×

Conteúdo

Pensando nas pessoas dos grupos de risco (Artigo com notas)

terça-feira, 28 de abril de 20 às 15:27

Por que algumas pessoas que se julgam fora dos grupos de risco acham que podem reivindicar para si a Eucaristia, que as igrejas estejam abertas e que haja celebrações com as pessoas que “não apresentam risco”? Quem vai fazer a seleção na entrada? Que vai estar na porta para mandar de volta para casa o idoso, o cardíaco, o diabético, o fumante e outros dos grupos de riscos que teimosamente desejarem participar? Quem não levar sua máscara e seu álcool vai ser excluído da “sadia” assembleia celebrante? Quem garante para si mesmo que o vírus inexiste na sua exuberante saúde aparente? Vale passar na igreja de carro ou a pé e pegar “seu pedaço” de Eucaristia e ir embora, sem celebração, sem assembleia litúrgica, sem saborear a vida comunitária celebrante[1]?

 

Estas perguntas parecem não terem sido feitas por piedosas pessoas famintas de Eucaristia, que tentam se enquadrar nos grupos seletos que podem celebrar e comungar nas igrejas. A piedade eucarística destes irmãos autoriza que haja castas que podem e castas que não podem comungar nesta hora (processo seletivo espiritual das espécies). O princípio da igualdade[2] – ninguém pode – não seria mais justo e bíblico? “Viviam unidos e tinham tudo em comum”[3]. Unidos na privação e em comum a mesma tristeza e fome de não celebrar a Fração do Pão.

 

A postura de certos grupos da Igreja e de pessoas com discursos de “saudade de Eucaristia” leva a esquecer exatamente dos patriarcas da fé, os mais velhos; a desconsiderar os mais frágeis, os doentes de doenças graves e crônicas; a criar uma Igreja dos “sadios” e dos “outros”. Numa possível fome em casa, só os mais novos comerão do pouco existente na dispensa, deixando morrer de fome primeiro os mais velhos? Ou comerão todos um pouquinho do que ainda resta? O pouquinho do que ainda resta é a “comunhão espiritual”. Todos comem deste “pouco” mesmo que insuficiente para matar e saciar completamente a fome espiritual da Eucaristia. Mas todos igualmente! Novos e idosos, sadios e doentes, santos e pecadores, os de comunhão diária e os de comunhão dominical. Sem seleção espiritual, sem “eugenia espiritual”!

 

Também é lamentável a perda do sentido da Igreja como o “Corpo Místico de Cristo”[4]. Todos estamos interligados e unidos a Ele, nossa Cabeça e Princípio. Se uns comungam, o Corpo todo se alimenta. Somos um Corpo e não simplesmente sujeitos crentes individuais, com a necessidade de cada um ter de se alimentar para alimentar, só desta forma, o Corpo inteiro. A santidade de um santifica o Corpo; o pecado de um mancha o Corpo; a comunhão sacramental de um alimenta o Corpo. Não é em cima desta verdade de fé que se fundamenta a teologia das indulgências pela via da comunhão espiritual entre os santos, os batizados, os da tribulação e os da glória[5]? Ou entendemos que somos um Corpo ou teremos que alimentar cada membro, como se não houvesse um Corpo onde uns sustentam os outros! Todos poderiam comungar (e poder não é ter direito[6]), mas não poder – e haverá mesmo fora das pandemias quem não possa comungar – não significa necessariamente fraqueza espiritual que mata a fé por inanição eucarística. Milhares de irmãos e irmãs – o Papa, bispos, sacerdotes, pequenas equipes de celebração – estão comungando e alimentando o Corpo todo[7]. A Igreja não está sem Eucaristia! O alimento espiritual está saciando o Corpo! Enquanto houver um comungante, haverá vigor espiritual no Corpo todo!

 

Acho que perdemos o senso da comunhão eclesial, da circulação dos bens espirituais no Corpo inteiro de Cristo, a Igreja, e fixamos nosso olhar erradamente na comunhão sacramental individual como única forma de vivência da fé eucarística e dos seus efeitos. A comunhão eucarística tomada abundantemente até antes da pandemia não nos educou para a comunhão mística que existe entre os batizados, mesmo que nem todos tenham acesso à vida sacramental. Precisamos pensar nisto!

 

Neste tempo de pandemia e de carência eucarística, o que temos para todos são estas meditações: primeiro, não existem grupos de risco. Quem, porventura, fosse à Igreja comungar ou quem ficasse em casa estaria igualmente desprotegido pelos contatos e proximidades. Segundo: um membro da Igreja que comunga fortalece a Igreja toda, o Corpo inteiro. Terceiro: deixar de fora os idosos e os debilitados na saúde, abrindo a possibilidade de comungar sacramentalmente aos demais, é deixar fragilizarem-se espiritualmente, por falta desta comunhão, aqueles que nos educaram na fé e aqueles que estão mais necessitados dos remédios espirituais. Quarto: fazer de conta que nada está acontecendo e voltar tudo ao normal, será uma imperdoável irresponsabilidade e um descompromisso com a vida.

 

Só para pensar! Temos tempo para isto em quarentenas! Está sobrando tempo para pensar, para conviver em casa e para rezar na nossa Igreja doméstica e no silêncio do nosso quarto interior.

 

Dom José Carlos de Souza Campos

Bispo de Divinópolis – MG

 

 


[1] Cf. Exortação apostólica pós-sinodal Sacramentum caritatis, 44.

[2] Cf. Cânone 208, do Código de Direito Canônico: “entre todos os fiéis vigora uma verdadeira igualdade”.

[3] Atos dos Apóstolos 2,42-47; 4,32-37; 5,12-16.

[4] Cf. Constituição dogmática sobre a Igreja Lumen gentium 7.

[5] Cf. Lumen gentium 49-50.

[6] Cf. Sacramentum caritatis, 55; Catecismo da Igreja Católica 1385-1386. Atenção ao cânone 213, citado por vezes, erroneamente, como “direito de comungar”. Aqui trata-se do direito do fiel de receber, como dever intrínseco ao múnus dos pastores (e não dever de Deus frente a “nossos direitos”), os bens espirituais, principalmente (e não só!) a Palavra de Deus e os sacramentos (em condições dignas, porque somos sempre indignos; daí, pois pedirmos a piedade de Deus durante toda a celebração eucarística, no ato penitencial, Cordeiro de Deus, Senhor, não sou digno...). Há de se recordar ainda que há sacerdotes impedidos de presidir e fiéis impossibilitados de comungar. Portanto, “sem direito”. Deus não tem obrigações e deveres para conosco, nem nós temos direito ao que é d’Ele, senão como dom imerecido e misericordioso d’Ele em nosso favor. Mantemos com Ele uma relação de amor paterno-filial, não uma relação de cobranças, direitos ou servidões. Vejam-se ainda: cân. 209 §1 (conservar a comunhão com a Igreja) e cân. 840 (os sacramentos em vista da comunhão eclesial). Os sacramentos constroem e conservam a comunhão eclesial (condição sine qua non para aproximar-se deles). São Justino (século II), na sua “Primeira apologia a favor dos cristãos”, escreveu: “Este alimento se chama entre nós Eucaristia, da qual ninguém pode participar, a não ser quem [...] vive conforme o que Cristo nos ensinou” (Patrística, Justino de Roma, I e II Apologias/Diálogo com Trifão, Paulus, 1995).

[7] Apesar de este não ser o modo ordinário e bíblico de participar da comunhão eucarística (tomai, comei e bebei!), mas extraordinário e possível em tempo de pandemias. Somos poucos agora para não perdermos ninguém amanhã. Contudo, não somos uma “Igreja virtual”, mas real, encarnada, “acidentada, ferida, enlameada por ter saído pelas estradas” (EG 49).

 

Notícias Relacionadas

18 jun 16
19 abr 16
06 abr 15
25 nov 19

Parceiros