Comentário ao Evangelho do 28º Domingo Comum (Mc 10,17-30) - 14/10/18

Sábado, 13 de outubro de 2018 às 0h 23  - Atualizado às 16h 26

Naquele tempo, 17quando Jesus saiu a caminhar, veio alguém correndo, ajoelhou-se diante dele e perguntou: “Bom Mestre, que devo fazer para ganhar a vida eterna?” 18Jesus disse: “Por que me chamas de bom? Só Deus é bom, e mais ninguém. 19Tu conheces os mandamentos: não matarás; não cometerás adultério; não roubarás; não levantarás falso testemunho; não prejudicarás ninguém; honra teu pai e tua mãe”. 20Ele respondeu: “Mestre, tudo isso tenho observado desde a minha juventude”. 21Jesus olhou para ele com amor, e disse: “Só uma coisa te falta: vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois vem e segue-me!” 22Mas quando ele ouviu isso, ficou abatido e foi embora cheio de tristeza, porque era muito rico. 23Jesus então olhou ao redor e disse aos discípulos: “Como é difícil para os ricos entrar no Reino de Deus!” 24Os discípulos se admiravam com estas palavras, mas ele disse de novo: “Meus filhos, como é difícil entrar no Reino de Deus! 25É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus!” 26Eles ficaram muito espantados ao ouvirem isso, e perguntavam uns aos outros: “Então, quem pode ser salvo?” 27Jesus olhou para eles e disse: “Para os homens isso é impossível, mas não para Deus. Para Deus tudo é possível”. 28Pedro então começou a dizer-lhe: “Eis que nós deixamos tudo e te seguimos”. 29Respondeu Jesus: “Em verdade vos digo, quem tiver deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos, campos, por causa de mim e do Evangelho, 30receberá cem vezes mais agora, durante esta vida – casa, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, com perseguições – e, no mundo futuro, a vida eterna.

 

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

 

Comentário do Padre Guilherme

 

 

Esta passagem pode ser dividida em três partes distintas: 1ª: A vocação de uma pessoa rica (17-22) – condições ou caminho para ter a vida eterna, definitiva; 2ª: Diálogo de Jesus com os discípulos (23-27) – retomada do tema; 3ª: Pergunta de Pedro e a resposta (28-30) – complementação.


A relação que as pessoas têm com os bens materiais, o apego excessivo ou o desprendimento já eram preocupações fortes entre os primeiros cristãos. Podemos entender que foi também uma questão importante para Jesus. Afinal, esse relato aparece nos três evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas).


Jesus aproveitou o questionamento de alguém sobre o que fazer para alcançar a vida eterna para deixar um ensinamento profundo. Os bens materiais são necessários e úteis para o ser humano. Mas é necessário certo cuidado diante deles. Porque é possível se deixar levar pelo apego.


Existe um contraste entre a maneira que a pessoa chegou para fazer a pergunta e o jeito como foi embora. Veio correndo, ajoelhando e elogiando Jesus. Foi embora abatido e cheio de tristeza. São muitas as pessoas que aderem à fé cristã de forma entusiasmada e alegre. Com o passar do tempo, diante das dificuldades e provações, desanimam e sentem-se cansadas e desistem.


Conforme Jesus ensina, para ser Seu seguidor, é importante buscar o desapego. E não apenas de bens materiais, mas de muitas coisas que nos prendem, como nossas opiniões irredutíveis, nosso jeito de agir ou de não aceitar determinadas situações. Algumas vezes, até nossa inércia e teimosia em não agir. Quem deseja entrar no Reino de Deus e, assim, alcançar a vida eterna, precisa ter abertura para as verdades da fé, que nem sempre são conforme nossas vontades terrenas.


Não é só o estrito cumprimento dos mandamentos da Lei de Deus que conduz à vida eterna. É preciso um algo a mais, um desdobramento através da atitude de vida. Quem quer ser de Deus tem que estar disposto a algumas renúncias.


O que torna alguém verdadeiro seguidor de Jesus é a capacidade de igualar seu destino ao d’Ele, no modo de amar e ser fiel, chegando mesmo a enfrentar o testemunho supremo da cruz. Para quem tem muitas riquezas, essa fidelidade pode se traduzir na partilha com os pobres.


Dividir um pouco do que se tem com os necessitados não é alguma forma de socialismo ou uma obrigação que cabe somete às pessoas ricas, mas a todas as pessoas. Ninguém é tão pobre que não tenha o que oferecer. E essa partilha não se resume a bens materiais. É preciso partilhar também o tempo, a escuta, a paciência, a convivência, o amor. A recomendação de Jesus não é destinada somente aos ricos, mas um convite a todos serem generosos. É condição para poder receber a vida eterna.


Embora existam pessoas que realmente se desapegam de tudo, até mesmo dos familiares, vivendo uma vida de entrega total no serviço religioso ou missionário, essa não é uma exigência para todos. O que Jesus pede é que no coração de quem O quer seguir haja espaço não somente para o amor aos parentes, aos amigos e aos bens materiais. É preciso ir aumentando o lugar onde Deus possa estar.


Os discípulos, como ainda não tinham compreendido de maneira plena o que Jesus ensinava, ficaram admirados com algo que poderia parecer impossível. Alcançar o reino de Deus não é fruto do esforço humano somente, mas é preciso contar com a força da graça divina.

 

Padre Guilherme da Silveira Machado é administrador paroquial na Paróquia de São Sebastião, em Leandro Ferreira.