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Igreja Católica e Comunicação: transformações na história – entrevista com Ir. Joana Puntel

quinta-feira, 23 de julho de 20 às 18:15 | Atualizado às 18:44
Igreja Católica e Comunicação: transformações na história – entrevista com Ir. Joana Puntel

Irmã Joana T. Puntel da Congregação das Irmãs Paulinas é uma lenda viva da comunicação católica brasileira: jornalista que fez história com grandes reportagens para a Revista Família Cristã, mestra em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo, doutora em Comunicação Social pela Simon Fraser University (Canadá) e pós-doutora pela The London School of Economics and Political Science (Inglaterra). Atualmente, é coordenadora do Serviço à Pastoral da Comunicação (Sepac), docente na Especialização Comunicação, Teologia e Cultura: teórico-prático do Instituto São Paulo de Ensino Superior (ITESP), faz parte da Equipe de Reflexão de Comunicação na CNBB e ministra conferências, cursos e seminários sobre Pastoral da Comunicação por todo o Brasil. Com mais de 50 anos de vida consagrada dedicada à comunicação, Irmã Joana conversou com Aline Amaro da Silva (doutoranda em Teologia pela PUC-RS) e Marco Túlio de Sousa (doutor em Comunicação pela Unisinos) sobre os fatos mais marcantes deste diálogo entre a Igreja Católica e a comunicação e também sobre sua trajetória em seu trabalho pastoral. Trata-se de uma entrevista instigante, que nos leva a refletir a respeito da comunicação católica à luz dos contextos históricos em que ela foi elaborada, sobretudo a partir das ações e documentos dos pontífices. Abaixo o leitor poderá conferir a primeira parte desse diálogo. A versão integral será publicada em obra organizada pelo Mídia, Religião e Sociedade.  

 

 Aline e Marco Túlio: Irmã Joana, a senhora tem uma trajetória bem consolidada na área da Comunicação. São 12 livros publicados, mais de 15 capítulos de livros e artigos em periódicos científicos. Gostaríamos primeiramente de saber como surgiu o seu interesse pela área da Comunicação e, sobretudo, em pensar a comunicação na Igreja Católica. Quais foram os fatos mais marcantes nessa trajetória?

 

Joana Puntel:O interesse pela área de comunicação nasce e se desenvolve progressivamente ligado a uma missão. Sou uma irmã religiosa da Congregação conhecida como Irmãs Paulinas, fundada pelo bem-aventurado Tiago Alberione em 1915, com o carisma (missão) de evangelizar com a comunicação. Foi, e é, nesta missão que encontro a minha realização pessoal e missionária de anunciar, pela e com a comunicação, a Boa Nova de Jesus Cristo.

 

E para viver com qualidade a missão, tive o cuidado de buscar, paulatinamente, a preparação adequada ao desenvolvimento progressivo da comunicação, seguindo-a de maneira missionária, mas também profissional. Veio, então a oportunidade de cursar Jornalismo na Faculdade de Comunicação Cásper Líbero de São Paulo. Foi um curso que realizei prazerosamente, completando o talento de escrever, incentivada pelo grande professor e pesquisador, que há três anos nos deixou, José Marques de Melo.

 

Logo encontrei um campo cheio de oportunidades para escrever grandes reportagens e publicar na revista Família Cristã, que, na época tinha a tiragem de 200 mil exemplares. Foram vários anos de idas e vindas pelo Brasil afora, escrevendo a partir do povo, especialmente da Amazônia e do Nordeste. Não havia internet, na época. Muita gente conheceu as riquezas e problemas da Amazônia através de minhas reportagens com o seringueiro, os indígenas, os missionários… Foram reportagens que mostravam a realidade “bonita e sofrida” da Amazônia e também do Nordeste. Eram tempos de ditadura. Aprendi, também, a escrever “entre linhas”.

 

Depois de vários anos de militância no Jornalismo, chegou a vez de buscar o Mestrado em Comunicação. Foi sempre o incentivo do prof. José Marques de Melo que me levou a aprofundar e a sistematizar os conteúdos da revista FC e a transformar em uma dissertação sobre os discursos da Igreja Católica na América Latina, à época. E nasceu a dissertação “A revista Família Cristã e as classes subalternas”.

 

Juntamente com a busca para acompanhar o desenvolvimento da comunicação, na sociedade contemporânea, seja do ponto de vista teórico como prático, procurei engajar-me ativamente em Associações de pesquisadores e desenvolvimento do pensamento comunicacional cristão, como a Intercom (estive também presente na fundação); União Cristã Brasileira de Comunicação (UCBC). Eram ambientes que me proporcionavam a possibilidade de estar em contato com discussões sobre ética, compromisso cristão, profissional na comunicação e, portanto, uma prática de formação das pessoas no âmbito reflexivo e prático dos cidadãos e, especialmente da Igreja.

 

Mas era preciso buscar mais. Veio, então, o doutorado na Simon Fraser University (Canadá). Foi onde, um professor marxista, co-orientador de minha tese, me desafiou na parte da reflexão: não simplesmente uma reflexão de seguimento, mas que a verdadeira reflexão deve ser crítica para contribuir e fazer com que os conteúdos amadureçam. Assim nasceu a tese de doutorado: “A Igreja e a democratização da comunicação – na América Latina”.

 

De volta ao Brasil, me tornei docente no curso de Especialização Comunicação e Cultura: uma abordagem teórico prática do SEPAC (Serviço à Pastoral da Comunicação) em parceria com a PUCSP. Docente também na Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação em S. Paulo (FAPCOM). Docente (2 anos) também no PPG da PUCRS. Pesquisadora em 2001 e 2015 na The London School of Economics and Political Science (Londres-Inglaterra). Atualmente, docente no curso de Especialização Comunicação, Teologia e Cultura: teórico-prático em parceria com o Instituto São Paulo de Ensino Superior (ITESP).

 

Em toda essa trajetória, a paixão pela pesquisa, reflexão e contribuição da relação Igreja-Comunicação-Cultura foi sempre crescendo. É a minha maneira de evangelizar e daí vão brotando as várias publicações que, hoje, se tornaram também objeto de pesquisa seja para universitários, ou as diversas pastorais, especialmente a Pastoral da Comunicação.

 

Aline e Marco Túlio: Em sua obra “Igreja e Sociedade: método de trabalho na comunicação” (Paulinas, 2015), a senhora comenta que por muito tempo a Igreja Católica demonstrou certa resistência à imprensa e às mídias eletrônicas (rádio e televisão). Isto só viria a começar a se modificar na segunda metade do século XIX. O que explica este receio e por que a Igreja mudou seu olhar e postura sobre os meios de comunicação?

 

Joana Puntel: Primeiramente, gostaria de dizer como nasceu esta obra “Igreja e Sociedade: método de trabalho na comunicação”. Ela nasce para ir ao encontro do interesse crescente no campo da comunicação por parte da Igreja, de pesquisadores, de professores e de quem se ocupa, de modo especial com estudos e áreas pastorais. Trata-se de oferecer referências necessárias (histórico-culturais-eclesiais) que compõem a trajetória da relação da Igreja com a comunicação, enfatizando o esforço e o desejo de uma abertura para uma nova evangelização, especialmente a partir do Concílio Vaticano II.

 

Em uma sociedade de rápidas transformações, especialmente tecnológicas e, estando em contato com várias instituições (também de Igreja) que se abriam para a comunicação, percebi, também, o risco de “abandono” ou não conhecimento de uma trajetória histórica de relação Igreja-comunicação. A obra traz, então, na primeira parte, em síntese, a relação da Igreja com a comunicação em períodos precedentes ao Concílio Vaticano II e é baseada em pesquisas consistentes de Enrico Baragli (1969 e 1973 – um sacerdote jesuíta, italiano, que ajudou a preparar a pauta da comunicação para o Vaticano II); o precioso livro “Igreja e Comunicação Social” de fr. Romeu Dale (1973), que faz um retrospecto histórico, situando as diferentes etapas que caracterizam a posição hierárquica católica diante dos meios de comunicação (fr. Dale oferece um estudo dos documentos pontifícios a partir da descoberta da imprensa até a década de 1970, incluindo documentos da América Latina e do Brasil). Ainda, uma extensa fonte de pesquisa de Ismar de Oliveira Soares que resultou em sua tese de doutorado, publicada, “Do Santo Ofício à libertação” (1988).

 

Na longa trajetória, desde a invenção da imprensa até o Concílio Vaticano II Sim, a Igreja Católica, por muito tempo, demonstrou certa resistência, especialmente ao desenvolvimento da imprensa, embora, deve-se reconhecer que ela também produziu textos e livros, ocupou-se, por exemplo, da difusão, em latim, da Escritura Sagrada. Não se pode esquecer a época da Patrística, fase muito rica em que o pensamento de grandes doutores dos primeiros séculos contribuiu para a consolidação da fé. A Igreja teve, também, o grande mérito de copiar e preservar para a posteridade, nas “bibliotecas” dos conventos e universidades numerosos clássicos da literatura greco-romana. E a Igreja esteve atenta também quanto à publicação de livros que considerava heréticos, condenando-os ao fogo, de preferência em lugares públicos.

 

Segundo o pesquisador Ismar O. Soares, a Igreja fazia grande esforço para manter a sua ascendência sobre toda a sociedade europeia por meio dos processos de divulgação e comunicação. Por exemplo, as informações levadas às cortes, aos comerciantes e às várias instâncias do poder eclesiástico eram sigilosas. E a Igreja, enquanto usufruía do sistema secreto da veiculação das informações através das agências pelos comerciantes, condenava as formas populares de comunicação impressa, por meio de sucessivos instrumentos jurídicos, acusando-as de imorais e ofensivas à fé.

 

Mas se considerarmos a natureza dos documentos, dos vários pontífices em muitos séculos, os documentos geralmente se destinavam a normatizar o comportamento dos imperadores, reis, bispos e fieis, no que se referia ao uso de escritos, livros, espetáculos teatrais e imagens. Raramente a liberdade de pensamento e a do direito de expressão estavam presentes. Essas atitudes se recrudesciam à medida que a Igreja perdia o controle sobre a comunicação. Eram outros tempos, mas o diálogo entre fé e cultura praticamente não existia, se considerarmos os inícios da modernidade com todas as suas características, e também de um insurgimento dos intelectuais contra o rigor do autoritarismo centralizador e da prática da hierarquia romana.

 

Na verdade, no entender de Romeu Dale, com o papa Leão XIII (1878-1903), a Igreja preparou-se para uma significativa mudança de tática (já em 1861, com Pio IX circulou o primeiro número do jornal Osservatore Romano). Os discursos de Leão XIII continuaram na linha de seus predecessores, mas esse Papa teve alguns gestos concretos de abertura, por exemplo, a primeira audiência coletiva concedida por um papa a jornalistas profissionais. Gesto que significou uma tentativa de aproximação com o mundo moderno. Nas primeiras décadas do século XX, os bispos e o próprio Vaticano sentiam-se perdidos ante a convulsão social que dominava a sociedade. E a imprensa católica já florescia em quase todas as partes nesse período e era o retrato do povo católico: praticamente à margem da vida social em transformação.

 

Foi com Pio XI e Pio XII (1939-1958), que a Igreja tentou reagir e construir um projeto de comunicação com maior participação do laicato, elaborado em decorrência do surgimento e do desenvolvimento de alguns veículos importantes de difusão, como o rádio, o cinema e a televisão, embora os discursos continuavam moralistas. Durante o pontificado de Pio XI, deu-se a criação da Rádio Vaticano (1931) e em 1936 ele escreve a encíclica Vigilanti Cura sobre o cinema.

 

Os papas até Pio XII (1939-1958) tiveram dificuldades sérias em reconhecer o que depois se denominou “valores positivos” dos novos veículos de comunicação, bem como em encontrar neles instrumentos para a defesa da dignidade do homem. Pio XII escreveu, assim, em 1957 a encíclica Miranda Prorsus, o primeiro documento sobre comunicação, no sentido e abranger o cinema, rádio e televisão.

 

Então, o receio da Igreja em relação aos meios de comunicação, pela sintética trajetória descrita acima, foi, sem dúvida, o temor de perder a ascendência sobre aquilo que a Igreja “dominava” ou tinha o poder do pensamento, inclusive da cultura. Como ela foi-se abrindo para o mundo e novas invenções no campo da comunicação, em grande parte, deve-se à maior participação do laicato. Por que ela mudou o seu olhar…ela foi compreendendo, paulatinamente, que era preciso dialogar com o mundo, levar a Boa Nova é sua missão, mas para isso era preciso chegar até os confins da terra. E a comunicação lhe proporcionava isso. A abertura da Igreja em relação à comunicação é sem dúvida, uma consequência do Concílio Vaticano II que “reatou” o diálogo com o mundo moderno, como nos diz o documento conciliar Gaudium et Spes, sobre a Igreja no mundo de hoje (1965) e que demonstra o quanto a Igreja quer ser, compreender e dialogar com o mundo contemporâneo. E a Gaudium et Spes inicia assim: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje…”

 

Aline e Marco Túlio: O decreto Inter Mirifica é apontado como revolucionário para o pensamento da Igreja sobre a Comunicação e, claro, para o modo como a instituição se comunica com os fiéis e com a sociedade. O que essa encíclica traz de novo?

 

Joana Puntel: O decreto Inter Mirifica — é bom lembrar que os documentos da Igreja apresentam-se com diferentes nomes, de acordo com seus propósitos. Por exemplo, encíclica é uma carta do papa dirigida a todas as comunidades dos fiéis, tem caráter universal; os decretos são documentos de significado prático, expondo disposições disciplinares, normativas. As constituições apresentam visões teológicas abrangentes, com verdades doutrinárias; exortação, o próprio nome já diz, o pontífice exorta, incentiva sobre um determinado assunto, recentemente temos, por exemplo, a “Querida Amazônia”.

 

Com respeito ao decreto Inter Mirifica, costumo dizer que sou ousada afirmando que o decreto foi uma grande conquista do Concílio Vaticano II, porque quando se fala em conquista é porque houve uma batalha, ou pelos menos houve um esforço relevante para que se conquistasse algo. Assim aconteceu com o documento o decreto Inter Mirifica. Foi um divisor de águas. Ou seja, uma mentalidade de magistério da Igreja que, não raro, através de vários Pontífices, na trajetória da Igreja, viam a comunicação (aqui falo em geral e, sobretudo dos meios de comunicação) como algo negativo ou até “ameaçador” ao poder, ao ponto de se posicionarem contra a liberdade de expressão; censura em nível interno da Igreja, índice dos livros proibidos, etc.

 

O quanto significou o Inter Mirifica entre os 16 documentos do Concílio Vaticano II reside também no fato de a Comunicação ter entrado como temática na pauta conciliar, portanto, introdução e discussão sobre o assunto. Pois aos outros temas do Concílio, pertencentes à natureza da Igreja e, portanto, fundamentais, tratava-se de “aggionarsi”, revê-los. Mas em termos de novidade na pauta conciliar foi a comunicação. Batalha dura porque tratava-se de uma passagem de mentalidade a respeito da comunicação, mas esta não era eu diria, nem bem conhecida e nem bem de interesse imediato da Igreja. Era necessário sulcar vários caminhos, pois a sociedade se desenvolvia rapidamente e a evangelização precisava levar em conta onde se encontrava a pessoa humana, como afirma a Gaudium et Spes (já citada neste texto). Um primeiro ganho de conquista foi que, pela primeira vez, um documento universal da Igreja assegura a obrigação e o direito de ela utilizar os instrumentos de comunicação social. Além disso, o Inter Mirifica também apresenta a primeira orientação geral da Igreja para o clero e para os leigos sobre o emprego dos meios de comunicação social. Havia agora uma posição oficial da Igreja sobre o assunto, uma aceitação oficial da Igreja dos meios de comunicação para desenvolver um trabalho pastoral.

 

É de se notar, também, que o Vaticano II usou um conceito de tecnologia que não se atinha apenas às técnicas ou à difusão destas, mas incluía os atos humanos decorrentes, que são, no fundo, a principal preocupação da Igreja em seu trabalho pastoral. Do mesmo modo, a expressão “comunicação social” foi preferida aos termos “mass media” e “mass communication”, que parecem discutíveis e ambíguos por sugerirem “massificação”, como se esta fosse decorrência inevitável da utilização dos instrumentos de comunicação social. Portanto, não abarcar apenas o fator técnico, mas também o aspecto humano e relacional, isto é, o agente que opera as técnicas ( e os que o recebem), além de consideração dos instrumentos de comunicação. Tal intenção foi boa, mas ao longo de sua história, a Igreja continuou, em grande parte, “presa” ao discurso dos instrumentos, à utilização das técnicas, enquanto o discurso da comunicação se tornou mais amplo e complexo, incluindo uma gama de variedades e interferências na cultura midiática atual.

 

Aline e Marco Túlio: Depois deste marco do Inter Mirifica na caminhada de reflexão sobre a comunicação na Igreja, a senhora aponta que os papados de João XXIII e Paulo VI foram caracterizados por um esforço por “aggiornamento” na relação entre Igreja e sociedade. O que isso significou especialmente para o pensar e fazer comunicação no âmbito eclesial?

 

Joana Puntel: Os papas João XXIII e Paulo VI misturam-se com a história da Comunicação na Igreja, a começar por São João XXIII, que compreendeu que, na década de 1960 a sociedade vivia grandes transformações. Nascia a exigência de um novo olhar, um novo diálogo com o mundo moderno, o diálogo entre fé e cultura, convocando toda a Igreja para um “aggiornamento” (atualização) que se concretizou com o Concílio Vaticano II. Seguindo a inspiração do Espírito, o papa São João XXIII abriu as portas da Igreja para uma evangelização ao encontro do homem contemporâneo. Já em seu discurso de abertura do Vaticano II ele expressou seu desejo com as palavras-chave diálogo e aggiornamento (11/10/1962).

 

O Papa Paulo VI, que sucedeu a João XXIII (falecido em junho/1963), na minha opinião, um homem acentuadamente inteligente, soube perceber como era preciso criar, “propor” caminhos que viessem a ser trilhados, mesmo que fosse no futuro, mas teria uma nova postura porque as raízes estavam aí no Concílio Vaticano II. Percebe-se isso, primeiro porque o texto que tinha 114 artigos teve uma drástica redução para 24. E a apuração dos votos registrou mais de 1500 “sim” e pouco mais de 500 “não”. Mas foi o documento aprovado com o maior número de votos contrários. Contudo, no texto, há pontos importantes que ajudam a deslanchar a comunicação para o futuro . Por exemplo, o n.18, o incentivo para que se crie um Dia Mundial das Comunicações que, entre os objetivos, favoreça o conhecimento, a reflexão e discussão sobre a comunicação, além do rezar pela Comunicação e que a coleta daquele domingo (dia da Ascensão) seja revertida para as ações comunicacionais da Igreja. Ainda, outro ponto de abertura, que se criem secretariados de comunicação que se encarreguem de articular o pensamento, a reflexão e as ações de comunicação.

 

Assim, aos poucos, foi acontecendo a mudança de postura para uma pedagogia de evangelização e ação pastoral não de imposição, mas de um diálogo com toda a sociedade humana, em especial com a ciência, para contribuir principalmente na dignidade da pessoa humana em sua integralidade.

 

Aline e Marco Túlio: A partir do seu último livro, “Os papas da comunicação – Estudo sobre as mensagens do Dia Mundial das Comunicações”, escrito em parceria com a Irmã Helena Corazza, como a senhora definiria o perfil comunicativo dos papas pós Concílio Vaticano II?

 

Joana Puntel: São cinco pontífices (ao todo), que se sucederam nas mensagens para o Dia Mundial das Comunicações, celebrado sempre no domingo da Ascensão (com exceção de João Paulo I que governou a Igreja apenas 33 dias e não teve a oportunidade de elaborar uma mensagem para o Dia Mundial das Comunicações. Mesmo assim marcou presença num discurso para a imprensa internacional, por ocasião dos funerais de Paulo VI. Mas teve grande apreço ao serviço que a mídia presta. Assim se expressa “Temos a felicidade de receber, logo na primeira semana do nosso pontificado, uma representação tão qualificada e numerosa do mundo das comunicações sociais, reunida em Roma… “ E o Papa inicia o discurso agradecendo os sacrifícios, as canseiras e o serviço dos jornalistas…).

 

Iniciando com Paulo VI até Francisco os Papas foram articulando as mensagens com o contexto do mundo, prioridades da Igreja, para que, de forma integrada, haja uma reflexão e apropriação de conteúdos para o crescimento da comunidade e a presença profética e evangelizadora na sociedade. O percurso que os pontífices fazem com suas mensagens visibiliza temáticas e problemas que o mundo vive diante das mudanças culturais, sociais e políticas, econômicas, colocando em evidência os direitos e os deveres do cristão diante dos meios de comunicação, da paz do mundo, da liberdade religiosa, da necessidade da formação crítica diante das influências da mídia na família, nas crianças, nos jovens.

 

Em cada contexto cultural, a Igreja vai ascendendo no esforço de compreender as novas linguagens, as novas aproximações com os interlocutores, na evangelização. Na era digital, o Papa Bento XVI dedica cinco mensagens, num caminho progressivo de reflexão e envolvimento, pedindo que se povoe o “continente digital” com diálogo, respeito, amizade e presença cristã. A mídia digital tem sua linguagem própria e também suas armadilhas, por isso é preciso entrar nessa cultura e saber “escutar a rede”, dialogar com os internautas. Daí a necessidade de formação a partir da família e, também, de todas as lideranças da Igreja para compreender as mudanças culturais que incidem na percepção da fé dos fieis: crianças, jovens e também adultos.

 

Entrar na cultura é fundamental, implica novas linguagens, nova compreensão das relações. As mensagens revelam um Magistério em continuação no diálogo com os interlocutores, com conteúdos encarnados, que a pessoa seja comunicação e cultive a proximidade, o diálogo, em que a fé precisa ser proposta e não imposta. Neste sentido, o Papa Francisco trabalha a comunicação no sentido integral, partindo do ser humano a comunicação enquanto relacionamento e processo que tudo interliga. Por isso, em suas mensagens, mesmo que esteja falando de fakenews, de redes sociais… Francisco sempre tem presente o aspecto antropológico, sociológico, bíblico, eclesiológico nos processos comunicacionais.

 

Aline e Marco Túlio: O Papa Francisco é uma figura que alcançou muita popularidade na mídia, sobretudo nos meios digitais. De acordo com a pesquisa Twiplomacy, ele foi o líder mundial mais influente no Twitter em 2014. Na sua opinião, quais atributos do Papa o tornaram uma personalidade de grande notoriedade no ambiente digital?

 

Joana Puntel: Penso que ele reúne em sua pessoa tantas qualidades e atributos que, eu diria, o mundo tem saudade de ver e sentir num líder. Não é só a inteligência de estar gerindo mudanças em uma instituição, mas o como o está fazendo: em diálogo, na misericórdia, na escuta, na proximidade com as pessoas e realidades da sociedade. Assim, como a mensagem de Jesus, os valores podem nos inspirar, nos orientar…é só fazer atenção às atitudes, aos gestos de Francisco, aos seus escritos, entre os quais, o Evangelii Gaudium (Alegria do Evangelho) onde apresenta uma espécie de programa para o seu pontificado e insiste em uma nova evangelização. A encíclica Laudato Si, sobre o cuidado da Casa Comum, entre outros. Recentemente a Exortação “Querida Amazônia”.

 

A própria pessoa do papa, como ser humano. Uma personalidade firme, sobretudo coerente com o Evangelho de Jesus. Tem opção, meta definida e, como o Mestre Jesus, dirige-se às multidões, haurindo do seu Mestre a interioridade necessária para ser um verdadeiro líder e condutor da Igreja Católica, mesmo com muitos resistindo e o difamando. Penso que a afirmação da Revista Times está certa quando, ao fazer o anúncio de Francisco como a personalidade do ano (2013), disse: Francisco “tirou o papado do palácio para levá-lo às ruas”, ele se colocou no centro das discussões chaves da época, “mudou o tom, a percepção e o enfoque de uma das maiores instituições do mundo com um extraordinário peso”.

 

No mundo digital, Francisco continuou a orientar a Igreja, com seu Magistério, na linha de Bento XVI, no apreço e na prática do diálogo, do incentivo e do estar presente na cultura digital. O Papa por exemplo, está no twitter (@Pontifex_pt) cuja conta se caracteriza pela sua interface, que vai organizando as interações na plataforma entre o Papa e os seus seguidores (um estudo detalhado de tal funcionamento pode-se encontrar no livro de Moisés Sbardelotto E o Verbo se fez rede (Editora Paulinas, 2017). Com as redes comunicacionais, o papa vai estabelecendo uma nova modalidade de diálogo com a cultura contemporânea marcada pelas mídias digitais.

 

O Papa Francisco tem notoriedade no ambiente digital não só como um “verdadeiro líder” gerindo uma instituição que necessita se mover sempre mais dentro da cultura digital, mas orientando sobre os princípios que “não envelhecem” e devem sempre estar presente. Isto fica muito evidente, nas suas mensagens para o Dia Mundial das Comunicações, em que insiste na cultura do encontro, aborda temas atuais e necessários de reflexão, como as fakenews, como as redes sociais. Interessante notar que não são normas, nem imposições, mas mensagens que conduzem as pessoas a refletir, por exemplo, sobre a verdade das relações, sobre a oportunidade, mas também ambiguidade das redes sociais e assim, o compromisso cristão no diálogo.

 

Mais recentemente, na Exortação Apostólica Pós-sinodal (2019) para os jovens e a todo o povo de Deus, entre os temas de suma importância tratados no Sínodo, Francisco acolhe e dedica 5 longos artigos sobre o Ambiente digital. É uma verdadeira demonstração de que Francisco compreende que vivemos em uma cultura amplamente digitalizada, que se constitui numa oportunidade extraordinária de diálogo, encontro e intercâmbio entre pessoas, bem como de acesso a informações. Daí a necessidade de compreender o fenômeno na totalidade, isto é, os novos desafios que surgem, os limites e as lacunas. Assim, em outros escritos, Francisco vai se tornando “notoriedade” porque ao lidar com a cultura digital, leva sempre em consideração o enfoque antropológico, sociológico, bíblico, comunicacional, eclesiológico. Segundo ele, “a rede digital pode ser um lugar rico de humanidade: não uma rede de fios, mas de pessoas humanas”.

 

Haja vista, sua Mensagem para o 54º Dia Mundial das Comunicações deste ano (2020): “Para que possas contar e fixar na memória” (Ex 10,2) A vida faz-se história”, Francisco aborda o tema da narração: “Na confusão das vozes e mensagens que nos rodeiam, temos necessidade duma narração humana que nos fale de nós mesmos e da beleza que nos habita; uma narração que saiba olhar o mundo e os acontecimentos com ternura, conte a nossa participação num tecido vivo, revele o entrançado dos fios pelos quais estamos ligados uns aos outros”.

 

Resumindo, acredito que a “notoriedade” de Francisco vem, sobretudo, porque ele não a busca, ele se abre para todos, escuta, dialoga, ama. E não abdica de princípios vindos do Evangelho. E isto tudo “rola” num ambiente digital.

 

Aline e Marco Túlio: Toda grande mudança de paradigma na comunicação traz transformações no ser e agir da própria Igreja, como vimos com a passagem da tradição oral para a escrita. Com essa corrida para a comunicação digital, devido ao isolamento social como medida de combate à pandemia, como a senhora pensa que será a Igreja do futuro?

 

Joana Puntel: Penso que todo o ensinamento e incentivo do Magistério da Igreja ao longo dos anos, mas de modo particular com Bento XVI e Francisco incentivando para a busca de novas fronteiras para uma nova evangelização, no diálogo entre fé e cultura, novos paradigmas da comunicação que se apresentam… esse ensinamento e incentivo, percebido por muitos, ignorado, também, por muitos, insistidos e refletidos por diversas pastorais, mas pouco praticados em geral, são, agora parte de uma realidade palpável. O que sempre se insistia na “mudança” de mentalidade, colheu muitos, até de surpresa, falando de prática no e do digital, porque já não é mais possível estar alheio às transformações. Elas se impõem.

 

Então, penso que a Igreja do futuro, precisará enfrentar muitos desafios, pois se trata de não simplesmente dominar a técnica, mas de resignificação de muitos conceitos que, tradicionalmente e por longo tempo foram os polos orientadores de nossas práticas. Já não é possível retroceder, mas é necessário revisar, distinguir, fundamentar até que ponto as transformações “mexem” com valores ou só com a forma de vivê-los. Por exemplo, o desenvolvimento de novas metodologias de ensino é uma transformação necessária. Já pontos que tocam a teologia, por exemplo, precisam ser revisados, buscar a sua fundamentação que não se baseia simplesmente no gosto e não gosto, ou no mais fácil, ou no que traz mais conforto. Fico pensando que a teologia deve levar em conta a comunicação, e esta a teologia. Assim a catequese, por exemplo, levar em consideração que há uma nova percepção para compreender e assimilar os conteúdos.

 

Por Marco Túlio de Sousa e Aline Amaro da Silva

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