×

Uma voz diferente

terça-feira, 10 de fevereiro de 15 às 13:55 | Atualizado às 21:45
Uma voz diferente

A música sempre envolveu o coração dos cristãos. Na Liturgia, a boa música, ocupa um lugar privilegiado. O Órgão de Tubos é o instrumento oficial da Igreja. O caráter perene da nota soada nesse instrumento, ou seja, a sua disposição de não nascer findando (tal como o piano, por exemplo) simboliza um valor espiritual: a transcendência ao Deus Uno.

 

Nos dias compreendidos entre dia 28 e 31 de janeiro foi realizado um curso de Órgão de Tubos. Foram utilizados os instrumentos das cidades mineiras de São João Del Rei e Tiradentes. As organistas Elisa Freixo e Edite Rocha, duas artistas renomadas, acompanharam os alunos.

 

Além da emoção de estar diante de um instrumento do século XVIII, temos o privilégio de ouvir o mesmo som que o homem deste período ouviu e tocar em um instrumento histórico. Os Órgãos de São João Del Rei e Tiradentes estão muito bem conservados e cantando com excelência. O Órgão de Tiradentes, que se encontra na Matriz de Santo Antônio, tem mais de 90% do material original; já o órgão de tubos de São João Del Rei, encontrado no Museu, o único órgão civil em funcionamento no Brasil e que pertenceu a uma fazenda, tinha a sua caixa em bom estado, mas dele restou apenas uma flauta e a partir desta única flauta todo o corpo fônico foi reconstituído.

 

O órgão é um instrumento que funciona a partir do ar insuflado por um fole em suas flautas. O órgão da Matriz de Tiradentes foi construído em 1785, em Portugal, por Simão Fernandes Coutinho. O Órgão de Tubos de São João del Rei foi integralmente construído na cidade supracitada e remonta o século XVIII, com uma estética do século XVII.

 

O que encanta no órgão é a capacidade de combinar os seus vários sons. Cada conjunto de flautas se refere a um registro e cada registro tem a sua identidade (o seu timbre, a sua cor...). Trabalhar com vários registros musicais é uma verdadeira arte. O Órgão de Tubos também exige as suas técnicas; ele não é tocado como um piano, teclado ou cravo... Fazer um órgão cantar como se deve exige muito tempo, técnica e dedicação.

 

O estudo de um órgão histórico também alerta para a importância de preservar estes instrumentos e outras coisas na Igreja. Em relação aos órgãos, além de serem peças únicas, eles refletem uma voz do passado. Preservá-los significa retomar esta voz.

 

A técnica do órgão de tubos é completamente diferente de quaisquer outros instrumentos. Talvez devêssemos pensar mais em uma flauta que canta do que propriamente num teclado. É claro que o teclado é o mecanismo responsável pela emissão do som, mas o toque do teclado precisa ser técnica e minuciosamente pensado a fim de produzir um som que agrade aos ouvidos.

 


Os órgãos de tubos, ao menos os históricos, podem ser compreendidos como indivíduos. Cada um canta de um jeito, tem a sua cor sonora, a sua técnica... Eles são indivíduos justamente porque cada um traz consigo o "um que" de diferente pois não são produzidos em série, mas trata-se de uma obra de arte.

 

O corpo sonoro de cada instrumento varia de acordo com o orçamento, com a matéria disponível e com o mecanismo de abertura dos tubos. O som produzido por uma flauta de madeira de cedro encontrado em um lugar soa diferente de uma mesma flauta de cedro produzida em outro lugar. As flautas de metal ou tubos de metal variam o seu som de acordo com a liga que trazem: chumbo, cobre, estanho e ou misturas...

 

Em relação à Liturgia, este instrumento tem muito a nos ensinar... Ao longo da história, ele sempre acompanhou o culto cristão. Por ser um instrumento, ele conduz a oração e também acompanha a oração da comunidade de fé. Músicas como as "Elevazione" trazem imiscuído em seus acordes sentimentos que nos remontam ao sofrimento de Cristo – o seu sacrifício por nós; as músicas "post-comunio" refletem a nossa alegria pelo banquete eucarístico.

 

Há um novo movimento musical na Igreja que resgata o som dos órgãos na liturgia. É uma experiência singular que eleva os corações a Deus por meio de uma oração que se faz por meio dos sons. Seja executando solos ou acompanhado o canto da comunidade de fé, o órgão colabora muito com a liturgia.

 

Diante disto, precisamos sonhar: não deveríamos começar a pensar em um órgão de tubos para a nossa cinquentenária Diocese? Temos excelentes músicos e pianistas que aqui se dedicam ao estudo de instrumentos de teclas. Se forem acompanhados por um perito em Órgão de Tubos, logo compreenderão a dinâmica do instrumento.

 

 

Por Padre Rodrigo Botelho Moreira

Notícias Relacionadas

11 nov 19
06 jan 16
08 ago 17
18 jul 16

Parceiros