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Homilia da Missa do Crisma 2015

sexta-feira, 10 de abril de 15 às 17:35

Homilia do Bispo Diocesano, Dom José Carlos, para a Missa do Crisma 2015, realizada no dia 02 de abril, na Catedral Diocesana:

 

Homilia

 

Estimado Dom Belvino, nosso Bispo Emérito, cuja presença me dá alegria e segurança; prezado Pe. Paulo Sérgio, nosso Vigário Geral, em nome de quem saúdo os demais sacerdotes presentes, do nosso clero e de outras dioceses, prezados religiosos e religiosas, a quem saúdo com afeto pelo ano da Vida Consagrada, caros seminaristas e vocacionados, membros das novas comunidades e dos institutos seculares, irmãos e irmãs vindos das nossas 53 paróquias, ouvintes e internautas que nos acompanham pelas nossas rádios ou estão conectados a elas pela internet, amigos e amigas que nos assistem ou assistirão pelas imagens capturadas desta celebração.

 


Desejei, neste último ano, e desejarei sempre, encontrar-me com vocês todos por ocasião desta celebração anual na quinta-feira santa! Esta Eucaristia certamente é aquela que, ao longo do nosso ano litúrgico, mais expressa nossa diversidade e nossa comunhão. Estamos aqui Pastores e Povo de Deus, comunidades e paróquias, cristãos de todas as idades, os diversos ministérios e vocações da nossa Igreja local. Uma antecipação bela e solene da Cidade e da Igreja do céu. Para cá acorremos nesta manhã para tomar parte no mais bonito sinal que a Igreja pode dar ao mundo: o da unidade, sempre imperfeita e incompleta, mas desejada e construída na medida do esforço maior ou menor de cada um de nós. Os ausentes, sejam padres ou religiosos, sejam comunidades ou organismos, fazem falta. É uma ausência sentida e doída. Unimo-nos aos que estão doentes ou impossibilitados de alguma forma de estar presentes, e lamentamos a ausência dos que deveriam estar e optaram erradamente por não vir. Eles não estão aqui, mas são nossos também! São membros do nosso corpo eclesial. Não abrimos mão deles. Continuamos querendo comungar também com eles o caminho da fé, da missão e do ser Igreja.

 


Quero refletir com todos vocês dois aspectos que julgo importantes neste dia: o tríduo pascal que estamos para iniciar e a natureza do sacerdócio ministerial.

 


No declínio deste dia, quando iniciarmos a celebração da ceia do Senhor, a quaresma chega ao seu ocaso. Depois da longa e fecunda caminhada quaresmal, estamos para penetrar o mistério fundante da nossa fé: a Páscoa de Jesus. É preciso mergulhar agora no chamado “tríduo pascal”, que deu sentido e movimento à nossa quaresma. Por causa deste tríduo é que houve uma quaresma. Nestes três dias benditos, estão os elementos e eventos que coroam a vida e a missão de Jesus de Nazaré. É preciso adentrar com reverência no mistério destes três dias: a ceia na noite de quinta, a morte na tarde da sexta e a ressurreição em algum momento da noite que liga o sábado ao domingo. Quero convida-los a percorrer como discípulos amados, com os olhos fitos em Jesus, seu mistério de morte e ressurreição. Não desperdicem nem dispensem as graças que estas liturgias haverão de derramar sobre aqueles que tomarem o caminho de Jesus. É no caminho (categoria importante para o evangelho de Marcos) que haveremos de reconhecer Jesus e contempla-lo como o verdadeiro “Filho de Deus” pendurado na cruz, como professou o oficial do exército, na paixão segundo Marcos.

 


Na ceia da quinta, um dia antes da ceia que os judeus faziam para celebrar a libertação do Egito, Jesus se entrega na palavra e no gesto simbólico e sacramental: tomai e comei, isto é o meu corpo...; tomai e bebei, isto é o meu sangue..., segundo os três primeiros evangelistas e Paulo, e manda fazer o que ele fez, isto é, doar-se no amor e no serviço fraterno, em cotidiano lava-pés, até o fim, segundo o quarto evangelho. Se Jesus tivesse participado daquela ceia e desistido dos eventos que vieram em seguida, aquela refeição teria sido uma ceia comum e de mau gosto, um teatro macabro e não um memorial. Mas as palavras e os gestos da quinta são acompanhados pelos gestos da “noite” (conceito caro a São João!) que caía sobre eles e mergulhava Jesus na escuridão da sua paixão. Ali se realiza o processo iniciado pelo beijo com sabor de traição, do julgamento sumário, da humilhante flagelação e da injusta condenação de Jesus. A sexta, ou a “noite escura” da missão de Jesus, confirma e dá realismo às palavras e gestos da ceia da quinta. De fato, ele se entregou, amou até o fim, deu a vida pelos seus. A ceia de si, do seu corpo e sangue dados para a vida do mundo, foi servida no altar da cruz na tarde de sexta. A sexta dá sentido e realidade aos eventos da quinta. Contudo, um amor assim, como o de Jesus, não pode ficar estéril, silencioso e sem recompensa. Quem morre amando ou morre porque ama não pode ser destruído na morte. Seria dar à morte um poder que ela não tem, isto é, o poder de destruir o amor. “O amor é mais forte que a morte”, ensina o livro sapiencial do Cântico dos Cânticos. Daí o fato de Agostinho ter chamado aquela noite de “a mais bela das vigílias”. É a noite em que vence a vida, vence o amor, vence Deus, que não deixa na morte os que Ele ama. E, por causa desta vitória, celebrada na fé e da qual fazemos memória, somos colocados dentro daqueles eventos salvíficos: morremos como ele e ressuscitamos como ele. E porque a morte foi vencida pela ressurreição do Senhor Jesus, então a ordem dele de “fazei isto em minha memória” pode ser cumprida com efeito pleno e duradouro. Todas as vezes que fazemos como ele, celebrando no nosso presente, num único e irrepetível evento, os mistérios da sua paixão, morte e ressurreição, somos associados àqueles eventos e aguardamos a vinda gloriosa do Senhor. Esta é a nossa fé. Agora esperamos a sua volta, pois o mais difícil e doído Jesus já fez, ofereceu o último sacrifício, o da nova aliança no seu corpo e sangue. Diante da tragédia do pecado e da angústia da morte, nós temos o que pensar, o que crer e o que dizer, temos uma resposta, temos a quem apresentar os pecadores e os mortais deste mundo, temos um nome e uma pessoa em quem, acreditando, teremos a vida, a vida plena, a vida de Deus, já aqui pela fé, segundo a palavra de Jesus no quarto Evangelho.

 

Eis, irmãos, o que estamos para celebrar. Vamos juntos ao túmulo do Senhor. A encarnação se destina à paixão, escreveu o grande teólogo Von Balthasar. Passemos de Belém a Jerusalém, da manjedoura ao túmulo vazio. Lá encontraremos Jesus, o Senhor que vive para sempre.

 

Queria, antes de terminar, dizer também uma palavra acerca da natureza do sacerdócio ministerial, dirigindo uma palavra especial aos presbíteros e diáconos desta nossa Igreja. Hoje é dia de expressar a proximidade entre o bispo e seus primeiros e imediatos colaboradores. Nós nos conhecemos bem, bem mesmo. Eu teria uma palavra a dizer sobre e a cada um pessoalmente. Teria o que partilhar com cada um o que sua gente diz de vocês. Teria considerações a traçar com cada um. E certamente vocês teriam o mesmo a dizer acerca de mim e o que escutam de mim. Nós nos conhecemos bem. Conhecemos as grandezas e fraquezas uns dos outros. Temos que nos amparar uns nos outros para não deixar mancar a Igreja que nos está confiada, a mim por primeiro e a vocês como preciosos colaboradores da ordem episcopal. A santidade de muitos leigos e leigas sana e equilibra o que nós, sacerdotes e consagrados, não conseguimos garantir à saúde espiritual da nossa Igreja, mas não podemos descuidar do nosso testemunho e exemplo, da nossa fadiga maior pelo bem do Povo de Deus e pela conversão e santidade da Igreja. 

 

Talvez não sejamos os primeiros na fila da santidade e da conversão, mas não podemos nos contentar com os últimos lugares na fila. Espera-se mais de nós! Deus nos conservou a vida na travessia deste ano desde a última celebração desta liturgia. Deixou-nos no mundo, apesar de tudo. Hoje é dia nos perguntar, mirados no Senhor da Paixão que dá sua vida pelos seus, acerca da nossa medida de sacrifício e de fadiga, de sofrimento e de dor pelo bem daqueles que o Senhor nos confiou. Qual a nossa medida de oferta de nós mesmos ao Deus que nos chamou e ungiu e ao povo que nos ama e nos sustenta? Fomos ungidos para proclamar as coisas boas de Deus, curar as almas feridas, mostrar o caminho da liberdade aos oprimidos por muitas prisões, anunciar a graça e o afeto de Deus... é isso que nossa gente espera receber de nós. É isso que temos dado em nome de Deus ao nosso povo? Assim fez o Messias de Isaías, assim fez Jesus, assim devemos fazer nós os ungidos, nas mãos e na cabeça, para este tempo de missão, para esta Igreja local. Não fracassemos nisso, não sejamos preguiçosos nestas tarefas, não deixemos nosso povo à míngua de graças, de bênçãos, de cuidados. Não sejamos maus pastores. Não deixemos os mais pobres sem nossa assistência espiritual (cf. EG 200). Não corramos atrás de glórias, benefícios, vaidades, sucessos, como pediu o Papa Francisco neste domingo de Ramos, mas corramos atrás de uma sincera imitação e conformação ao Senhor, bom e belo Pastor, que tendo amado os seus, amou-os até o fim. Que nosso povo goste de nós e nos ame porque sente que somos “seus” pastores, que tentamos ser bons apesar de nem sempre conseguirmos, mas não desistamos de continuar tentando sempre e buscando dar o melhor de nós. Deixemo-nos ser cuidados e formatados por Deus através da nossa indispensável experiência espiritual, orante e cotidiana com ele. Deixemo-nos ser cunhados como pastores segundo as demandas da nossa gente. Sejamos pastores antes de qualquer outra coisa! Pastores que conhecem o rebanho, que têm o cheiro das ovelhas e cujas ovelhas conhecem a voz e o cheiro. Pastores que exorcizamos os males, espantamos os maus pastores e colocamos a graça e o bálsamo de Deus nos que são dele e ele se dignou confiar a nós. Obrigado por tudo que vocês têm feito, pela Igreja que somos, pelos sonhos que sonhamos juntos para nosso futuro. Eu preciso de cada um. Ajudem-me a ser o bispo que esta Igreja precisa. A todos abençoo e afetuosamente acolho de novo seu sim para compor nosso presbitério diocesano. Que a Mãe do Crucificado Ressuscitado cuide de nossa Igreja e custodie nossa fé. Amém.

 


Dom José Carlos de Souza Campos
Bispo de Divinópolis-MG

 

 

Abaixo você confere, na íntegra, o vídeo da homilia:

 

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