Comentário ao Evangelho da Solenidade de Todos os Santos (Mt 5,1-12) - 04/11/18

Sexta-feira, 2 de novembro de 2018 às 18h 00  - Atualizado às 14h 25

Naquele tempo, 1vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e sentou-se. Os discípulos aproximaram-se, 2e Jesus começou a ensiná-los: 3“Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus. 4Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados. 5Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra. 6Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. 7Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. 8Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. 9Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. 10Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus! 11Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e, mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim. 12aAlegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus”.

 

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

 

Comentário do Padre Guilherme

 

Este trecho descreve o início de um discurso de Jesus que é conhecido como “Sermão da Montanha”. Trata-se de uma série de importantes ensinamentos que vão desde o início do capítulo 5 até o final do capítulo 7, do Evangelho de Mateus. Essa longa exortação não apresenta a totalidade do que Jesus queria ensinar. Nela não estão presentes alguns temas importantes como, entre outros, a Cruz, a Eucaristia, a Igreja e o Espírito. Pode-se afirmar que o Sermão da Montanha é um chamado que Jesus faz para quem O quer seguir.


O termo “bem-aventurado”, que também pode ser traduzido como “feliz”, já era uma forma costumeira nos escritos do Antigo Testamento. E era usado para felicitar alguém por um dom concedido por Deus ou para anunciar a felicidade para determinada categoria de pessoas. Em Sua fala, Jesus declara quem são os que se encontram na situação mais propícia para receber o Reino de Deus.


O trecho pode ser dividido em duas partes. A primeira (Mt 5,3-9) gira em torno da pobreza e do comportamento do homem; a segunda (Mt 5,10-12), relaciona-se à perseguição e corresponde mais à segunda fase da vida de Jesus.


Bem mais que estabelecer diferença ou rivalidade entre pobres e ricos, a argumentação é de que pobreza interior, do coração, é condição necessária para se poder fazer parte do Reino de Deus.


O espírito do qual Jesus fala no versículo 3 não é o Espírito Santo, nem a inteligência, mas refere-se ao coração, ou seja, o centro e a totalidade da pessoa. A pobreza em espírito é característica daqueles que as provações (materiais e espirituais) acostumaram a só contar com o socorro de Deus.


Os aflitos do discurso não são os melancólicos ou as vítimas da opressão social. Mas os que ainda esperam a consolação definitiva, a única capaz de libertar o ser humano de suas provações.


Os mansos não são os que têm temperamento tranquilo, mas aqueles que não têm como agir devido à condição social oprimida. Jesus Se apresenta como um deles. Entre as pessoas que podem segui-Lo, podem tomar parte aquelas que também sejam vítimas da opressão.


A justiça não se trata da justiça de Deus (que virá no final dos tempos), porque Jesus nunca aconselhou mais que a espera vigilante. Nem a justiça social sobre a terra, mas a justiça prática, da vida cristã mais perfeita, que é a fonte de justiça entre os homens.


A fala de Jesus se dirige às pessoas simples: pobres, oprimidos, indefesos, marginalizados. Proclama a eles o alegre anúncio da vinda do Reino de Deus. O Senhor Deus irá intervir na história e fazer justiça. Não é uma exaltação da pobreza ou da miséria, mas o chamado à confiança de que Deus não deixará os que vivem nessas condições permanecerem assim. Ao contrário, virá em socorro.


Este início do Sermão da Montanha é um chamado que Jesus faz às pessoas que enfrentam dificuldades nesta vida a conservarem esperança e confiança no amor de Deus.
Para o pensamento religioso dominante daquele tempo, as pessoas que viviam em alguma situação de privação, pobreza ou opressão, só poderiam estar nessa condição por serem destinatários da ira de Deus. Mais ou menos como se as dificuldades que enfrentavam fossem castigo por terem praticado algum mal.


O convite neste início do discurso do Sermão da Montanha é à confiança em Deus. E, também, à conservação das boas intenções no coração, como a mansidão, a pureza, a misericórdia, a disposição de promover a paz. Quem viver assim pode a ter certeza de que Deus virá em socorro das dificuldades e tribulações.


Padre Guilherme da Silveira Machado é administrador paroquial na Paróquia de São Sebastião, em Leandro Ferreira.