Homilia de Dom Geovane Luís na Missa do Crisma 2026, na Catedral
“Vós sois os sacerdotes do Senhor, chamados ministros de nosso Deus.” | (Is 61, 6a)
Caros irmãos e irmãs, esta celebração marca o encerramento da Quaresma e manifesta a fecundidade da Páscoa de Cristo, pois neste dia abençoamos os santos óleos dos enfermos e dos catecúmenos, e consagramos o óleo do crisma. Somos um povo sacerdotal, chamado a renovar o nosso ‘sim’ a Jesus Cristo.
A páscoa de Cristo rejuvenesce a Igreja, por isso, a cada ano, na Vigília Pascal, todos os cristãos batizados, renovam suas promessas batismais. Mas hoje, os presbíteros renovarão também suas promessas sacerdotais, dispondo-se, mais uma vez, a servir o povo de Deus. Nunca nos esqueçamos de que “a imensa maioria do povo de Deus é constituída por leigos. A seu serviço, está uma minoria: os ministros ordenados[1]”.
“Todos os anos a Missa Crismal nos exorta a reentrar naquele ‘sim’ à chamada de Deus, que pronunciamos no dia da nossa Ordenação sacerdotal[2]”. Sacramentalmente, retornamos ao nosso primeiro amor, àquela opção fundamental que reordenou a nossa vida, enchendo-a de alegria e sentido. Não vos esqueçais de que sois os sacerdotes do Senhor, chamados ministros de nosso Deus (Is 61,6a).
Caros presbíteros, desde minha ordenação presbiteral, recito em silêncio aquela oração que o bispo reza enquanto unge as mãos do sacerdote com o óleo da alegria, o Crisma: Nosso Senhor Jesus Cristo, a quem o Pai ungiu com o Espírito Santo, e revestiu de poder te guarde, para a santificação do povo fiel e para oferecer a Deus o santo sacrifício.
Neste dia singular, ainda que brevemente, gostaria de partilhar com vocês o tecido espiritual que constitui esta prece que acompanha o rito da unção de nossas mãos.
- Senhor ungido pelo Pai com o Espírito Santo
Nesta oração a Igreja proclama que Jesus Cristo foi constituído Senhor e ungido pelo amor do Pai. Este amor é o Espírito Santo que o revestiu de poder e conduziu sua missão. Jesus tem consciência de ser o ungido de Deus, e, ao entrar na sinagoga de Nazaré Ele diz: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção” (Lc 4,18). Sob o dinamismo do Amor, Jesus Cristo se entregou por nós na cruz, derramou o seu Espírito e constituiu para si um povo sacerdotal.
- Nosso Senhor Jesus Cristo te guarde
Nesta breve suplica recitada pelo bispo, e que, por vezes, pode passar despercebida, por causa da emoção naquele momento, pede-se também a proteção para aqueles que assumem o múnus sacerdotal. Jesus Cristo, sumo e eterno Sacerdote, guarda e protege os que ele chamou e elegeu para participar da sua missão por meio do sacramento da ordem.
O Senhor Jesus Cristo prometeu aos discípulos: Eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos (Mt 28,20). Sua presença amorosa ao nosso lado é a proteção que Ele nos oferece. Isto não significa que viveremos uma vida tranquila e que as possíveis crises enfrentadas pelo ser humano não baterão à nossa porta. O caminho para se libertar da crise é assumi-la, reconhecer-se humano e inacabado, mas sempre aberto ao amor de Deus. A partir daí, deixaremos nosso falso heroísmo e buscaremos apoio nos irmãos que compartilham da mesma missão.
A amizade sincera entre nós e com Jesus é fonte de vida para o nosso ministério, nela encontraremos ânimo para sermos perseverantes, e em meio às tempestades, não termos medo de entregar a Deus a condução da barca da nossa vida e missão.
- Para a santificação do povo fiel
Caros presbíteros, exercendo a missão episcopal nesta amada Diocese, elevo esta prece ao Cristo Sacerdote, para que Ele os guarde e proteja ao longo da missão que lhes foi confiada: santificar o povo fiel.
Somos chamados a nos dedicar, com alegria e solicitude, à santificação do povo fiel e a oferecer a Deus o santo sacrifício. A santificação do povo fiel é obra do Espírito, autor e a fonte da santidade da Igreja. Mas isto não anula nossa atuação e empenho quotidianos, pois “toda verdadeira vocação nasce do dom de si mesmo, que é maturação do simples sacrifício”[3]. Pela graça de Deus cooperamos na obra santificadora do Senhor. “Muitas vezes pensamos que Deus conta apenas com a nossa parte boa e vitoriosa, quando, na verdade, a maior parte dos seus desígnios se cumpre através da nossa fraqueza[4]” e a partir dela.
Seremos cooperadores na obra santificadora de Cristo buscando com humildade a nossa santificação pessoal fora dos holofotes do teatro moderno: celebrando os sacramentos, sobretudo a Eucaristia, alimentado os fiéis com a Palavra, testemunhando nossa fé pelo amor aos mais sofredores e pobres. Só assim santificaremos o povo que nos foi confiado e não correremos o risco de nos transformarmos em ministros altaristas, que se preocupam com a performance litúrgica, mas se esquecem dos sofrimentos e necessidades do próximo! Não tenhamos dúvida de que o povo é santificado pela graça de Deus, mas esta mesma graça quis precisar de nós para se achegar ao coração das pessoas. Por isso, caros irmãos, “procurai a paz com todos, e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor; cuidai para que ninguém abandone a graça de Deus” (Hb 12,14-29).
- Para oferecer a Deus o santo sacrifício
Na eucaristia atualiza-se o sacrifício de Cristo. O Servo de Deus, Dom Luciano, assim se expressou: “em cada missa, na consagração, ecoa o eu te amo de Jesus por nós”.
A eucaristia tem o poder de nos libertar de uma vida autocentrada e egoísta. Ao celebrá-la nos associamos à entrega de Cristo na cruz e derrama-se sobre nós aquele amor que nos leva a sacrificar a própria vida pelos irmãos. Este sacramento abre as portas do nosso coração ao sofrimento e às necessidades do próximo.
O serviço e a capacidade de se sacrificar pelos outros são sinais distintivos dos amigos do Senhor e faz com que nos sintamos identificados com Ele, que veio para servir e não para ser servido. Este é o culto espiritual mais agradável ao Senhor.
O estilo de vida de Jesus é a norma que devemos seguir. Como os ouvintes de Nazaré mantenhamos os olhos fixos em Jesus (Lc 4,20). Cristo é o Mestre que ensina com a autoridade do amor. Em Nazaré ele anuncia que seu ministério será fonte de ternura e vida para todos, preferencialmente para os pobres e sofredores.
Nosso ministério deve estar compaginado ao ritmo da vida de Jesus, caso contrário, jamais agiremos “em nome d’Ele” e não seremos sacramento da sua ternura num mundo tão dilacerado por crises, divisões, misérias e sofrimentos.
Rezemos, pois, irmãos e irmãs, pelos nossos padres a fim de que eles perseverem no exercício desta missão tão humana e sublime: Nosso Senhor Jesus Cristo, a quem o Pai ungiu com o Espírito Santo, e revestiu de poder vos guarde, para a santificação do povo fiel e para oferecer a Deus o santo sacrifício. Amém.
Dom Geovane Luís da Silva
Bispo de Divinópolis
02 de abril de 2026.
[1] Francisco, Evangelii Gaudium, 102.
[2] Bento XVI, Pregações para o Ano Litúrgico,I, p. 307.
[3] Francisco, Patris Corde, 7.
[4] Francisco, PC, 2.