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15 de dezembro de 2023
Foto do artigo Homilia de Dom Geovane Luís na Ordenação Presbiteral do Diácono Anderson da Fonseca Pereira

Homilia de Dom Geovane Luís na Ordenação Presbiteral do Diácono Anderson da Fonseca Pereira

“Como o Pai me enviou, também eu vos envio” 

ORDENAÇÃO PRESBITERAL | DIÁCONO ANDERSON DA FONSECA PEREIRA

Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição, Cláudio – MG |  09 de dezembro de 2023

 

Amados irmãos (ãs), o Advento do Senhor enche de alegria e de esperança o nosso coração. A celebração destes dias que precedem o Natal é uma recordação jubilosa da proximidade da vinda do Senhor. Cremos que Ele veio a este mundo, assumiu a veste da nossa humanidade, nascendo da Virgem Maria, Imaculada desde a sua concepção. Cremos que um dia Ele virá para julgar a história da humanidade e exigirá de todos nós a ousadia do amor; pois ao final do nosso entardecer seremos julgados pelo amor. Aquele que veio e um dia há de vir, hoje, pela ação do Espírito Santo, vem ao nosso encontro e nos encoraja: “Não tenhas medo, pois eu estou contigo para defender-te” (Jr 1, 8). Abramos, pois, as portas do nosso coração para acolhê-lo e fazermos a experiência de renascer em Cristo. Nascer é fácil, sublime ousadia é renascer, prosseguir sem apagar as marcas das feridas.

A liturgia do Advento nos encaminha para o início da páscoa de Cristo, ou seja, da sua passagem neste mundo e deste mundo para a Casa do Pai, a nossa morada definitiva.

Jesus Cristo, crucificado e ressuscitado, manifestou-se aos seus discípulos e lhes mostrou as marcas das feridas no seu corpo, expressão máxima da sua compaixão que salva e liberta integralmente o ser humano. O Ressuscitado nos ensina que é necessário prosseguir, mesmo feridos, mas confiando unicamente N’Ele, o vencedor do império da morte e do pecado.

Neste dia em que celebramos a ordenação presbiteral do Diác. Anderson, ressoa forte aos nossos ouvidos a palavra encorajadora de Deus dirigida a Jeremias num momento desafiante da sua missão profética: “Não tenhas medo, pois eu estou contigo para defender-te”. A partir daquela hora o profeta, encorajado pela palavra de Deus, seguiu o seu caminho e viveu plenamente sua vocação.

Sua missão profética é um prenúncio da vinda do Messias, Jesus Cristo, o Filho amado de Deus, que ao entrar neste mundo se defrontou com o poder das trevas e do mal, vencendo-o através da sua entrega livre e amorosa na cruz. Este trecho do evangelho de João que ouvimos a pouco nos remete à vitória pascal de Cristo e nos fala da coragem necessária para evangelizar hoje, da presença consoladora do ressuscitado entre nós, da paz que faz nascer a justiça, da alegria do encontro com o Senhor e da missão que Ele nos confia!

Coragem para evangelizar – Os discípulos estavam com medo e por isso estavam reclusos dentro de casa. As portas daquela casa estavam fechadas. A morte de Jesus sepultou suas esperanças e frustrou suas humanas expectativas. Eles esperavam que Jesus instaurasse um reino de poder e força contra a prepotência romana que dominava toda a região na qual eles viviam. Seguiram o Mestre até certo ponto e não foram capazes de acolher o grande mistério de Deus que se revelou no escândalo e no silêncio da cruz. Após a morte do Senhor, os discípulos temiam sofrer a perseguição das autoridades judaicas. Por isso ficaram fechados dentro de casa. Deixaram de viver, pois o medo rouba a vida das pessoas e a vida só começa verdadeiramente quando vencemos o medo. Coragem é ir com medo, assim aprendemos da grande Doutora da Igreja, Santa Edith Stein. Jesus se manifestou aos discípulos porque desejava lhes oferecer vida em abundância (Jo 10).O medo é retração da vida, a coragem que nasce do amor a Jesus Cristo transforma-se em vida expansiva, missão e serviço. Conhecendo a fragilidade daqueles que Ele mesmo escolheu e chamou, Jesus foi ao encontro deles para lhes encorajar.

Neste trecho do evangelho de São João ficou evidente que Jesus foi ao encontro dos seus ao cair da noite. Deste modo, Jesus ressuscitado se revela como aquele que surpreende o ser humano. Entrando na vida dos seus amigos, Ele destrói os seus projetos pessoais, fazendo-os realizar o sonho e o projeto de Deus. Os discípulos estavam descrentes, pois já era o anoitecer daquele dia, o primeiro da semana. Justamente quando já não havia mais possibilidade de esperar e crer é que Jesus os surpreende com sua presença gloriosa e humilde. O Evangelista acentua que Jesus entrou e pôs-se no meio deles. Aqui não se trata apenas de atravessar os umbrais simples daquela casa. Quando se diz que Jesus entrou, o discípulo amaod quis dizer que Ele veio e se manifestou para ficar junto com os seus amigos e tomar parte da vida deles. O Ressuscitado deseja permanecer junto aos seus amigos, não se trata de uma visita efêmera ou passageira. No evangelho de Mateus, Jesus dirá: “Não tenhais medo. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28, 10.20). Jesus não deseja apenas ser um passante na vida dos seus, mas quer permanecer com eles. Esta é a norma para todos os ministros ordenados. A permanência com Ele faz crescer em nós o deseja de permanecer junto ao povo. Somos ordenados para o povo e devemos cultivar a alegria de conviver e suportar junto ao povo que nos foi confiado, as suas lutas, dores, sofrimentos, medos e inseguranças. Se o fizermos seremos ministros da consolação de Cristo e em meio às dores e sofrimentos do povo encontraremos o Senhor.

A presença consoladora do Ressuscitado – A presença de Jesus fez a diferença na vida dos seus amigos. O evangelho de hoje evoca a qualidade da presença do Ressuscitado junto aos seus amigos temerosos. Presença consoladora que encoraja, pacifica e faz renascer a alegria. Assim também deve ser a nossa presença na sociedade e no mundo. O mundo tem necessidade do testemunho luminoso dos cristãos. Somos chamados a fazer a diferença porque cremos em Jesus Cristo e somos seus discípulos e discípulas. Ao entrar naquela casa fechada o Ressuscitado saúda a comunidade reunida: “A Paz esteja convosco”.

Anunciadores e promotores da paz – Esta saudação, Shalom, significa plenitude de bens, vida, alegria, saúde, realização. Ela condensa em si tudo aquilo que o ser humano deseja e tem necessidade. Ao saudar os seus amigos, Jesus os constitui como verdadeiros promotores e servidores da paz e da unidade. Esta é a missão da Igreja no mundo: anunciar e promover a paz, pois do que era dividido ele fez uma unidade. Cristo é a nossa paz (Ef 2, 14). Esta saudação foi acompanhada por um gesto solene. Depois dessas palavras, Jesus mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos se alegraram por verem o Senhor (Jo 20, 2). Suas mãos e o seu lado trazem os sinais das chagas abertas na hora da sua morte na cruz. O Ressuscitado é o Crucificado, por isso ele traz em seu corpo as marcas dos tormentos da sofridos durante sua paixão. Jesus com suas mãos abertas e seu lado exposto para a contemplação amorosa dos seus amigos, deseja ardentemente que eles façam a experiência quotidiana de uma vida pascal, prosseguindo sem medo, levando consigo as marcas da própria fragilidade, mas ao mesmo tempo seguros de que não lhes faltará a força do seu amor e da sua presença gloriosa junto a eles. Erguendo as mãos e mostrando o seu lado, Jesus nos revela que a paz tem como fonte o mistério da sua páscoa. A paz verdadeira nasce da ousadia do amor.

Alegria do encontro com o Senhor – Os discípulos se alegraram por verem o Senhor (Jo 20, 20). O encontro com Jesus faz nascer sem cessar a alegria. Sua presença entre os discípulos trouxe alegria aos seus corações temerosos e entristecidos. A alegria do discípulo é o remédio para curar a enfermidade de um mundo atemorizado pelo futuro e oprimido pela violência e pelo ódio. Ela nasce da certeza da fé, que serena o coração e capacita os discípulos para anunciar a boa nova do amor de Deus. Querido filho, Diác. Anderson, “Conhecer Jesus é o melhor presente que qualquer pessoa pode receber; tê-lo encontrado foi o melhor que ocorreu em nossas vidas, e fazê-lo conhecido com nossa palavra e obras é nossa alegria” (DAp 29)

Enviados em missão – Jesus reveste os seus amigos de poder, os constitui verdadeiros anunciadores e promotores da paz e os envia em missão: “Como o Pai me enviou, também eu vos envio. E depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: Recebei o Espírito Santo” (Jo 20, 21-22). A missão nasce do amor de Cristo pelo mundo e pelas pessoas, por isso Jesus havia dito também aos seus amigos: “Como o Pai me amou, eu também vos amei”. Jesus sabia que seus amigos eram frágeis e careciam da força do alto, o Espírito Santo, para exercerem com coragem a missão que lhes fora confiada. Só “o Espírito Santo faz os Apóstolos saírem de si mesmos e transforma-os em anunciadores das maravilhas de Deus. Ele infunde a força para anunciar a novidade do Evangelho com ousadia, em voz alta e em todo o tempo e lugar, mesmo contracorrente” (EG 259).

Daqui a pouco, caro filho, suas mãos serão ungidas e então rezaremos: “Nosso Senhor Jesus Cristo, a quem o Pai ungiu com o Espírito Santo, e revestiu de poder te guarde, para a santificação do povo fiel e para oferecer a Deus o santo sacrifício”.

Esta oração é uma súplica ao Senhor, a fim de que proteja e guarde no seu coração aqueles que Ele mesmo chamou ao ministério sacerdotal. É um ato de fé em Jesus Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote, ungido pelo Espírito Santo. Somente n’Ele, o nosso ministério presbiteral encontra seu verdadeiro sentido, pois Jesus Cristo, o Ungido do Pai, foi revestido de poder ao doar-se por nós na cruz, e ressuscitando derramou o seu Espírito sobre a Igreja, constituindo para Ele um Povo Sacerdotal.

Neste dia de sua ordenação caro filho, elevamos esta súplica ao Cristo Sacerdote e Bom Pastor, para que Ele lhe ajude na missão de ensinar, santificar e conduzir o povo fiel. Hoje você será promovido ao serviço do Povo de Deus (PO 1), mas na lógica do evangelho, só existe promoção no horizonte do amor e do serviço a Deus e aos irmãos, pois é maior aquele que serve (Mt 23,12). Você é chamado a se dedicar, com alegria e solicitude, à santificação do povo fiel e a oferecer a Deus o santo sacrifício.

A santificação do povo é obra do Espírito, autor e fonte da santidade do Povo de Deus. Mas nesta prece, torna-se claro que o padre deve cooperar na obra do Espírito. Mas de que maneira? Buscando ele mesmo sua santificação pessoal através do exercício do ministério sacerdotal: celebrando os sacramentos, alimentando os fiéis com a Palavra, testemunhando sua fé pela caridade e amor aos mais sofredores e necessitados. Só assim você santificará o povo que lhe for confiado! Não tenha dúvida de que o povo é santificado pela graça de Deus, mas esta mesma graça deverá resplandecer no seu jeito de ser e agir. Jesus quer evangelizadores que anunciem a Boa-Nova, não só com palavras, mas sobretudo com uma vida transfigurada pela presença de Deus (EG 259).

Caro filho, ao celebrar sua ordenação presbiteral eu não poderia deixar de recordar a multidão de irmãos e irmãs privados de liberdade em nosso território diocesano. Sua presença junto a eles tem sido um balsamo que se derrama em suas feridas. Bendito seja Deus pela ação silenciosa e profética da sua presença e demais agentes da pastoral carcerária de nossa amada diocese em nossos presídios. Nestes espaços vocês são portadores do perdão de Deus, oferecido a nós em Cristo Jesus. Após derramar o seu Espírito sobre os apóstolos Jesus estabeleceu que seus discípulos fossem autênticos portadores do perdão: “A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados, a quem não os perdoardes, eles lhes serão retidos”. O presbítero é constituído em Cristo, por Cristo e com Cristo, ministro da reconciliação e do perdão. Desejo que seu ministério seja um transbordamento da ternura de Deus na vida do seu povo santo e, sobretudo, junto aos mais pobres e sofredores.

 

Dom Geovane Luís da Silva
Bispo Diocesano de Divinópolis – MG

 

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