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Para tudo há um tempo oportuno…

Estas palavras abrem o capítulo 3 do livro do Eclesiastes e, à lista do autor, poderíamos acrescentar: há tempo de chegar e tempo de partir. Com este versículo, quero comentar com os leitores do site as transferências de padres que foram anunciadas recentemente e refletir sobre a vocação missionária do padre diocesano.

Serão trinta e dois os padres que partirão para novos “territórios de missão”. Das cinquenta e três paróquias, trinta e duas receberão presença nova, seja para estar só ou se associar a outros irmãos padres que já estejam ali. Alguns, já em novembro, outros, em janeiro, outros, em fevereiro e outros, após a Semana Santa. Em princípio, nenhuma anormalidade. Dos trinta e dois padres, a maioria já tinha mais de seis anos de presença nas comunidades de onde estão saindo; alguns eram vigários paroquiais que, depois de uma experiência pastoral inicial com outro padre, normalmente vão, sozinhos ou não, para outras comunidades; e, finalmente, havia aqueles que, estando como administradores paroquiais, não tinham completado seis anos nos locais de onde estão sendo transferidos, mas nesta função não se pode reivindicar este tempo, já que esta função não assegura a estabilidade canônica, que é direito dos párocos. Desta última categoria, apenas três foram remanejados. Seria compreensível a resistência e a inaceitação destas comunidades paroquiais, não das demais. Mas estes três irmãos padres saem para outras tarefas para as quais eles têm, segundo nosso parecer, o perfil exigido para a nova missão. E isso é fundamental, apesar de, nem sempre, ser possível fazer transferências com este critério. Mas, tentamos! Ainda podemos elencar como motivos para algumas transferências o pedido por parte do padre ou uma necessidade considerada justa.

O bispo não tem prazer em transferir padres, porque conheço, na pele, o sofrimento humano e eclesial que isso significa (passei por sete paróquias nos meus vinte e um anos de sacerdócio), sobretudo se o padre está bem entrosado, é querido e identificado com as comunidades. Contudo, essa lista de coisas e motivos que poderiam impedir ou dificultar uma transferência não justificam a manutenção do padre ali. Por natureza e ofício, o padre diocesano, está ligado, sacramentalmente, a uma Igreja Particular e a um bispo diocesano. Mesmo que seja padre da e para a Igreja toda, ele realiza dentro da sua diocese a dimensão missionária da sua vocação própria. É, ali, no universo de paróquias que compõem uma diocese  que o padre diocesano desenvolve e vive o dinamismo missionário da sua condição. Não sai da diocese, mas a vê como o seu território de missão. Evidentemente, não cercearíamos nenhum padre que quisesse fazer uma experiência de missão em terras mais distantes (e temos quem queira!), mas não podemos concordar que padres se apeguem, aferradamente, a paróquias das quais não querem sair. Primeiro, porque vocação não missionária apodrece e estraga os ambientes (mesmos que os estragos não sejam perceptíveis ou não queiram ser vistos!). Depois, é importante entender que a Igreja é confiada ao bispo e, cada padre, numa relação de confiança e solidariedade pastoral com ele, recebe uma paróquia para, ali, agir e, sacramentalmente, ser presença do Cristo-Cabeça, que o bispo personifica na Igreja que lhe foi confiada. Finalmente, se o padre tem dotes e habilidades que o tornaram tão querido e tão fecundo nas suas atuais comunidades, isso é talento que outros lugares também precisam ou merecem. Caso seja um padre cuja presença possa trazer dificuldades ou desafios (e isso não lhe tira a graça sacerdotal!), é preciso também fazê-lo avançar missionariamente para condividir com os demais irmãos e comunidades o dever de cuidar e zelar por esta “vocação difícil”. Onde não encontraremos desafios e surpresas lidando com pessoas? As nossas comunidades deveriam ser lugares onde isso fosse entendido e estimulado, com clareza e disposição, para que os padres de toda qualidade pudessem circular, com amor missionário, entre nossas, hoje, cinquenta e três paróquias. Fixar-se, indefinidamente, não é expressão de maturidade missionária, mesmo que se trabalhe muito! Um coração sacerdotal missionário sente necessidade e desejo de partir, mesmo quando tudo está bem, quando todos o querem e amam, quando tudo está pronto para poder ser usufruído por quem construiu…

Assim, sou grato, imensamente, aos irmãos sacerdotes que entenderam já agora este apelo do Papa Francisco (EG 27) e do próprio Jesus, que compreenderam que paróquia e pároco indicam lugares e missões “provisórios”.

Paróquia é “casa de peregrino, estrangeiro ou forasteiro”, isto é, casa de gente de passagem, cuja residência ou cidadania é “outra”. Pároco é o “forasteiro, peregrino, hóspede” ou o “de passagem”. Desta vocação falou um pequeno e precioso documento do início do segundo século, chamado Carta a Diogneto, tratando da presença dos cristãos neste mundo. O texto é longo e aborda outras temáticas, mas vale a pena citá-lo:
“Os cristãos, de fato, não se distinguem dos outros homens, nem por sua terra, nem por sua língua ou costumes. Com efeito, não moram em cidades próprias, nem falam língua estranha, nem têm algum modo especial de viver. Sua doutrina não foi inventada por eles, graças ao talento e a especulação de homens curiosos, nem professam, como outros, algum ensinamento humano. Pelo contrário, vivendo em casas gregas e bárbaras, conforme a sorte de cada um, e adaptando-se aos costumes do lugar quanto à roupa, ao alimento e ao resto, testemunham um modo de vida admirável e, sem dúvida, paradoxal. Vivem na sua pátria, mas como forasteiros; participam de tudo como cristãos e suportam tudo como estrangeiros.Toda pátria estrangeira é pátria deles, a cada pátria é estrangeira. Casam-se como todos e geram filhos, mas não abandonam os recém-nascidos. Põe a mesa em comum, mas não o leito; estão na carne, mas não vivem segundo a carne; moram na terra, mas têm sua cidadania no céu” […]

É no exercício terreno da peregrinação e nos sinais e nomes que a simbolizam que vamos como Igreja, como sujeitos eclesiais diversos, tomando consciência de que somos “cidadãos do céu” e não se pode perder de vista este itinerário espiritual e humano. Nós, os sacerdotes, somos chamados a expressar isso na dimensão missionária e peregrina da nossa vocação. “Queridos, vocês são estrangeiros e viajantes” (1Pd 2,11).

Sobre todos suplico as bênçãos do Senhor, que deve ser anunciado por toda parte!

 

 

Dom José Carlos Campos, Bispo da Igreja de Divinópolis