da Esperança e pela festa de São Lucas, o evangelista dos pobres e da ternura de Deus.
O trecho do evangelho a pouco proclamado traduz perfeitamente as palavras do saudoso Papa Francisco: “Somos missão e por isso estamos no mundo”. Somente Lucas nos fala que “o Senhor escolheu outros setenta e dois discípulos e os enviou dois a dois, na sua frente, a toda cidade e lugar aonde ele próprio devia ir”. A escolha e envio dos 72 discípulos revela o desejo mais íntimo do coração de Jesus, oferecer seu amor que salva e liberta “todo ser humano e o ser humano todo”. Eis aí a sede de Jesus: anunciar o Reino de Deus a todos. Este é o grito de Cristo que ressoou no mundo inteiro na hora da sua morte de cruz: Tenho sede!
Somos povo de Deus enviado em missão. Mas o Senhor retira do meio do povo (Hb 5,1), aqueles que ele escolhe para o ministério ordenado ao serviço do seu povo santo. Nosso ministério está ordenado ao serviço alegre e generoso a todos.
Ordem significa também beleza, vida ordenada e transfigurada pelo amor de Deus. Ordem é a lei que Deus estabeleceu desde o princípio ao criar os céus e a terra. Ele ordenou tudo e transformou o caos em cosmos. Transformou a desordem em ordem. Somente a graça de Deus pode colocar em ordem a nossa vida, dando-nos força para não nos tornarmos reféns de nossos afetos desordenados.
É Deus quem ordena nossa vida e se vale até mesmo das nossas fraquezas para chegar ao coração das pessoas. Cristo deseja ordenar sua vida ao imensurável horizonte do amor, onde todos são acolhidos sem nenhuma reserva. Somente quem se reconhece frágil será capaz de atravessar os umbrais da misericórdia divina e receber das mãos do Senhor, o balsamo que alivia as feridas da alma. O Senhor pode nos curar plenamente, mas prefere dar-nos apenas o alívio das dores causadas pelo espinho espetado em nossa carne. Este espinho é o remédio contra toda soberba, ambição e autoreferencialidade.
São Paulo, o grande missionário, em êxtase, rogou três vezes ao Senhor para que lhe arrancasse o espinho espetado na sua carne. Mas o Senhor lhe disse: “Basta-te a minha graça. Pois é na fraqueza que a força se manifesta” (2Cor 12,9). A graça de Deus nos acolhe como somos, mas nunca nos deixa como somos. Sendo assim, nada se perde nas mãos de Deus. Ele se vale de tudo que somos. Faz bem aos outros através dos nossos dons e, por meio das nossas fraquezas, faz bem a nós mesmos. São Paulo, mais tarde, depois das lutas consigo mesmo afirmou: “Sou o menor dos apóstolos, nem sou digno de ser chamado apóstolo, porque persegui a Igreja de Deus. Mas pela graça de Deus sou o que sou”. Ele reconheceu humildemente que suas realizações e identidade não são resultado de seus próprios méritos, mas sim do favor divino que recebera.
A ordenação de um novo sacerdote ativa nossa gratidão a Deus e se transforma em súplica ardente ao Senhor para que mande trabalhadores para a sua colheita. Após escolher os 72 discípulos, o Senhor os enviou em missão e lhes disse: “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Por isso, pedi ao dono da messe que mande trabalhadores para a colheita”. Ao comentar este trecho do evangelho assim se expressou São Gregório Magno, Bispo de Roma: “Não podemos deixar de dizer isto com imensa tristeza, porque, embora haja quem escute as boas palavras, falta quem as diga. Eis que o mundo está cheio de sacerdotes. Todavia na messe de Deus é muito raro encontrar-se um operário. Recebemos, é certo, o ofício sacerdotal, mas não o colocamos em prática”.
Caro filho, estas palavras de São Gregório são um alerta e um apelo para que sejamos humildes operários na vinha do Senhor e não transformemos o oficio sacerdotal num carro de triunfo para usufruir a vida. O Senhor lhe conceda esta graça: a autoconsciência de ser apenas servo. Não somos indispensáveis nem insubstituíveis, pois o Senhor e dono da messe poderia fazer tudo melhor sem a nossa atuação, mas, por misericórdia, quis precisar de nós. Nunca se esqueça disso: a partir da ordenação sua vida será ordenada ainda mais ao amor que Jesus tinha no seu coração quando enviou os 72 discípulos àqueles lugares aonde ele próprio devia ir, as periferias existenciais e geográficas. Mas antes de tudo, o lugar por excelência onde Jesus deseja chegar primeiro é o coração do ser humano.
O ministério ordenado é um reflexo da ternura de Deus que pode alcançar e tocar as feridas do coração de tantas pessoas. Coloque sempre em primeiro lugar as pessoas com suas dores e sofrimentos, e depois as ‘coisas’; mas também cuide das ‘coisas’ por causa das pessoas. Exerça o ministério sacerdotal com mansidão e firmeza. Agindo assim não lhe confundirão com o lobo voraz, mas todos reconheceram nos seus gestos os traços da ovelha ferida e redimida pelo amor do Cristo, Bom Pastor. O mundo não precisa da voracidade dos lobos, mas da mansidão dos cordeiros. Que seu ministério assuma um estilo semelhante ao de Jesus, marcado pelo despojamento, pela simplicidade, pelo desejo de semear a paz nos corações. Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: a paz esteja nesta casa!”
Dom Geovane Luís da Silva
Festa de São Lucas
18 de outubro de 2025
São Gonçalo do Pará