Sermão da Paixão do Senhor realizado na Cerimônia de Descendimento da Cruz na Praça Minas Gerais em Mariana/MG
“O Verbo se fez carne, e habitou entre nós; e nós vimos a sua glória.” (Jo 1,14)
Introdução
Amados irmãos e irmãs, hoje celebramos a paixão do Senhor. “Reconheçamos corajosamente e proclamemos bem alto que Cristo foi crucificado por amor de nós; digamos não com temor, mas com alegria, não com vergonha, mas com santo orgulho[1]. Na cruz manifesta-se a glória de Cristo e o poder do crucificado.
A Paixão do Senhor não é um prelúdio à Ressurreição; ela é verdadeiramente um término, a morte de Cristo, e como tal, é em si mesma definitiva. Existe um abismo entre a Morte e a Ressurreição, mas o Cristo Jesus fez esta travessia e, pela ação do Espírito Santo, arrasta consigo todos aqueles que confiam na sua misericórdia.
O mistério da paixão, morte e ressurreição do Senhor se atualiza em nossa vida. “Há um momento para tudo e um tempo para todo propósito debaixo do céu. Tempo de nascer e tempo de morrer” (Ecl 3,1-2). Mas Deus Pai, em seu amado Filho Jesus, abriu para nós um horizonte de esperança: a Ressurreição. Por isso, nossa história pessoal e comunitária não se encaminha para o abismo escuro, mas está orientada para o encontro com o Senhor da glória, Jesus Cristo, morto e ressuscitado[2].
Anualmente, a proximidade da celebração pascal alterava a rotina de Jerusalém e uma multidão se aglomerava na cidade santa. Muita gente do campo se apressava e subia até lá para se purificar antes da Páscoa (Jo 11,55).
Jesus Cristo, com os seus gestos de amor e seu estilo de vida simples tocava o coração das pessoas. Por isso, tornou-se muito conhecido na Galileia, amado pelos pobres e sofredores, mas odiado pelas autoridades religiosas e políticas do seu tempo: os sacerdotes, os mestres da lei e os membros senado romano. Naquele ano, todos procuravam ver Jesus e, ao reunirem-se no Templo de Jerusalém, comentavam entre si: O que vos parece? Será que ele não vem para a festa?” (Jo 11,56).
Ao saber que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai (Jo 13,1), ou seja, a hora da sua morte, Jesus enviou Pedro e João, dizendo: “Ide preparar-nos a páscoa para comermos” (Lc 22,8). É Jesus que toma a iniciativa de mandar preparar a sua páscoa. As maquinações e maldades das autoridades judaicas e romanas, não determinaram o início da paixão do Senhor, mas a livre iniciativa do próprio Jesus[3].
Ao ouvirem a ordem de Jesus, os discípulos lhe perguntaram: Senhor onde queres que preparemos a páscoa? Ele respondeu: “Logo que entrardes na cidade, encontrareis um homem levando uma bilha de água. Segui-o até à casa em que ele entrar. Direis ao dono da casa: ‘O Mestre te pergunta: onde está a sala em que comerei a páscoa com os meus discípulos? E ele vos mostrará, no andar superior, uma grande sala, provida de almofadas; preparai ali. Eles foram, acharam tudo como dissera Jesus, e prepararam a páscoa” (Lc 22,9-13).
- Mandato de Jesus
Nestes dias em que celebramos a Semana Santa, ressoa aos nossos ouvidos a ordem de Jesus, outrora dirigida aos seus amigos; mas hoje dirigida a cada um de nós: “Ide preparar-nos a páscoa para comermos” (Lc 22,8).
Pedro e João receberam de Jesus o encargo de preparar a páscoa, mas eles sequer podiam intuir a novidade que seria instituída pelo Mestre, pois eles ainda estavam apegados ao antigo rito pascal, cujo centro é a ceia do cordeiro.
“Ide preparar-nos a páscoa para comermos”. Qual o significado desta ordem de Jesus? É um convite do Mestre aos seus discípulos para que se unam ele na entrega da sua vida ao Pai. Preparar a páscoa significa unir-se a Cristo no grande mistério da sua doação na cruz. Na ceia pascal, Jesus Cristo, o Cordeiro imolado antes da fundação do mundo, se entregará a si mesmo na oferta do pão e vinho. “O próprio Jesus e o seu dom eucarístico tomam o lugar do cordeiro, memorial da páscoa de libertação”[4].
Ao instituir a nova páscoa, na eucaristia, Jesus realiza em si mesmo todas as expectativas humanas do seu tempo: a libertação da escravidão, do pecado e da morte.
Jesus desejou ardentemente comer a páscoa com os seus discípulos antes de sofrer (Lc 22,15) e, este desejo norteou sua vida inteira, pois já era algo previsto por ele. A páscoa de Cristo é o fruto maduro da sua vida entregue para a salvação do mundo. De fato, Jesus Cristo passou pelo mundo fazendo o bem (At 10,38).
Pedro e João, o discípulo amado, foram escolhidos por Jesus para encontrar um lugar onde Ele se daria em alimento aos seus amigos, pois já havia dito: minha carne é verdadeira comida e meu sangue verdadeira bebida (Jo 6,55).
A páscoa é a amizade que Jesus oferece aos seus discípulos: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos. Vós sois meus amigos se praticais o que vos mando. Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que seu Senhor faz; mas vos chamo amigos, porque tudo o que ouvi de meu Pai vos dei a conhecer” (Jo 15, 13-15). Na ceia pascal com os seus discípulos, Cristo se faz alimento no pão e no vinho. O centro da nova páscoa é Jesus, a sua vida, sua palavra e o dom do seu amor oferecido generosamente a todos.
- Senhor onde queres que preparemos a páscoa?
Antes de partir para executar o mandato de Jesus – ide preparar-nos a páscoa para comermos –, os discípulos lhe perguntaram: Senhor onde queres que preparemos a páscoa?
Ainda hoje, esta pergunta deixa inquieto o nosso coração e podemos fazê-la novamente ao Senhor: onde queres que preparemos a páscoa? Ele seguramente nos dirá: “Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, ele comigo” (Ap 3,20).
Estas palavras não se referem apenas a um espaço físico, casebre ou mansão, mas sobretudo ao nosso coração. É na profundidade do nosso coração que Cristo deseja entrar para celebrar sua páscoa, pois os desequilíbrios que atormentam o mundo moderno estão ligados a um desequilíbrio mais profundo que se enraíza no coração do ser humano (GS 9).
Quem tem a coragem de entrar no seu próprio coração nunca estará sozinho: será consolado por aquele que nele habita desde sempre e lhe é presente como seu Criador e Senhor[5]. Deus habita em nós. Somos sua morada! Eis aí a beleza e a dignidade do ser humano. Como nos dizia o nosso amado e saudoso Servo de Deus, Dom Luciano: “Deus é Pai. Mas um Pai diferente, pois Ele nos criou para ficar dentro de nós”.
- Deus habita a cidade
Em seu diálogo com os discípulos, Jesus disse: “Logo que entrardes na cidade, encontrareis um homem levando uma bilha de água. Segui-o até à casa em que ele entrar”.
A qual cidade Jesus se refere? Jerusalém. Pedro e João foram e constataram a realização exata das palavras proféticas de Jesus. Como Jesus lhes havia dito, encontraram uma casa, provida de uma grande sala no andar superior, preparada para a ceia pascal.
Ao aproximar-se da cidade, Jesus se comoveu e chorou sobre ela. O pranto de Jesus é a expressão máxima daquela dor que atravessou sua alma ao ver a cidade que rejeitara a visita de Deus e a paz.
Jesus celebrou sua páscoa em Jerusalém, a cidade que recolheu na terra suas lágrimas e o seu precioso sangue derramado na cruz. A partir daquela hora, Jerusalém se tornou a cidade do amor e da fidelidade de Jesus à vontade do Pai: “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até fim” (Jo 13,1).
Jerusalém, que até então, ostentava o estandarte dos poderosos e injustos, pois ali viviam as autoridades do império romano e a elite religiosa do povo de Israel, tornou-se, mesmo a contragosto dos seus cidadãos, o marco inicial do novo tempo inaugurado pela morte e ressurreição de Jesus.
A sala preparada para acolher Jesus no andar superior daquela casa, tornou-se o polo de irradiação da grande esperança que todos os povos e nações aguardavam ansiosamente. Naquela noite, antes de morrer na cruz, Jesus se colocou à mesa com os seus discípulos e instituiu a eucaristia, sacramento da sua morte e ressurreição. Tendo nas mãos o pão e o cálice com vinho, Jesus tomou nas próprias mãos as rédeas da sua vida. Este gesto, que constitui o coração da ceia pascal, revela o sentido daquelas palavras que Jesus dirigiu aos seus discípulos noutra ocasião: “ninguém pode tirar a minha vida, mas eu a dou livremente. Tenho o poder de entregá-la e poder de retomá-la; esse é o mandamento que recebi do meu Pai” (Jo 10,18). Jesus Cristo nos amou até o fim e entregou a sua vida por nós.
A cidade de Jerusalém, não obstante suas resistências institucionais, foi o lugar que Jesus escolheu para celebrar e viver sua páscoa, ou seja, sua passagem definitiva para a Casa do Pai.
Jerusalém é o retrato fiel da cidade enquanto realidade complexa, carente de evangelização e de políticas públicas que promovem a vida. Ela evidencia a realidade trágica na qual se encontram nossas cidades, grandes ou pequenas, com os seus desafios, atos de violência e desigualdade social. Não obstante tais desafios, a cidade é o lugar privilegiado para o encontro com Cristo, presente na dor de tantos irmãos e irmãs sofredores, abandonados à sua própria sorte. Pois estes não recebem do estado o que lhes pertence por direito enquanto cidadãos e também carecem da presença consoladora da Igreja para lhes oferecer o tesouro do Evangelho. A este propósito assim se expressou o saudoso Papa Francisco: “A pior discriminação que sofrem os pobres é a falta de cuidado espiritual. Na Igreja, a opção preferencial pelos pobres deve traduzir-se, principalmente, numa solicitude religiosa privilegiada e prioritária” (EG 200). Na mesma perspectiva segue o nosso amado Papa Leão ao afirmar: “a condição dos pobres é um grito que interpela a nossa vida, as nossas sociedades, os sistemas políticos e econômicos e, sobretudo, a Igreja. No rosto ferido dos pobres, encontramos impresso o próprio sofrimento de Cristo” (DT 9). A este respeito, sigamos o ensinamento de S. Gregório de Nazianzo: “vós servidores de Cristo, seus irmãos e co-herdeiros, em todas as ocasiões visitemos a Cristo, alimentemos a Cristo, tratemos as feridas de Cristo, vistamos a Cristo, acolhamos a Cristo, honremos a Cristo, não apenas oferecendo-lhe uma refeição, como fizeram alguns, não apenas ungindo-o com perfumes como Maria, não apenas dando-lhe o sepulcro como José de Arimateia, não apenas dando o necessário para o sepultamento como Nicodemos que dava a Cristo só uma parte do seu amor. O Senhor do universo quer a misericórdia e não o sacrifício. Ofereçamos a misericórdia e a compaixão na pessoa dos pobres que hoje na terra são humilhados, de modo que, ao deixarmos este mundo, eles nos recebam nas moradas eternas, juntamente com o próprio Cristo nosso Senhor”[6].
Em cada cidade deve haver acolhida e lugar seguro para todos. Mas isto ainda não acontece, carecemos de uma estrutura sociopolítica séria e honesta, capaz de oferecer vida digna, moradia e segurança às pessoas.
Como não recordar nesta hora as tragédias ocorridas em Mariana e Brumadinho que deixaram um rastro de destruição, um vale de lágrimas, mortes e famílias desabrigadas? A reparação feita às vítimas destas tragédias não passa de esmola e não descriminaliza as mineradoras envolvidas nestes desastres ambientais. Recordemos ainda as vítimas das fortes chuvas em Minas e o impacto das mesmas nas periferias das cidades, onde vivem segregados os mais pobres e vulneráveis. Faz-se urgente um mutirão pela vida e dignidade dos pobres, a ser empreendido pelos nossos governantes, capaz de oferecer melhores condições de vida, moradia, saúde, emprego e segurança a todos que vivem em nossas cidades.
A cidade que rejeitou Jesus foi escolhida por ele para ser sinal da sua fidelidade e do seu amor até o fim. Dentro da cidade ele instituiu a eucaristia, lavou os pés dos seus discípulos e lhes entregou o mandamento do amor que deveria reger suas relações humanas, sociais e religiosas dali por diante. Fora dos muros de Jerusalém, na periferia, ele foi crucificado e entregou sua vida nas mãos do Pai.
A atitude profética de Jesus, ao escolher a cidade para celebrar a páscoa, é um imperativo que deve nortear nossa opção pastoral. Enquanto Igreja, somos chamados a anunciar o Evangelho nos grandes centros urbanos e nas periferias de nossas cidades. Na cidade ou nas periferias, Cristo mesmo se deixa encontrar no rosto de cada pessoa que precisa da nossa solidariedade.
- A liturgia da casa
Jesus escolheu também uma casa para celebrar sua páscoa. Durante a caminhada até Jerusalém, o Mestre apresentou aos discípulos as exigências para segui-lo. Enquanto prosseguiam viagem, alguém lhe disse na estrada: “Eu te seguirei para onde quer que vás”. Ao que Jesus respondeu: “As raposas têm tocas e as aves do céu, ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” (Lc 9,58).
Estas palavras revelam que Jesus não possuía nada e dependia dos favores e benevolência dos seus amigos. Os evangelhos dão testemunho desta atitude profética de Jesus diante dos bens materiais. Livremente, Ele preferiu não possuir nada em solidariedade com os pobres, para denunciar as injustiças sociais do seu tempo e anunciar o feliz retorno da humanidade à casa do Pai, no Reino definitivo.
O fato de Jesus não ter possuído uma casa jamais poderia nos induzir a pensar que não ter moradia ou morar em condições precárias seja algo natural. Não, moradia é direito de todos. Esta não é a perspectiva do evangelho, pois Jesus veio morar entre nós para que todos tenham vida, e a tenham em abundância (Jo 10,10). “É missão da Igreja denunciar, como injustiça e pecado que clama ao céu, a negação do direito à moradia e as condições precárias e até desumanas de moradia de tanta gente em nosso país”[7]. Não se preocupar com moradia digna para todos é a atitude alienada de quem se opõe ao movimento Deus que, em seu amado Filho, Jesus, veio morar entre nós (Jo 1, 14) e assumir nossa condição humana e frágil. Como nos diz Santo Agostinho, se Jesus não tivesse tomado da nossa natureza a carne mortal, ele não teria possibilidade de morrer por nós. Assumindo nossa humana condição fez-se participante de nossa morte para nos tornar participantes da sua vida[8]”.
Jesus não tinha casa, mas escolheu um lugar aconchegante para celebrar sua despedida. Nas recomendações dadas aos apóstolos Pedro e João, a casa ocupa um lugar central: “Logo que entrardes na cidade, encontrareis um homem levando uma bilha de água. Segui-o até à casa em que ele entrar. Direis ao dono da casa: ‘O Mestre te pergunta: onde está a sala em que comerei a páscoa com os meus discípulos?’ E ele vos mostrará, no andar superior, uma grande sala, provida de almofadas; preparai ali.”
Jesus, o enviado definitivo de Deus, antevê no seu coração o cenário que envolverá sua páscoa definitiva e o descreve em detalhes aos discípulos. Estes, por sua vez, constatam realmente tudo o que lhes fora dito pelo Mestre.
O homem misterioso que levava consigo uma bilha d’água, indicou a Pedro e João a casa que possuía uma grande sala para comerem a páscoa. Este homem com o cântaro de água é a imagem de Cristo prestes a derramar sua vida na Cruz. Cristo crucificado se transformou num cântaro de água viva, pois de seu coração ferido jorrou sangue e água, sacramento da Igreja. Na cruz rompeu-se definitivamente o cântaro de água viva que regou o mundo inteiro, fazendo brotar rebentos de amor e justiça no coração do ser humano. A morte de Cristo na cruz é o batismo do mundo.
Este personagem misterioso que carrega o jarro com água nos recorda que “somos chamados a ser pessoas-cântaro para dar de beber aos outros”[9], conduzindo-as sempre a Cristo. Esta é a única missão da Igreja no mundo: conduzir e atrair todos a Cristo. Nunca nos falte ao longo do caminho quem nos conduza a Cristo! Nunca deixemos de conduzir a Cristo todos aqueles que nos foram confiados em nossas famílias e comunidades.
O cântaro cheio de água é sinal do batismo que nos introduz no mistério da morte e ressurreição do Senhor. “De fato, o batismo nos purifica dos pecados, nos incorpora ao Senhor e nos introduz na intimidade com Ele”[10].
Nesta cena do evangelho Jesus se autodefine como Mestre. Ele é o único Mestre e Senhor que ensina com autoridade até mesmo na hora da sua morte.
O cenário descrito pelo Evangelista Lucas, coloca em destaque a casa onde se dará a refeição pascal. Esta casa é o ícone da Igreja chamada a ser porta sempre aberta para todos; lugar privilegiado onde comungamos a páscoa de Jesus em cada celebração eucarística.
Pedro e João entraram no andar superior daquela casa, onde havia uma grande sala preparada para comerem a páscoa. Aquele espaço doméstico é grande, pois acolheu o Senhor e reuniu todos os seus seguidores, simbolizados pelos doze apóstolos. Esta grande sala representa a Igreja, lugar da comunhão com Jesus e com os irmãos; mas também simboliza o nosso coração, pequeno abrigo, onde Cristo deseja celebrar sua páscoa e estabelecer conosco sua aliança de amor. Naquela sala, ao redor da mesa, os discípulos entenderam o sentido das palavras da Escritura: provai e vede como o Senhor bom; feliz de quem nele encontra sua morada (Sl 34, 9). Os discípulos encontraram abrigo no coração de Jesus, e não só eles, mas uma multidão de sofredores. Jesus Cristo é abrigo seguro para todos e suas chagas gloriosas acolhem todos os pecadores. Assim rezava o grande místico Santo Inácio de Loyola: “Senhor dentro de vossas chagas escondei-me”.
- Descendimento
Durante sua missão, Jesus Cristo se fez peregrino. Ao afirmar que as raposas têm tocas e as aves do céu, ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça (Lc 9,58), Jesus se autodefiniu como o peregrino que encontrará repouso só no coração do Pai.
Isto se torna evidente no Calvário. Em meio a tormentos, insultos e dores, Jesus proclama que Deus é Pai, abrigo seguro capaz de acolher a todos com amor. Antes de morrer, Jesus deu um forte grito: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito. E dizendo isso, expirou” (Lc 23,46). Uma prece cheia de confiança em Deus, capaz de reorientar os rumos da história para Deus Pai e Criador.
Deus mesmo é a Cidade iluminada pela luz do Cordeiro imolado na cruz. Ele é a casa definitiva onde habitaremos juntos como irmãos, seguros e em paz. “Porque não temos aqui embaixo cidade permanente, mas estamos à procura da cidade que está para vir” (Hb 13,14). A certeza de que o coração de Deus é a nossa morada segura deve sustentar-nos a cada dia na luta por justiça, paz, vida e moradia digna para todos.
Voltemos o nosso olhar para Jesus crucificado e façamos nossa aquela pergunta que Pedro e João lhe fizeram enquanto caminhavam rumo a Jerusalém: Senhor onde queres que preparemos a páscoa? Abramos as portas do coração e deixemos que o Senhor nos visite com sua graça e renove nossa vida.
A ceia pascal, celebrada na sala superior daquela casa em Jerusalém, é memória constante da entrega de Cristo na cruz. Um evento ocorrido na periferia da cidade que se atualiza em cada celebração, sob os humildes sinais do pão e do vinho.
Na cruz resplandece a beleza e dignidade do ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus e destinado a ser sua morada no mundo. Nela manifesta-se o que somos e o modo pelo qual entramos em comunhão com o Senhor e com o próximo.
Contemplando Jesus crucificado entendemos as palavras do apóstolo Paulo: “Não sabeis que sois templos de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destrói o templo de Deus, Deus o destruirá. Pois o templo de Deus é santo e esse templo sois vós” (1Cor 3,16-17). Estas palavras encontram ressonância no calvário, onde contemplamos o corpo que Jesus assumiu para viver a nossa vida e morrer a nossa morte.
O templo de Deus, ou seja, o corpo de muitos irmãos e irmãs sofre as consequências do mal e do pecado atuantes no mundo: corpos destruídos e mutilados pelas guerras, corpos vendidos na indústria da prostituição e do tráfico humano, corpos feridos pelo trabalho escravo, corpos descartados pela fome e pela miséria. Se alguém destrói o templo de Deus, Deus o destruirá. Pois o templo de Deus é santo e esse templo sois vós” (1Cor 3,16-17).
A paixão de Cristo, presente no sofrimento dos nossos irmãos e irmãs deveria atingir e ferir o nosso coração. Nunca nos esqueçamos de que somos templos de Deus. Todo ato de violência que fere e destrói o ser humano, templo vivo do Senhor, nos atinge e exige de nós a coragem para defendermos a vida e dignidade de cada pessoa.
O Descendimento do corpo de Cristo da cruz é um convite ao cuidado que devemos oferecer aos nossos irmãos e irmãs sofredores.
Na hora da morte de Jesus brilha a luz do amor nos gestos de cuidado com o seu corpo. As mãos de José de Arimateia, Nicodemos e sua Mãe, Maria, fazem-nos recordar todos os que lutam por justiça, promovem a vida e a cultura do cuidado com o ser humano.
José de Arimateia, membro rico do Sinédrio, era discípulo que vivia sua fé às escondidas por medo dos judeus (Jo 19, 38). Ele esperava o Reino de Deus (Mc 15,43; Lc 23,51) e ao ver Jesus crucificado, quis abraçá-lo e tirá-lo do Santo Madeiro. Cheio de coragem, apresentou-se como discípulo e pediu a Pilatos para tirar o corpo de Cristo da cruz. Confirmada a sua morte, Pilatos entregou o corpo de Jesus ao membro do conselho que o depôs num sepulcro novo, de sua propriedade, no qual ninguém havia sido sepultado (Mt 27,60; Lc 23,53; Jo 19, 41). Vejam como a morte de Cristo encheu de coragem a vida de José de Arimateia! Que a celebração da Paixão do Senhor ative em nós a coragem de amar e de se interessar pelos sofrimentos do próximo. Ser cristão é retirar Cristo da cruz a cada dia, pois são muitos os crucificados do nosso tempo.
O cuidado com o corpo de Jesus se manifesta ainda quando Nicodemos, um homem notável entre os judeus, levou consigo uns trinta quilos de perfume feito de mirra e aloés, para envolver com aromas, em faixas de linho, o corpo do Senhor (Jo 19,39-40). A extraordinária quantidade dos perfumes que supera toda a medida comum indica a realeza de Jesus. Seu corpo será depositado numa sepultura real.
Certa vez, era noite, Nicodemos havia procurado Jesus para conversar. E então Jesus dirigiu-lhe uma palavra que transformou sua vida para sempre: Nicodemos quem “não nascer de novo não poderá ver o Reino de Deus” (Jo 3, 3). É preciso nascer de novo a cada dia, é preciso nascer do alto. A partir de então, Nicodemos teve a certeza de que Jesus era o Messias enviado por Deus. Agora, no calvário, ele se recorda daquele momento de intimidade com o Mestre e oferece a Jesus a totalidade do seu amor simbolizada neste perfume feito de mirra e aloés. Totalidade que é sempre migalha diante da grandeza do amor de Deus para com o ser humano.
Antes de retirarmos da cruz o corpo do Senhor, voltemos nosso olhar para a placa da infâmia que está no ponto mais alto do Santo Lenho. Segundo o evangelista João, Pilatos mandou escrever este letreiro e o fez colocar sobre a cruz. Muitas pessoas leram esta inscrição, pois fora escrita em hebraico, latim e grego: “Jesus Nazareu, o rei dos judeus”. Jesus é Rei e seu domínio sobre nós é liberdade.
Aproximem-se José de Arimateia e Nicodemos! Aproximem-se da cruz de Cristo e toquem com veneração o corpo do Senhor! Com reverência retiremos esta inscrição e elevemos nossa prece a Jesus Crucificado, pedindo-lhe a graça de viver nossa vocação batismal continuando no mundo sua missão.
Um dos momentos mais dolorosos da paixão do Senhor foi sua coroação de espinhos. O Servo Sofredor sentiu dores lancinantes. Com devoção retiremos esta coroa, motivo de gozação e zombaria para aqueles que o condenaram. Nesta hora, Senhor, vos pedimos por aqueles que sofrem nos leitos de nossos hospitais e nos lares de nossas cidades. Concedei-lhes a graça de experimentar a vossa presença consoladora; recebam o carinho dos seus familiares e amigos, tenham um tratamento digno da saúde e encontrem alívio em suas dores.
Vossas mãos, Senhor, que acalmaram o mar bravio e os ventos fortes que davam contra a barca de Pedro, agora estão paralisadas e transpassadas pelos pregos da cruz. No entanto, pregadas na cruz, elas fizeram mais pela salvação do mundo do que movendo-se e parando a tempestade ou dando vida aos mortos e saúde aos doentes. Os pregos que transpassaram as mãos e os pés do Senhor ferindo sua carne, são os nossos pecados: é o nosso medo de crer, esperar e amar.
O cravo que feriu a mão direita de Jesus é a falta de fé que endurece o nosso coração e nos leva à indiferença diante do sofrimento humano. Retiremos da mão direita de Jesus este cravo que lhe causou tanta dor e peçamos a graça de crer. Senhor, pela chaga dolorosa que este cravo deixou em vossa mão, aumentai nossa fé.
O outro prego que transpassou sua mão esquerda é a ausência do amor, a rejeição ingrata de quem não soube responder ao Amor com amor. Ao retirá-lo de vossas mãos, Senhor, pedimos que seja arrancado do nosso coração o ódio e o egoísmo que nos impedem de viver a fraternidade.
O prego que feriu os pés de Jesus é a ausência da esperança diante do mal presente no mundo, levando-nos quase a acreditar que não vale a pena fazer o bem, promover a justiça social e a vida dos mais pobres. Ao retirá-lo dos pés de nosso Redentor pedimos a graça de sermos libertados do medo e do desânimo que nos impedem de caminhar ao encontro dos irmãos sofredores.
Acompanhemos a deposição do corpo de Jesus no esquife. Como não nos lembrarmos de sua Mãe! A tradição cristã nos ensina que o corpo de Jesus, após ter sido retirado da cruz, repousou por primeiro nos braços da Virgem Maria, Mãe da Piedade. No seu colo, Jesus Cristo, o Filho do Homem, que não tinha onde reclinar sua cabeça encontrou aconchego e fez sua páscoa definitiva.
A Páscoa de Cristo se aproxima. Participemos da festa “oferecendo-nos a Deus cada dia, com todas as nossas ações. Imitemos com os nossos sofrimentos a Paixão de Cristo, honremos com o nosso sangue o seu sangue, e subamos corajosamente à sua cruz. Se és Simão Cireneu, toma a cruz e segue a Cristo. Se, qual o ladrão, estás crucificado com Cristo, como homem íntegro, reconhece a Deus. Se por tua causa e por teu pecado ele foi tratado como malfeitor, torna-te justo por seu amor. Adora aquele que foi crucificado por tua causa. Preso à tua cruz, aprende a tirar proveito até da tua própria iniquidade. Adquire a tua salvação com a sua morte, entra com Jesus no paraíso, e saberás que bens perdeste com a tua queda. Contempla as belezas daquele lugar, e deixa que o ladrão rebelde fique dele excluído, morrendo na sua blasfêmia. Se és José de Arimatéia, pede o corpo a quem o mandou crucificar; e assim será tua a vítima que expiou o pecado do mundo. Se és Nicodemos, aquele adorador noturno de Deus, unge-o com perfumes para a sua sepultura. Se és Maria, ou a outra Maria, ou Salomé, ou Joana, derrama tuas lágrimas por ele. Levanta-te de manhã cedo, procura a ser o primeiro a ver a pedra do túmulo afastada, e a encontrar talvez os anjos, ou melhor ainda, o próprio Jesus[11].”
Mariana, 03 de abril de 2026
Dom Geovane Luis da Silva
Bispo de Divinópolis
[1] Agostinho, Sermo Guelferbytanus III, LH, 375.
[2] Papa Francisco, Spes non confundit
[3] Fabris Rinaldo, Os Evangelhos, p. 217.
[4] Fabris Rinaldo, Os Evangelhos, p. 217.
[5] Fausti, S., Una Comunità Legge Il Vangelo di Luca, p. 274.
[6] Gregório de Nazianzo, Oratio 14, De pauperum amore, LH, 236.
[7] CF 2026, 158
[8] Cf. Agostinho, Sermo Guelferbytanus III, LH, 376.
[9] Papa Francisco, Evangelii Gaudium, 86.
[10] Fausti, S., Una Comunità Legge Il Vangelo di Luca, p. 723
[11] Gregório de Nazianzo, Oratio 45, LH, p. 353.