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Seguindo a Estrela

terça-feira, 02 de janeiro de 18 às 20:31 | Atualizado às 15:10
Seguindo a Estrela

“Oh! Que hora abençoada

que os Três Reis aqui chegou
trazendo a santa bênção
aos devotos moradores
que ao receber a bandeira
Santos Reis abençoou”
(CANTO POPULAR DE CHEGADA
DA FOLIA DE REIS)


As estrelas, nas antigas religiões do Egito e da Assíria, revelavam os mistérios divinos. Por ocasião do nascimento de Jesus, o evangelista Mateus conta que magos vieram do Oriente guiados por uma estrela, que os conduziu à gruta de Belém, onde acabara de nascer o Salvador (Cf. Mt 2,2).


A jornada dos Reis Magos – Gaspar, Belchior e Baltazar – começa a partir do momento em que recebem o aviso do nascimento do Messias, 24 de dezembro, e segue até a hora em que encontram o menino Deus na lapinha. Cantando, de casa em casa, os foliões reconstituem a história dos Reis Magos.


A festa dos magos recorda  a extensão do compromisso de fé. Somente a fé vê mais longe; com os magos, é preciso ter olhos de fé para ver muito mais além da realidade visível. A sequência de gestos de troca, entre o dono da casa e os foliões durante uma visita ou uma pousada segue mais ou menos nessa ordem:


 Os foliões cantam diante da casa, e diante do(a) dono(a), pedindo licença para entrar;


 O dono da casa segura a bandeira, beija-a, ou seja, aceita a folia;
 Os foliões entram, cantam dentro da casa, em volta do presépio, pedindo as bênçãos do menino Jesus para os moradores;
 Enquanto o(a) dono(a) da casa pede as graças da bandeira, passeia com ela pelos cômodos da casa, os foliões cantam até o retorno da bandeira narrando a viagem e a intenção da visita;
 Assim que o(a) dono(a) da casa retorna, os foliões pedem licença para guardar os instrumentos e parar de cantar;
 O(a) dono(a) da casa beija a bandeira e a entrega aos foliões;
 O(a) dono(a) da casa serve aos foliões café, biscoitos e doces;
 Os foliões cantam agradecendo cada um dos bens ofertados a eles;
 Alguém pode intervir e dar uma nova esmola;
 Os foliões pedem bênçãos para os parentes;
 O(a) dono(a) da casa faz várias ofertas, tanto em dinheiro, quanto em material;
 A pessoa que fez a promessa pega a bandeira, beija e oferta uma esmola;
 Os foliões cantam anunciando que a promessa já foi cumprida;
 Os foliões pedem licença pra saírem;
 O palhaço sacode a “sacolinha” em frente aos donos da casa, pedindo esmola;
 De costas, num sentido de respeito e agradecimento, saem, um a um, cantando e agradecendo.

 


A folia, assim, cumpre a sua verdadeira obrigação de dar, de receber e de retribuir. O ritual da folia extrapola os louvores ao menino Jesus. O que a folia faz é proclamar o mistério da manifestação (epifania) de Cristo a todos, através de  um ritual.


A presença dos palhaços encanta e fortalece as folias. São considerados elementos de alegria para crianças e adultos. Segundo a historia oral dos próprios foliões, os palhaços representam o mal, a concretização dos soldados do Rei Herodes.


Há interpretações de que o rei Herodes teria mandado espiões pra seguirem os reis Magos a fim de localizar exatamente o lugar onde se encontrava o Messias e, assim, matá-lo. Os soldados disfarçavam-se usando máscaras, evitando o seu reconhecimento. Os palhaços teriam a função de desviar os Reis Magos do caminho, distraindo-os com brincadeiras.


Numa outra interpretação, os palhaços representam o próprio demônio, para impedir que haja aproximação de pessoas no caminho dos Reis Magos. Com a ligação ao mal, estes palhaços são impedidos de tocar a bandeira sagrada da folia, nunca podendo estar à frente nos cortejos e também impedidos de cantar as músicas dos devotos dos Reis Magos.


Há outras proibições para os palhaços, como a impossibilidade de se aproximarem do presépio e tocar no menino ou, em alguns casos, de só entrarem na casa visitada após os cantos finais, sem as máscaras.


Enquanto os foliões cantam as “chulas” – danças e cantos de origem portuguesa –, os palhaços fazem acrobacias, dando cambalhotas, rodopiando em um pé, lutando com os bastões.


Na cultura popular de nossa região do Oeste de Minas, diante da pureza e da força do menino Jesus, eles se convertem e decidem acompanhar os reis para sempre, abandonando o rei Herodes. Quem se encontra verdadeiramente com Jesus não retorna mais pelo mesmo caminho. A vida prossegue com novo sentido.


Antigamente, em muitos sermões de domingo, o povo aprendia o cristianismo ouvindo os sacerdotes, ensinavam que os festejos dos reis representavam atos nocivos à moral, havendo presença do demônio. Hoje a situação é nova e há uma clara inversão desta rejeição da igreja: alguns sacerdotes procuram valorizar as folias nas liturgias, a tradição religiosa da Folia de Reis no período natalino. Propiciando liberdade, alegria e fortalecimento em festejar durante a missa.


A folia de Reis encerra o ciclo natalino, visitando as casas até o dia 06 de janeiro, que é o dia da comemoração da Epifania. Depois, as festividades seguem até o dia de São Sebastião, ampliando o caminho da estrela até o dia 20 de janeiro.
“Os três reis

Quando souberam

Viajaram sem parar

Cada um trouxe um presente

Pro menino Deus ofertar”

 


Erivelta Diniz, historiadora e arquivista da Diocese de Divinópolis

Imagens: Erivelta Diniz (arquivo particular).

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