
Homilia de Dom Geovane Luís na Ordenação Presbiteral do Diácono Robersson Sérgio Duarte da Silva
“Apascenta as minhas ovelhas”
ORDENAÇÃO PRESBITERAL | DIÁCONO ROBERSSON SÉRGIO DUARTE DA SILVA
Igreja Matriz São Pedro, Pará de Minas – MG | 16 de dezembro de 2023
Amados irmãos e irmãs, nossa família diocesana está em festa! Hoje, mais um dos seus filhos, o Diácono Roberson, gestado no ventre da nossa amada Igreja Particular, se apresenta diante do altar e do povo santo de Deus para consagrar sua vida e cumprir para sempre a ordem de Jesus, o Bom Pastor: Apascenta as minhas ovelhas! Este foi o mandato de Jesus dirigido a Pedro, o primeiro entre seus pares.
Esta ordem de Jesus é dirigida a Pedro numa hora dramática da sua vida, pois ele havia perdido o encanto pela missão. A morte de Jesus na cruz deixou o grupo dos doze numa profunda desolação. Pedro e os demais discípulos haviam se esquecido do primeiro amor, do chamado ao pastoreio e voltaram a pescar para si mesmos, pois eram pescadores de profissão antes de terem encontrado e convivido com Jesus de Nazaré.
O Ressuscitado se manifestou aos seus amigos que se encontravam às margens do mar de Tiberíades. Ali Jesus lhes pede uma renovada prova de amor e fidelidade. Às margens do mar, Jesus, que estava morto e que agora vive de um modo novo, se manifesta aos seus discípulos com um verdadeiro corpo humano, com um coração humano que deseja ser amado: “Simão, filho de João, tu me amas?
No Evangelho tudo aquilo que Jesus diz a Pedro se refere a todos os discípulos, pois este apóstolo é o ícone da comunhão e da unidade sacramental da Igreja. O que Jesus diz a uma pessoa sempre refere ao grupo dos seus amigos e seguidores. Sua palavra é performativa, poderosa, capaz de modelar a vida da Igreja que nasceu do seu lado ferido enquanto ele adormecia na cruz.
Ao dirigir-se a Pedro, dando-lhe uma ordem à beira do lago, – apascenta as minhas ovelhas -, a Igreja entendeu que ele estava se dirigindo a ela. Desde então, esta ordem tornou-se norma para o seu agir no coração do mundo. A Igreja é o sacramento da ternura de Cristo, o Bom Pastor, agindo no mundo.
Cuidar do rebanho do Senhor
Deste mandato tão breve de Jesus – apascenta as minhas ovelhas – podemos colher preciosos ensinamentos para nossa vida e missão. Apascentar é cuidar: somos chamados a ser uma Igreja que cuida com ternura de todos os irmãos e irmãs que nos foram confiados. O cuidado quotidiano, humilde e silencioso tem a força de transformar a vida inteira das pessoas e de uma comunidade. Assim atuam os pais e as mães que se dedicam inteiramente ao bem estar dos seus filhos e filhas. Eles apascentam. Eles cuidam. Esta é a mais bela imagem para entender o que Jesus pediu a Pedro, e hoje, caro filho, pede a todos nós.
Diante da sociedade do espetáculo e da aparência, corremos o sério risco de partir para uma outra margem que se opõe ao ideal de Jesus Cristo, o Bom Pastor. Ele quer a Igreja do cuidado e não uma casa de Shows e eventos espetaculosos que anestesiam corações apenas por um instante, mas não têm a força de tecer a fraternidade e a comunhão tão necessárias e desejadas ardentemente por Jesus ao instituir o nosso ministério sacerdotal.
Ao dizer a Pedro, apascenta as minhas ovelhas, Jesus estava ordenando sua vida e ministério para o cuidado e a atenção preferencial, para com os mais sofredores, pobres e marginalizados.
O Rebanho pertence ao Senhor
Caro filho, não obstante a vulnerabilidade do apóstolo Pedro, Jesus Ressuscitado lhe entregou o seu rebanho. Pasce oves meas… Apascenta as minhas ovelhas. Ele entrega o rebanho, mas permanece junto ao pastor para que este conduza as suas ovelhas às pastagens vicejantes da fé, do amor, da justiça e da solidariedade. O Senhor nos entrega o povo que lhe pertence e ao qual também nós pertencemos, pois fomos gerados pela fé batismal no ventre do povo de Deus. Pedro, mais tarde, intuiu a beleza da sua missão ao dizer em nome da Igreja a todos os seus membros: “apascentai o rebanho de Deus, confiado a vós; cuidai dele conforme Deus quer, não por obrigação, não por interesse vergonhoso, mas de boa vontade; não como dominadores da herança a vós confiada, mas antes, como modelos do rebanho. Assim, quando aparecer o Pastor supremo, recebereis a coroa imperecível da glória” (1Pd 5,2-4). Caro filho, cuide com amor do povo de Deus e nunca se esqueça de que somos retirados do seu meio para servi-lo com solicitude. Serve para nós a máxima de Santo Agostinho expressa em seu comentário ao Evangelho de São João: “Aqueles que apascentam as ovelhas de Cristo querendo que sejam deles e não de Cristo, claramente amam a si mesmos e não a Cristo, e que apascentam as ovelhas ou por desejo de gloriar-se, ou para ter poder, ou para ganhar, e não por amor de obedecer, de ajudar e de agradar a Deus”.
A amor se transforma em missão
O pastoreio é a máxima expressão do amor de Pedro por Jesus. Antes de responder ‘sim’ ao ofício de amor, o Mestre lhe perguntara por três vezes se Ele o amava. Durante a prisão e o julgamento de Jesus, Pedro se defrontou com a sua fraqueza e chorou amargamente (Lc 22, 62), pois havia dito que não conhecia o Mestre (Lc 22,57), não estava com ele e não era seu discípulo (Jo 18, 17.25-27). Como bem sabemos, na Sagrada Escritura, os verbos conhecer e amar se equivalem. Sendo assim: conhecer é amar e amar é conhecer.
A pergunta de Jesus feita a Pedro nos questiona profundamente. A cada um de nós ele dirige o seu olhar compassivo e mesmo ciente da nossa fragilidade, ainda hoje, Ele nos pergunta: Tu me amas?
Vale a pena observar que no texto original do evangelho de João, por duas vezes Jesus perguntou a Pedro se ele o amava, mas o Apóstolo respondeu apenas que gostava do Mestre. A partir de então, Jesus não mais perguntou a Pedro se ele o amava, mas se ele tinha apreço ou melhor se gostava verdadeiramente dele. Amar (ágape) e gostar (filia) são níveis diferenciados de expressão do nosso afeto.
Pedro se entristeceu, pois Jesus lhe perguntou por três vezes se ele o amava. Certamente ele teve que se defrontar com a pequenez do seu amor pelo Mestre. Pedro não pode negar o amor que enche o seu coração, mas agora não se apoia mais sobre si mesmo, pois a triste experiencia da negação o fez entender que ele não tem solidez em si mesmo e agora ele se apoia só em Jesus: “Tu sabes que eu te amo”.
E isto é tudo o que ele podia oferecer ao Ressuscitado naquela hora: o seu pequeno e frágil afeto de amigo ao Mestre que havia amado os seus discípulos até ao extremo da sua morte na cruz.
O que mais nos consola neste diálogo entre Jesus e Pedro, é saber que o Ressuscitado aceita o pouco amor que Pedro pode lhe oferecer e o fortalece com aquele Amor que só Ele, o Senhor, pode dar plenamente ao ser humano.
Jesus pediu a Pedro a inteireza do seu amor, o amor que é ágape e se transforma em doação, mas ao final se Jesus se contentou apenas com a amizade que o apostolo poderia lhe oferecer e assim Pedro recebeu a graça de prosseguir em sua missão.
Deus é assim: Ele aceita a migalha do nosso amor. Nunca estaremos à altura do seu amor primeiro, mas isto não pode nos intimidar ou entristecer, nem mesmo retardar o nosso sim ao chamado que Ele nos faz. Não esperemos amá-lo perfeitamente para segui-lo, pois o amor cresce no coração do discípulo à medida em que ele se dispõe a seguir e servir o Mestre. Jesus aceita o que somos no hoje de nossa existência, nos assume plenamente se confiarmos n’Ele e transforma nosso pouco amor em fonte de vida para todos.
Jesus aceitou a migalha do amor oferecido a ele pelo Apóstolo Pedro. Podemos dizer que naquela hora, realizou-se mais uma vez o esvaziamento de Jesus, a sua gloriosa kenósis. No princípio a Palavra se fez carne e veio morar entre nós (Jo 1, 14) e agora, em sua páscoa, o Cristo glorioso se humilha, aceita o pouco amor de Pedro, colocando-se no mesmo nível afetivo daquele que desejava abandonar a missão apostólica e retomar sua profissão de pescador.
O pedido que Jesus fez a Pedro se dirige aos discípulos e àqueles que acreditariam n’Ele por causa do testemunho e da palavra deles. O seu pedido hoje, se dirige a cada um de nós. O que Jesus pediu a Pedro? O seu amor por ele. Antes de lhe confiar a missão e lhe entregar a Igreja, Jesus Cristo colocou esta condição: seu amor por Ele. Não pede a Pedro eficiência e capacidade para administrar a sua Igreja, não lhe pergunta se ele é um exímio organizador e pastoralista; se é muito inteligente para defender a Igreja dos seus adversários. Não. Apenas pede: “Tu me amas mais do que estes?”
Enquanto ministros ordenados, nossa vida e missão se constrói a partir deste vínculo de amor com Jesus, e não há outro fundamento para a nossa existência presbiteral, pois o nosso ministério deve ser uma irradiação do amor de Cristo. Nosso ministério vem do amor do Senhor e nos conduz ao seu amor. Pedro sabe que a fonte do amor não está dentro dele, sabe que quando Jesus lhe pergunta: “tu me amas?”, ele, que é a fonte da caridade, deseja simplesmente oferecer-lhe este amor.
Jesus deseja receber o nosso amor pequenino para transformá-lo em missão e serviço para todos os nossos irmãos e irmãs. Ele nos faz esta pergunta porque quer que nós lhe peçamos este dom maravilhoso. Nós temos um grande desejo de amar o Senhor, mas somos frágeis e incapazes de uma perfeita fidelidade se confiarmos unicamente em nossos pobres recursos. “Mas é Jesus mesmo que nos dá o dom de lhe responder: Tu sabes que te amo. Te amo não porque sou perfeito, porque me sinto forte, generoso, mas porque tu, oh Senhor, és generoso comigo e me faz capaz de te amar um pouco e a cada dia mais[1]. Seja Serviço de amor apascentar rebanho do Senhor.
[1] Cf. A. Vanhoye, Il Pane quotidiano della Parola, Piemme, 2020, 228.
Dom Geovane Luís da Silva
Bispo Diocesano de Divinópolis – MG
Assista a homilia no Youtube, na transmissão realizada pela BR SUPER, da Celebração Eucarística com Rito de Ordenação Presbiteral do Diácono Robersson Sérgio.