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Homilia de Dom José Carlos na Romaria Jubilar ao Santuário Nacional de Aparecida

terça-feira, 28 de maio de 19 às 09:56

ROMARIA JUBILAR DIOCESANA AO SANTUÁRIO NACIONAL DE APARECIDA.

 

Dom José Carlos de Souza Campos – 25/05/2019.

 

Que alegria quando me disseram: vamos ao Santuário do Senhor! (cf. Sl 122,1)

 

Saúdo a todos os presentes neste Santuário, os que concelebram aqui comigo, bispos, sacerdotes e diáconos, e também os que nos acompanham pelo rádio, TV e internet, sobretudo os que ficaram lá na Diocese de Divinópolis, no centro-oeste mineiro, e de lá nos assistem e escutam neste momento.

 

Nesta casa mariana e materna, nossos olhos da fé contemplam o Ressuscitado e nos deixamos atrair pelo poder do seu amor que nos amou até o fim. E o amor não pode morrer, não deixa morrer nem permanecer na morte. O amor vive! Cristo vive! No Cristo, o pão vivo descido do pão, o Vivente, o Vencedor, o autor e consumador da nossa fé, experimentamos o remédio e a resposta para nossas angústias e temores frente à morte. Sem o Ressuscitado não podemos fazer nada diante do drama e do enigma da morte. Ele nos abre as portas da eternidade, como rezamos num dos prefácios do tempo pascal. Ele mata nossa sede de imortalidade. Ele mata a morte homicida, nas palavras de Melitão de Sardes (séc. II).

 

A fé é a única forma de saborear a ressurreição duradoura e plena! A nossa ressurreição e a ressurreição daqueles que já entraram no mistério da morte só pode ser dom aos que creem no Cristo. Ele é nossa Páscoa, nossa paz, nossa vida verdadeira. A ressurreição é obra de Deus à qual temos acesso pela fé. “Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim não morrerá jamais”. É a resposta de Jesus à dor de Marta que chorava há quatro dias a morte do irmão Lázaro. O amor humano recorda, mas não faz viver. O amor divino reivindica a vida humana para si e a ressuscita! Como ensinava Ratzinger antes de ser Bento XVI: “Quem ama não deixa morrer!” Nas palavras de Jesus no quarto evangelho: “Deus amou o mundo de tal modo que deu seu Filho único para que todo aquele que nele crer não morra, mas tenha a vida, a vida eterna” (Jo 3,16). Cristo, e só Ele, é nossa vida!

 

Neste tempo primoroso e fecundo da Páscoa, a Igreja de Divinópolis, em Minas Gerais, tomou a estrada, fez-se peregrina e romeira, para nesta grande e bela casa, metáfora do coração da Mãe de Jesus e da Igreja, fazer memória daquele que venceu a morte, daquele que é o princípio e o fim da história, o alfa e o ômega. E neste arco do início ao fim da história da fé cristã, nossa Igreja diocesana celebra 60 anos de missão, de seguimento, de anúncio, de conversão na direção do Reino, lá naquelas terras mineiras no centro-oeste do Estado. E eu, com gratidão a Deus e ao meu povo, celebro hoje cinco anos de episcopado junto àquela gente, minha gente e minha Igreja de origem.

 

Este caminho de fé temos tentado levar a sério nestas seis décadas, mesmo vivendo num tempo que parece ser o epicentro das maiores mudanças da história da humanidade. Nossa configuração diocesana modesta, bucólica e rural dos inícios, cedeu lugar a um cenário desafiador, urbanizado e globalizado. Eram menos cidades ao início (apenas 12 na bula de criação da diocese; hoje, 25), cidades menores, com território urbano mais reduzido, periferias menos habitadas, mais comunidades rurais. Hoje temos centros urbanos mais ampliados, periferias mais populosas no entorno das cidades, comunidades rurais com fortes traços urbanos, comunidades mais distantes que desapareceram ou sobrevivem com poucas famílias já envelhecidas e que não quiseram avançar para os centros urbanos. Além da grande Divinópolis, com uma população estimada em mais de duzentos e trinta mil habitantes, cidade eclética e receptiva, temos cidades que giram já em torno dos cem mil habitantes, como Nova Serrana, Pará de Minas e Itaúna. Temos cidades que sofrem cada vez mais os impactos da proximidade com a grande metrópole do Estado, aqui pensamos em São Joaquim de Bicas, Igarapé, Juatuba, Mateus Leme. Temos as que conservam ainda as belezas da arquitetura e as mais genuínas tradições religiosas, como Itapecerica, Pitangui, Carmo do Cajuru. Temos aquelas que ainda conservam traços e ritmo bucólico e familiar, como Camacho, Leandro Ferreira, Conceição do Pará, São José da Varginha, Onça do Pitangui, Pedra do Indaiá, Araújos, Perdigão, Florestal, São Gonçalo do Pará, apesar de enfrentarem problemas sociais endêmicos. Temos as que, apesar das crises no país, não perderam seu vigor produtivo em diversas áreas, como Cláudio, São Sebastião do Oeste, Itatiaiuçu, Igaratinga. Temos infelizmente também dentre estas as que vivem, hoje e de longa data, o drama da exploração, sabida ou velada, dos recursos naturais: Itatiaiuçu, Igarapé, Bicas, Itaúna, Itapecerica, Pitangui, Onça do Pitangui e outras. E esta atividade, por vezes criminosa e irresponsável, tem gerado vítimas humanas e graves impactos sócio-ambientais. Sem contar agora os sentimentos de pânico e insegurança pelo que possa ainda acontecer às populações que estão no caminho das grandes barragens. É triste, grave e lamentável esta situação nova e antiga da mineração no nosso Estado.

 

Este mapa expressa a variedade e a riqueza de nossa região, apesar das contradições e perversidades do nosso sistema econômico. Esta realidade exige uma postura crítica e ousada da Igreja como uma interlocutora importante nas discussões acerca da sustentabilidade deste modelo e da legitimidade destes processos. Mas, para além destes graves e urgentes problemas sociais, não podemos deixar passar despercebidas as riquezas humanas, religiosas, espirituais, culturais da nossa gente. Pessoas de todas as categorias sociais produzindo arte, beleza, conhecimento, religiosidade, cultura, nas cidades, nas periferias e nas comunidades rurais. É um fantástico mosaico que vale a pena perscrutar e conhecer. Este é o olhar só do Bispo, que já girou por aquelas terras diocesanas. Outros olhares enxergarão outras belezas e preocupações.

 

Mas, para que trazer isto à tona nesta nossa romaria? Porque esta, irmãos e irmãs, é a nossa gente, nossa história, nosso chão. Ali construímos nossa fé. Lá, nós e Deus temos feito história. Neste universo humano e geográfico, mais de duas centenas de padres, religiosos, religiosas, desde a primeira hora destes 60 anos, viveram e vivemos! Ali, nós, os ministros ordenados, os consagrados e consagradas, dedicamos nossos dias, nossas energias, nossas vidas. Estrangeiros e nativos, homens e mulheres, mais jovens e mais idosos, nos mais diversos carismas e serviços, nós nos oferecemos cotidianamente ao povo eleito e amado que Deus constituiu e nos confiou naquelas terras.

 

Contudo, não seríamos quase nada e muito pouco teríamos feito sem a legião de homens e mulheres, cristãos leigos e leigas, nas cidades e nas capelas rurais, que deram e dão o melhor de si para cultivarem e manterem as raízes religiosas de nossa gente, na mais variada gama de ministérios e serviços. A lista é interminável e jamais concluída. Homens e mulheres de corações, modelados pela Palavra e pela Eucaristia, que deixaram sua marca de fé nas instituições, nos cargos, nas funções, na política, na sociedade. Deus seja louvado por tudo e por todos!

 

Deus fez maravilhas entre nós. Os esforços desta nossa Igreja jubilar não foram em vão. Penso em pessoas, penso na ação pastoral, penso nas vocações, penso nas muitas ações sociais, educacionais e culturais, penso nas nossas rádios e mídias que evangelizam, penso no novo seminário que nossa gente ajudou a ampliar, penso nos sonhos de futuro para nossa Igreja. Temos muito ainda a fazer, muito de que nos converter, muito para sonhar. Mas tudo é graça, tudo é dom, tudo é maravilha de Deus em nós, para nós e conosco. Experimentamos muitos frutos neste tempo da graça do Senhor, na história que construímos com ele, nos cansaços pelo Reino.

 

Hoje, como romeiros, concluindo nosso caminho celebrativo do jubileu, e a partir das leituras que ouvimos neste dia, suplicamos a intercessão de Maria, Mãe e Ícone da Igreja, na missão que prossegue, sobretudo a evangelização no contexto urbano, como indicam as novas diretrizes gerais da ação evangelizadora da Igreja no Brasil. Queremos primeiramente consagrar nossa Diocese a Ela, fazendo-nos obedientes à Mãe e servos que escutam e fazem tudo o que seu Filho nos disse, mantendo nossos olhos fitos n’Ele. Em segundo lugar, sob a luz do Espírito, cuja festa se aproxima e que dá nome a nossa Diocese, suplicamos à Mãe Maria que nos ajude a fazer os discernimentos necessários à missão, formando discípulos missionários, como Paulo toma consigo e educa a Timóteo, e discernindo, como eles, também aonde ir hoje, a quem ir primeiro, estabelecendo prioridades e preferências, evangelizando o mundo urbano, nos seus novos formatos e desafios. Por fim, pedimos à Mãe Aparecida que nos ajude a conviver e suportar as perseguições e sofrimentos por causa do nome de Jesus, do seu Evangelho e do seu Reino; sobretudo num tempo em que a Igreja experimenta polarizações e intolerâncias também do lado de dentro de si mesma. Aí não podemos perder nem a paz nem a ternura!

 

Nesta casa da Mãe, nossa Diocese pede a Ela que cuide de nós, “agora e na hora de nossa morte”. A Ela, todos os dias, suspiremos, gemendo e chorando, neste vale de lágrimas e de alegrias, de missão e de fadigas, de cruz e de glória, de vida e de morte. E peçamos humildemente: “depois deste desterro, ó Mãe, mostra-nos Jesus, bendito fruto do teu ventre”, porque Ele, e só Ele, é o motivo, o sentido e o fim da nossa vida e da nossa fé. Fomos criados por Ele e para Ele! A sua morte matou a nossa. Cristo, teu Filho, ressuscitou e nós com Ele! Dá-nos, teu Jesus, ó Mãe, quando a noite do fim chegar. Amém.

 

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