Amigo pessoal do Papa visita Divinópolis e dá entrevista coletiva
Ele apareceu pontualmente na hora marcada, acompanhado de Frei Laércio Jorge, que havia agendado conosco a entrevista. Dom Cláudio Hummes, é Cardeal da Igreja e amigo do Papa Francisco. Foi ele que pediu ao novo Papa, após sua eleição, que não se esquecesse dos pobres. Talvez, por isso, o Papa tenha escolhido o nome “Francisco”. Esse nome lembra os pobres, a paz, a ecologia e a reforma da Igreja. Cardeal Hummes já desempenhou tantas funções na Igreja que fica difícil enumerá-las. É gaúcho de nascimento, mas já percorreu o Brasil inteiro, inclusive morou em Divinópolis de 1954 a 58, quando estudou teologia. Sua ordenação sacerdotal também foi em Divinópolis. Em 2008, retornou à Cidade para celebrar seu jubileu de ouro sacerdotal. Em passagem pela Cidade, recebeu diversos jornalistas e, numa entrevista coletiva, falou sobre diversos assuntos atuais. Seu encontro com a imprensa aconteceu no Espaço Cultural dos Franciscanos, às 16 horas da quarta-feira, 25/09. O Cardeal, bem humorado, respondeu a todas as perguntas e falou sobre diversos temas, alguns elencados em seguida:
Como vê a evangelização hoje: grandes desafios. Descristianização, sobretudo, na Europa. Secularização da sociedade. A religião, de maneira geral, perdeu apoio, por parte da sociedade. A cultura relativista, secularizada e urbana, pós-moderna apresenta grandes desafios para a ação das religiões e da Igreja. Outro desafio é imigração de católicos para outras confissões cristãs, na América Latina. A Igreja só vai conseguir enfrentar esses desafios, esquecendo-se de si mesma para ir ao encontro do povo. Não basta emitir documentos e comunicados. O encontro deve ser físico. É preciso buscar aqueles que perderam o rumo na vida. A Igreja precisa ser misericordiosa e ir ao encontro dos pobres. Assim estará realizando bem sua missão.
Quanto ao nome “Francisco”: Sobre isso, foi o próprio Papa, quem disse aos jornalistas durante uma audiência. Isso aconteceu com muita simplicidade. De fato foi como ele contou. Quando a votação crescia pro lado dele e ele atingiu quantidade necessária para ser eleito, disse-lhe que não se esquecesse dos pobres. Estava ao lado dele e o abracei, ali mesmo, com toda a espontaneidade. Eu não preparei nada. Ele também não havia escolhido o nome de Francisco. Por isso, foi mesmo uma coisa de Deus. A escolha do nome “Francisco”, com certeza, foi por causa dos pobres e também por causa da paz. São Francisco lembra muito isso. Veja o vídeo:
Ser Cristão hoje: Penso que deveria partir do que o papa chama de autorreferencial. O outro deve ser a referência para nós. Existem hoje, muitas pessoas e até países, considerados descartados. Isso, os cristãos não devem admitir. A Igreja deve dar o exemplo de inclusão. O Cristão deve, em primeiro lugar, encontrar-se com Deus e depois com as pessoas. Devemos acender luzes que indiquem novamente o caminho. Deus é Pai que nos conhece e acolhe. Devemos evangelizar a todos, inclusive os que estão nas periferias, existenciais e geográficas. A Igreja deve ser aberta e construtora de pontes entre as pessoas.
Casos difíceis … Corremos o risco de ser moralistas. A Igreja é anúncio de uma boa notícia. Deus nos conhece e nos ama. Facilmente, julgamos as pessoas, mas Deus é que sabe como é o caminho de cada uma. Devemos tentar ajudar a todos a caminhar dentro de sua situação e encontrar novamente o sentido de suas vidas. É preciso ajudar as pessoas a caminharem apesar das situações em que acabaram se colocando… É claro que o seguimento de Jesus é exigente e quem se propõe a isso deve suar a camisa, mas isso não pode ser através de um moralismo que oprime e reduz as pessoas.
Conselhos a um jovem padre: Encontro pessoal com Jesus e com os irmãos. Ver em Jesus alguém que o encanta. Ser encantado com a vida e com Deus que se manifesta em Jesus. Deixar-se interpelar pelo atual Papa. Ir ao encontro das pessoas assim como Jesus que não desqualifica ninguém, mas procura trazê-las para Cristo. Deus quer a todos. Ele nunca é contra nós. Ele é sempre ao nosso favor. Ele me encoraja, liberta e me resgata para a vida…
Alegria do Papa Francisco: O mundo estava precisando disso e os católicos também. Os católicos estavam angustiados e sem esperança. O Papa chegou e nos apontou o caminho. Os católicos hoje estão felizes e de cabeça erguida. Isso eu chamo de ação do Espírito Santo. Não foi obra dos cardeais. Nós, Cardeais, livremente, elegemos o Papa. Não há mágica nisso. Deus respeita nossa liberdade. Mas, uma vez eleito, Deus faz do novo Papa o seu ungido. Ele entra e age na história sem anular a liberdade humana…
Ecumenismo: É fundamental. O movimento ecumênico é anterior ao Concílio. A Igreja sabe que deve trabalhar pela união do seu povo. Jesus rezou pela unidade dos cristãos. O ecumenismo é um dom de Deus, mas nós devemos acolher esse dom. A história acabou dificultando muito isso. O Papa Francisco, tem buscado o diálogo com as outras religiões. Tem dito palavras de muita abertura, inclusive, com o Islã. Apesar das dificuldades nesse processo, as religiões dão um grande exemplo para a sociedade humana buscando esse entendimento.
Papa brasileiro: Não deve importar a origem geográfica do Papa. O importante é escolher a pessoa adequada para aquele momento da história. Mas, um Papa latino-americano foi um passo muito grande. A Europa foi uma grande mãe. Mas, foi importante pensar que uma filha também pudesse governar. Por isso, o passo foi muito importante e definitivo. A partir de agora é mais fácil eleger um Papa que venha de outras partes do mundo. O caso da renúncia do Papa Bento XVI, também abriu um precedente para os futuros Papas da Igreja. Após 600 anos, ninguém acreditaria que isso fosse acontecer. Por esses motivos eu digo que estamos vivendo um novo tempo na Igreja.
O Sr. poderia ser o próximo Papa: Certamente não. O Papa pode ser eleito não apenas entre os cardeais. Todo batizado, poderia ser o Papa desde que fosse ordenado Bispo de Roma. Normalmente, é eleito um cardeal, mas isso não é uma regra necessária. Mas, somente no Brasil, somos nove cardeais, atualmente…
Processo de escolha de um bispo: Alguém até disse que eu viria anunciar o novo bispo de Divinópolis. Eu não sei quem virá e quando virá. Se soubesse também não poderia dizer. O tempo que Divinópolis está sem bispo, não é algo raro ou extraordinário. Às vezes, é difícil encontrar um candidato com o perfil adequado para essa ou aquela diocese. Outras vezes, alguém pode ser convidado e não aceita o convite. Nesse caso, o processo de escolha é retomado. Isso pode atrasar a nomeação de um novo candidato. O processo é assim: Os bispos e padres sugerem alguns nomes para a Nunciatura. A Nunciatura faz uma pesquisa sigilosa sobre os nomes apontados. Após isso, três nomes são enviados para Roma. A Congregação para os Bispos estuda esses nomes e leva-os ao plenário. Então um deles é indicado pelo plenário. Esse nome indicado é levado ao Papa que pode aceitar ou rejeitá-lo…
Bispo com Cara de Principe: Eu me olho todo dia no espelho (risos)… O Papa tem razão. Bispo não deve ser príncipe. O Papa diz tudo isso de forma muito espontânea. Mas, acaba acertando “na cabeça do prego”. Está tudo dito. Bispo deve ser pastor e não príncipe. A Igreja é como uma mãe. A mãe não se relaciona com os filhos a partir de comunicados ou bilhetinhos…
Repercussões das manifestações das ruas: A Igreja, no Brasil, se manifestou bem, sobre esse assunto. Ela disse que o povo tem o direito de se pronunciar sobre o Estado. Ele é um serviço que a própria sociedade cria. Se o serviço não está sendo prestado, a sociedade que o criou tem o direito de reclamar e exigir mudanças. Às vezes, reclama de forma organizada ou não. Por isso, o povo acaba indo para a rua graças aos mecanismos de convocação popular como a internet. Nem todos precisam das instâncias mediadoras (sindicados, ONGs…) para se manifestar. Isso é novo e veio para ficar. O que não é bom é a ação de grupos que se aproveitam das legítimas manifestações para provocar violência. Isso é um problema da polícia. Mas, as manifestações são legítimas.
Padres. Temos cerca de 415 mil padres no mundo. Isso é muito precioso e a Igreja deve muitíssimo aos padres. A Igreja caminha com os pés dos padres. Por causa de uma minoria minúscula o conjunto dos padres acabou sofrendo. A sociedade deve imensamente aos padres e não é justo que a grande maioria pague pelos erros (ou crimes) de poucos. Quanta coisa boa os padres fazem pelo mundo para ajudar as pessoas! O Ano Sacerdotal procurou valorizar os padres e mostrar o quanto eles são importantes para a sociedade.
Paróquia: Hoje se propõe uma nova evangelização. É preciso fazer as pessoas a se encantarem com Jesus. As comunidades tradicionais, talvez, não consigam fazer isso. Em pequenas comunidades parece mais fácil. Geograficamente você modifica a presença da Igreja, colocando-a mais perto das pessoas. Alguns paroquianos moram há mais de 30 km da matriz. Mas, a evangelização deverá chegar também a eles. É preciso buscar maior proximidade. O Papa Francisco, em sua visita ao Brasil nos ensinou isso. Importância da diversidade. Precisamos buscar a unidade na diversidade. Isso é desafiador, mas temos que caminhar nesse sentido. É preciso investir muito nisso!
Cardeal Dom Cláudio Hummes celebra missa no Santuário de Santo Antônio, em Divinópolis
Texto e edição de áudio: Pe. Gabriel
Edição de vídeo: Túlio Veloso
Foto: Emerson Barbosa