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Homilia para a Missa Crismal de 2021 - Solenidade do Coração de Jesus

segunda-feira, 14 de junho de 21 às 09:05

“O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu e enviou-me para... curar as feridas da alma... Vós sois os sacerdotes do Senhor, chamados ministros de nosso Deus. Eu os recompensarei por suas obras segundo a verdade...”

 

Este pedaço da nossa história coletiva precisa de cuidados, de vacinas, de governantes sérios, mas também precisa de ungidos. Ungidos de Deus para curar as feridas da alma. Eis o que somos e o que podemos. A pandemia gera medos, adoecimentos, desequilíbrios, solidão, mortes, lágrimas, desolação... Mas, com ou sem cuidados, com ou sem vacinas, com ou sem gestores competentes, nossa missão passa por outro viés e também traz bálsamo e consolação. Obrigado, estimados irmãos sacerdotes e diáconos, porque em nenhum dia desta maldita pandemia a Eucaristia deixou de ser celebrada. Um ou poucos comeram dela, mas o pacto da nova e eterna aliança foi celebrado dia após dia. Não nos esquecemos de fazer memória de Jesus, nem Ele deixou de estar sobre nossos altares e diante de nossos olhos. “Para que preparas os dentes e o ventre? Crê e já comeste”, ensina Agostinho. A pandemia nos levou ao essencial, ou seja, à exclusividade da celebração do mistério pascal. Somos “servos deste mistério”. Deixamos de fazer muitas coisas, mas não deixamos de fazer memória da primeira e definitiva páscoa, que nos tem alimentado a esperança de ver e celebrar a páscoa que nos tire desta pandemia. O Senhor nos libertou antes e nos libertará agora. Nossa unção nos torna portadores deste alegre anúncio. Sacerdotes do Senhor e Ministros de Deus, temos enfrentado nossos medos e ido, depois de um recuo inicial, às pessoas, aos hospitais, aos velórios, às casas, aos templos... Tomamos nossa veste, nossa estola, nossos ritos, nossos óleos e estamos junto dos nossos. Sentimos que a unção tem exorcizado nosso medo, tem nos levado ao risco, tem nos conduzido à cura das almas feridas. Fazemos isso não porque somos negacionistas ou blindados, mas porque tomamos consciência de nossa unção. Também temos o que dar. Não temos vacinas, nem medicamentos, nem prescrições sanitárias, mas temos mãos que abençoam, orações que põem graça, presença que leva Jesus, sacramento que cura o corpo e a alma. Não guardemos isso para nós ou só para o tempo bom. Este tempo suplica isso de nós. Nós temos. Nós damos. Por isso, seremos recompensados. Eu lhes peço que continuemos a oferecer, e não deixemos jamais de fazê-lo, o que só nós temos, só nós podemos dar, só nossa unção possui: a força de Deus, o poder de Deus, a graça de Deus, a cura das feridas da alma. Somos administradores destes bens espirituais. Se eles faltarem, não será culpa das leis, dos governos ou das pandemias, mas será culpa nossa, negligência nossa. Eu os convido, irmãos, pela unção que recebemos no peito, na testa, das mãos, na cabeça, a oferecer a este tempo o que só os sacerdotes podemos dar. De nós nossa gente espera tão somente que não lhes deixemos faltar o essencial da espiritualidade: palavra boa, sacramento eficaz, oração que abençoa. Sejamos sacerdotes do Senhor e ministros de Deus. Somos tão somente isso! Nada mais que isso. Nada menos que isso. Obrigado pelas ousadias, pelas criatividades, pelos enfrentamentos, pela presença nas horas dolorosas, pelas Eucaristias celebradas (muitas no silêncio de quem só tem Deus como testemunha). Nossa unção gera vida, gera fé, gera cura. Creiamos nisso!

 

“Eu sou o Alfa e o Ômega, aquele que é, que era e que vem, o Todo-poderoso”.

 

O querigma da fé, do qual sempre devemos partir, sempre, mesmo já tendo avançado qualquer percurso do caminho, o querigma nos põe diante do mistério da vida, da morte e da ressurreição do Senhor Jesus e nosso também. O anúncio de Deus que fazemos nesta hora não subtrai as amarguras e a dureza da morte. A fé alarga o horizonte e nos mergulha no para além dos limites do visível. Pregamos a morte e o que vem após ela. A morte, todos a admitimos. No que vem depois dela, vamos aos poucos tomando posse pela via da fé. Nossa unção tem o poder de educar a fé para possuir a ressurreição. Venha pelos meios que vier a morte precisa de resposta e de remédio. A pandemia pôs em evidência a morte, morte precoce para muitos. Nossa fé proclamada e ensinada torna-se real e eficaz consolação. Sabemos de onde vimos e de quem saímos: Ele é o Alfa. Ele é o que é e o que nos fez ser! Tudo foi feito por Ele. Mas é também o Ômega, o que vem, Aquele que encontraremos em algum momento, ou pela nossa morte corporal ou pela sua vinda gloriosa, desejada e bendita. Tudo foi feito para Ele! Vamos para Ele e nos encontraremos n’Ele, nos conheceremos n’Ele, viveremos n’Ele a vida sem lágrima, sem dor, sem morte. Nossa unção nos capacita a pregar isso de modo que os corações entendam, mesmo que imersos na dor e no pranto. Obrigado, irmãos, pelas muitas consolações que suas presenças causaram às famílias que ao redor de vocês, com rito breve ou mergulhados todos no silêncio, sepultaram seus queridos, cheios ainda de sonhos e esperanças neste mundo. Creio que isso nunca será esquecido por elas. Não seremos avaliados propriamente pelo quilate das palavras ajustadas e piedosas que pronunciamos naquela hora sem palavras, mas avaliados pela ousadia de estar ali no tempo da visita da morte, por não deixar sozinhos, na pior hora, os que amamos, por não fugir do momento em que presença e silêncio fazem toda a diferença. Obrigado porque ao redor da morte estavam muitos de vocês (e posso dizer também eu), como sacramentos e garantes da vida eterna. O Todo-poderoso que vem é aquele a quem servimos e para quem apontamos, e que tem a “chave da morte e do Hades” (Ap 1,18).

 

“Ele começou a dizer-lhes: Hoje se cumpriu esta Escritura”.

 

Jesus toma para si a unção profética e reveste-se do poder dela. Os olhos fitos n’Ele eram expressão de uma sede de Deus, da sua Palavra bendita, da qual Jesus era portador e ícone. Irmãos sacerdotes e diáconos, também os seminaristas que se põem no caminho do discernimento e que serão chamados ao ministério ordenado, nós continuamos o que Jesus começou a dizer. Começou e não parou mais. Falou lá e continua falando cá, através de nós. O “hoje” de lá e de cá põe os ouvintes diante d’Ele. Não deixemos de falar com Ele e no lugar d’Ele, de continuar falando o que Ele continua dizendo para o “hoje”. Para isso, é preciso, antes, fazer-nos discípulos, sempre discípulos, sempre aprendizes. Discípulos que temos os olhos fixos nele, para aprender e continuar dizendo o que Ele começou a dizer e dirá até que volte. Precisamos ser discípulos antes de sermos sacerdotes. E sacerdotes e ministros, porque discípulos. O sacerdócio não pode ofuscar, diminuir ou eliminar nosso ser discípulos. Estamos aqui hoje para renovar nossa disposição de ser discípulos. E por isso, nossa vontade de continuar sendo sacerdotes.

 

Termino com palavras de gratidão incontida: obrigado pelo testemunho que demos até aqui de comunhão neste tempo que nos incita à divisão; obrigado pela disposição missionária em nossa vida e em nosso território diocesano; obrigado aos irmãos que fecham ciclos em umas paróquias e abrem-nos em outras, pelas transferências que anunciamos hoje; obrigado pelos que souberam cuidar dos outros e também de si, buscando e pedindo ajuda para si mesmos no meio de uma pandemia que nos adoeceu também (nós também temos feridas que precisam ser curadas; permitamo-nos ser cuidados); obrigado por estarem vivendo nossa diocesaneidade numa comunhão que não é pobre, mas pode crescer ainda entre mim e vocês e entre vocês. Para os tempos futuros vamos precisar aprender a conviver e a trabalhar cada vez mais em equipe. A vida comunitária deu vantagens aos religiosos nesta pandemia e mostrou ser um remédio e um oásis no meio do caos e da solidão. Os tempos que virão – creio – nos conduzirão a mínimas comunidades sacerdotais, que poderão ser, noutros tempos, refúgios de vida fraterna quando perdemos, como agora, a vitalidade e a cotidianidade das relações com nosso povo.

 

Bendito seja Jesus Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote, pelo chamado que Ele nos fez e pelo sim que cada um pronuncia agora de novo, com temor e tremor, mas com sincera humildade e evangélica ousadia. Pedimos neste dia de oração pela nossa santificação: Jesus, manso e humilde de coração, fazei nosso coração semelhante ao vosso, na carne, no espírito, na santidade. Bom Jesus, convertei-nos e santificai-nos! Amém.

 

DOM JOSÉ CARLOS - BISPO DE DIVINÓPOLIS

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