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Tempo de recolhimento: na busca do essencial

Querido irmão padre, a você que me é mais próximo, a você de nossa diocese de Divinópolis e a quem chegar essa mensagem. Sei que nestes dias muitas coisas são escritas, fruto de reflexões amadurecidas através de leituras e de muita interiorização. Mas muitas coisas também saem de nossas emoções nem sempre tão harmonizadas, talvez esta seja uma delas, mas não vou deixar de partilhá-la com você. Tenho recebido muitas mensagens de pessoas me perguntando como estão sendo estes dias sem poder presidir a Eucaristia em nossas Comunidades, com nosso povo. Como fazer nestes dias de mutirões de Confissões, visitas aos enfermos, reuniões de preparação para a Semana Santa e tantas outras atividades próprias do nosso ministério. Para nós não são dias agradáveis. Diante disso convido você a uma reflexão, que talvez ajude.

 

Alguns anos atrás me caiu nas mãos um livrinho: “Cinco Paes e Dois Peixes” do Cardeal vietnamita Van Thuan. Quem já leu este livro sabe do que estou falando. Os testemunhos são marcantes e como não nos tocar profundamente a alma! Deste livrinho tiro para mim e para você dois pensamentos. (Thuan, François-Xavier Nguyen Van. Cinco pães e dois peixes... Ed. Santuário, 2000).

 

O primeiro: Discernir entre Deus e as obras de Deus: aqui Van Thuan diz como foi doloroso ter que parar tantas atividades pastorais e agora sendo forçado a se separar de tudo. Sente-se tentado a pensar que, no mais produtivo tempo de sua vida e do seu ministério ficar inativo, seria algo impossível de enfrentar. Fica claro uma profunda crise de fé. Ele diz: “Numa noite, das profundezas de meu coração senti uma voz que sugeria: Por que atormentas assim? deves distinguir entre Deus e as obras de Deus. Tudo o que realizaste e desejas continuar a fazer: visitas pastorais, formação dos seminaristas, (...) tudo isso é um trabalho excelente, são as obras de Deus, mas não são Deus! Se Deus quiser que abandones todas essas obras colocando-as em suas mãos, faze-o logo e tem confiança nele. Deus o fará infinitamente melhor do que tu. Confiará suas obras a outros que são muito mais capazes do que tu. Escolheste somente Deus, não suas obras!” (cf. págs. 23-24). Neste tempo de tantas provas e inatividades, como Van Thuan vamos nos dedicar a Deus e não as suas obras. É tempo, mesmo que “forçado”, de focarmos na espiritualidade, na interiorização, visitar nossas sombras interiores, nossos porões existências... E quando tudo tiver passado estaremos mais bem preparados tanto para Deus como para as obras d’Ele. É um caminho árduo e não fácil de trilhar, mesmo por que muitos de nós estávamos desacostumados a esta prática. Quando iniciamos um tratamento de fisioterapia ou físico, ou vamos à academia, os exercícios dos primeiros dias nos deixam doloridos, creio que será bem parecido com nossa alma. Mas não desista, nos fará bem por toda a vida. Como sabemos, Espiritualidade não é aquilo que fazemos, mas aquilo que Deus faz em nós. Se este tempo não é um convite a isso, pelo menos nos interpela a trilhar esse caminho, que nos vai exigir humildade e perseverança.

 

O segundo pensamento: “Minha força, a Eucaristia”. Ser privado de celebrar a Eucaristia para nós padres é algo impensável, mas pode acontecer, por vários motivos. Foi assim com Van Thuan e assim está sendo conosco neste momento. Realmente as condições que nós temos atualmente são muito mais favoráveis, não podemos presidir com nossas assembleias lotadas, podemos a cada momento que quisermos e pudermos o que não era o caso dele. Mas este testemunho nos ajuda e anima, espero. Vamos ao relato: “Não poderei nunca exprimir minha grande alegria: todos os dias, com três gotas de vinho e uma gota de água na palma da mão, celebro minha missa. De qualquer maneira, dependia da situação. No navio que me levava para o norte celebrei durante a noite e, avisados, os presos estavam em torno de mim. Às vezes tenho que celebrar quando todos vão tomar banho depois da ginástica. No campo de reeducação estávamos divididos em grupos de 50 pessoas. Dormíamos em cama comum, cada um com direito a 50 cm. Demos um jeito de tal modo que havia cinco católicos comigo. Às 21h30 era preciso apagar a luz e todos deviam dormir. Inclino-me sobre a cama para celebrar a missa, de cor, distribuo a comunhão, passando a mão debaixo do mosqueteiro. Fabricávamos saquinhos com o papel dos maços de cigarros, para conservar o Santíssimo Sacramento. Jesus eucarístico está sempre comigo no bolso da camisa. (...) À noite, os prisioneiros se revezam nos turnos de adoração. Jesus eucarístico ajuda de modo tremendo com sua presença silenciosa. Muitos cristãos retornam ao fervor da fé durante aqueles dias. Até budistas e outros cristãos se convertem. A força do amor de Jesus é irresistível. A obscuridade do cárcere se ilumina, a semente germinou da terra durante a tempestade. (cf. págs. 44-45).

 

Pois é, querido irmão padre, procurei transcrever o conteúdo da mensagem do livrinho, pra não tirar dele a essência do que nos é transmitido e me perder nas minhas interpretações pessoais que serão sempre muito reduzidas. Mas creio que o ajudará como tem ajudado a mim neste tempo de privação e provação. Somos convocados a dar o testemunho antes da nossa fé em Jesus e depois dar testemunho no nosso ministério. Sei que não sou um modelo exemplar de sacerdote, tenho minhas limitações, quem não as tem. O nosso modelo e nossa força é Jesus Cristo. Todos nós em algum momento da vida somos testados em nossa fé, creio não ser o querer de Deus, mas Ele nos permite em tais situações ser oportunidade de rever nossa fé e nosso ministério. Quanto tempo ainda teremos de ficar recolhidos? Não sei, mas que seja tempo de crescimento humano e espiritual. Os místicos passaram pelas noites escuras da alma, nós também passamos. Não basta admirar os testemunho dos outros. É agora tempo de darmos sentido a nossa fé e a nossa vida de cristãos. Tudo passa, só Deus basta!

 

Padre Adilson Neres | Diocese de Divinópolis – MG

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