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Homilia de Dom Geovane na comemoração do Jubileu de Diamante do Carmelo Imaculada Conceição

7 de setembro de 2026

Minh’alma engradece o Senhor… Ele viu a pequenez de sua serva. (Lc 1,46.48)

Amados irmãos e irmãs, juntos elevemos ao Senhor o nosso Magnificat em ação de graças pelos 60 anos de fundação deste Carmelo dedicado à Imaculada Conceição em Divinópolis. Uma data singular que enche de júbilo e de esperança o nosso coração.

Jubileu de Diamante

Estamos celebrando o Jubileu de Diamante do nosso Carmelo. O Diamante, com sua beleza e brilho inigualáveis, é a pedra preciosa que mais encanta e seduz o olhar humano. Seu resplendor nasce das mãos firmes e do olhar preciso do especialista em lapidação. No silêncio, ele transforma uma pedra bruta em uma gema brilhante. E tal processo, que faz reluzir o diamante, exige tempo, cuidado, paciência e atenção. A pedra, ainda em seu estágio bruto, é submetida às etapas exigentes de planejamento, corte, facetamento e polimento. Somente depois deste processo é que se alcança a forma e o brilho que seduz o olhar humano.

Contemplamos na história deste Carmelo o processo silencioso de lapidação do diamante. Houve planejamento e espera. O nosso saudoso Dom Cristiano, primeiro Bispo desta amada Diocese, providenciou tudo, cedendo até mesmo sua residência episcopal para instalar provisoriamente o Carmelo. Houve também o corte das despedidas, quando as irmãs, lideradas pela Madre Maria José de Jesus, deixaram o Carmelo em Belo Horizonte para se fixarem aqui na Divina Pólis, a cidade do Divino.

O Espírito Santo, divino artífice, iniciou esta obra tão bela e continua realizando, segundo sua vontade, o processo exigente de lapidação dos corações humanos.

O Sonho

O Carmelo de Divinópolis é a realização de um sonho do nosso primeiro bispo, pois Dom Cristiano desejava fecundar a ação pastoral e evangelizadora da recém-criada Diocese com a força da oração e das virtudes cristãs.

O sonho deste ardoroso pastor, faz-nos recordar a visão mística que São João Bosco (Dom Bosco) teve em 1881, na qual um personagem majestoso usava um manto enfeitado com dez diamantes que representavam as virtudes essenciais que seus filhos eram chamados a viver.

Cada diamante no manto do personagem simbolizava um aspecto importante da vida espiritual dos seus irmãos. Na parte frontal, no peito, três diamantes simbolizavam a fé, a esperança e a caridade; no ombro direito o diamante do trabalho e no ombro esquerdo o diamante da temperança. Na parte posterior, ou seja, nas costas, cinco diamantes simbolizavam a obediência, o voto de pobreza, a castidade, a pobreza e a perseverança.

Em uma parte posterior da visão, Dom Bosco viu o mesmo manto danificado e corroído por traças, simbolizando o perigo da negligência espiritual, do relaxamento das regras, da busca por interesses próprios e da perda do zelo pelas coisas de Deus e pelos irmãos. Este sonho serve como um alerta duradouro para todos nós sobre a importância de manter vivas as virtudes evangélicas que nos unem a Cristo. O brilho da vida religiosa e cristã é obra de Divino Artífice que age em parceria com a nossa frágil e magnifica humanidade.

Magnificat

Elevemos ao Senhor o nosso cântico de júbilo, pois Ele continua realizando maravilhas em nossa vida pessoal e comunitária. Com seu Espírito Santificador, Deus modela nossa vida, purifica o nosso ser, conferindo-lhe verdadeira beleza e brilho.

Um brilho diferente daquele que o mundo nos propõe, onde aparentemente os soberbos, os ricos e poderosos são vencedores. No Magnificat Maria canta a obra de Deus em favor dos pobres, famintos e pequenos. Com Ela podemos também repetir: “A minha alma engrandece o Senhor, e se alegrou o meu espírito em Deus meu Salvador, pois ele viu a pequenez de sua serva. O Poderoso fez em mim maravilhas e Santo é o seu nome.

Este cântico de esperança e profecia, suscitado no coração da Virgem pelo Espírito Santo, ressoa quotidianamente nesta casa. Todos os dias durante a Oração das Vésperas, ouvimos este louvor mariano.  O Magnificat tem o poder de recentralizar nossa vida, direcionando-a para aqueles que devem ser os destinatários do nosso amor: Deus e o ser humano vulnerável e ferido.

O hino de louvor entoado por Maria na casa de Isabel e Zacarias nos introduz primeiramente no mistério de Deus e do seu amor que se revela na história em meio às vicissitudes humanas. Maria recolhe sua alma e a lança no infinito que é Deus, o todo poderoso e santo. Deus é visto por Maria com infinita confiança: Ela o chama de “meu Salvador”. Um Deus que somente olha para baixo como bem nos recordou Lutero em comentário ao referido cântico.

A experiencia do encontro com Deus fez nascer em Maria a justa percepção de si mesma, a consciência real da sua pequenez. Maria se sente olhada por Deus, ela própria entra nesse olhar, e começa a ver sua vida Deus como Deus a vê. “Maria notou a grande obra de Deus nela, mas não se considerou maior do que a pessoa mais humilde da terra[1]”. Maria acolhe a si mesma, pequena e pobre. Percebe-se como um pequeno albergue, uma serviçal que Deus se dignou a olhar. Deste reconhecimento de Deus, de si mesma e da verdade brotam a alegria e a exultação. “E se alegrou o meu Espírito em Deus meu Salvador. Maria engrandece a Deus por si mesmo, ainda que o glorifique por aquilo que fez em sua vida”.

Depois que Maria entoou este cântico, ele se tornou o louvor quotidiano da Igreja. Santo Irineu nos diz que Maria, cheia de exultação, gritou profeticamente em nome da Igreja. Somos o Povo de Deus, a Igreja viva do Senhor. Portanto este cântico foi-nos entregue para não nos esquecermos jamais da grandeza de Deus e de nossa real pequenez.

Na pequena cifra daquilo que somos podemos encontrar também um diamante: “Quantos desejam encontrá-lo! Se tivermos coragem de escavar nossos escombros, lá o veremos, ainda que disforme e sem brilho.

Descobriremos aos poucos nossa beleza original: somos riqueza na pobreza, força na fraqueza, diamantes em processo de lapidação.

Encontrá-lo é uma exigência constante, condição para sermos livres do medo de nós mesmos e de nossas possíveis falências.

Não procuremos fora o tesouro que habita nosso ser. Aos olhos de quem nos fez somos diamantes, destinados a reluzir no amor.

Só o tempo, lapidário divino, dará forma e brilho aos que acolhem a si mesmos sem nenhuma peia. Será esta nossa bem aventurança!

Será este também o nosso Magnificat![2]

Dom Geovane Luís da Silva

Bispo de Divinópolis

07 de setembro de 2026

[1] Martin Lutero, Magnificat, Santuário, Aparecida, 2015, p. 23,

[2] Dom Geovane Luís, Poema, Acolher a si mesmo.