Comentário ao Evangelho do 27º Domingo Comum (Mc 10,2-16) - 07/10/18

Quarta-feira, 3 de outubro de 2018 às 10h 57  - Atualizado às 15h 25

Naquele tempo, 2alguns fariseus se aproximaram de Jesus. Para pô-lo à prova, perguntaram se era permitido ao homem divorciar-se de sua mulher. 3Jesus perguntou: “O que Moisés vos ordenou?” 4Os fariseus responderam: “Moisés permitiu escrever uma certidão de divórcio e despedi-la”. 5Jesus então disse: “Foi por causa da dureza do vosso coração que Moisés vos escreveu este mandamento. 6No entanto, desde o começo da criação, Deus os fez homem e mulher. 7Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e os dois serão uma só carne. 8Assim, já não são dois, mas uma só carne. 9Portanto, o que Deus uniu o homem não separe!” 10Em casa, os discípulos fizeram, novamente, perguntas sobre o mesmo assunto. 11Jesus respondeu: “Quem se divorciar de sua mulher e casar com outra, cometerá adultério contra a primeira. 12E se a mulher se divorciar de seu marido e se casar com outro, cometerá adultério”. 13Depois disso, traziam crianças para que Jesus as tocasse. Mas os discípulos as repreendiam. 14Vendo isso, Jesus se aborreceu e disse: “Deixai vir a mim as crianças. Não as proibais, porque o Reino de Deus é dos que são como elas. 15Em verdade vos digo: quem não receber o Reino de Deus como uma criança, não entrará nele”. 16Ele abraçava as crianças e as abençoava, impondo-lhes as mãos.

 

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

 

Comentário do Padre Guilherme

 


Nesta passagem, os fariseus aparecem, mais uma vez, querendo colocar Jesus em contradição. A intenção deles não era dialogar para encontrar alguma solução religiosa para as pessoas separadas que vivessem uma segunda união naquele tempo. O que queriam mesmo eram argumentos para poder desmoralizar Jesus, cujos ensinamentos iam contra os interesses materiais e egoístas deles.


Os fariseus usaram como argumento uma licença concedida por Moisés, que é descrita no livro do Deuteronômio. Jesus respondeu citando um mandamento do livro do Gênesis, que é anterior ao Deuteronômio. Uma situação particular e específica não poderia servir de base para mudar aquilo que era mais fundamental.


Jesus descreveu a profundidade da união responsável que acontece entre um homem e uma mulher: “uma só carne”, um ser único. Ele mostrou que a união do casamento é muito séria, que muda a vida dos dois de forma muito profunda. É uma transformação de ordem espiritual!


Essa possibilidade da certidão de divórcio que os fariseus mencionaram foi uma concessão feita por Moisés. E era na verdade um remédio para uma situação que já estivesse viciada desde seu começo. Podemos entender que era mesmo uma proteção para a mulher repudiada, porque, conforme o livro do Deuteronômio (Dt 24,1a.4a), se o marido descobrisse alguma coisa indevida a respeito da sua mulher, ele poderia escrever essa certidão e, assim, não mais poderia tomá-la como esposa novamente. Ou seja, a mulher ficava livre do marido e não estaria mais sob o seu domínio. Jesus explicou para os fariseus que não seria uma lei que faria brotar o amor ou ressuscitá-lo onde ele já estiver morto. O gesto amoroso criador de Deus é que oferece ao homem e à mulher a possibilidade de se realizarem no amor um pelo outro.


O problema maior é o que Jesus chama de “dureza do coração”. É isso que faz com que muitos casamentos que não deveriam ter acontecido causem tanta dificuldade e sofrimento na vida das pessoas. Para se casar, é necessário planejamento sério. Uma construção que deve ser feita com cuidado, atenção, maturidade e responsabilidade. Consertar uma situação de casamento que não deu certo envolve muito mais esforço e traz sofrimento.


A intenção de Jesus nessa passagem não é de impor uma visão mais rigorosa e legalista a respeito do casamento. A preocupação de Jesus é muito mais com a dureza do coração dos homens. A falta de atenção, a irresponsabilidade, a falta de preparo para uma união sacramental que deveria ser sempre muito bem construída. Sem a dureza do coração, homem e mulher têm muito mais chance de crescimento no amor e de realização juntos. Quando depois Jesus explica para os discípulos em particular, Ele reforça o valor que tem uma união matrimonial.


O que deve ocupar mais a nossa reflexão, hoje, a partir dessa passagem talvez nem seja tanto a questão do divórcio ou do adultério. Até porque algumas situações passam a ser de muito difícil solução, como é o caso, por exemplo, das pessoas em segunda união que vivem a fé, mas precisam permanecer afastadas do sacramento da Eucaristia. Esses casos precisam ser muito pensados, analisados e rezados, para que possamos encontrar a melhor solução. Inclusive, talvez, até mesmo pensando no caminho de declaração da nulidade matrimonial da primeira união, se for possível. A sociedade de hoje precisa muito aprender com as situações de uniões que não deveriam ter acontecido. Que não foram conforme o projeto de Deus, que é a união amorosa, responsável e para vida toda.


Pela leitura dessa passagem, podemos ver que essa situação das separações dos casamentos que não dão certo, é uma questão que vem já de tempos muito antigos. A Igreja já tinha que lidar com esses casos desde os tempos primitivos. E, hoje, talvez, também possamos dizer que é uma das situações de mais difícil solução para as nossas famílias.
Sem deixar de pensar nas situações das pessoas feridas e machucadas em situações de casamentos que não deram certo, deveríamos nos esforçar por melhores condições de preparação para o casamento. Que os jovens namorados e os noivos fossem levados a uma reflexão mais aprofundada sobre essa união que pretendem construir. Que o namoro fosse ocasião de meditação, de preparação eficaz, de construção responsável e séria daquilo que eles têm intenção de viver depois. Inclusive, porque hoje, em dia, aumenta, cada vez mais, o número dos que vivem uma união amasiada, ou seja, sem receber o sacramento do Matrimônio. Muitas vezes, por medo do compromisso e da responsabilidade que esse sacramento traz. Também pelo desconhecimento das graças e benefícios que a força do sacramento traz para a vida do ser humano, sobretudo para o casal. A união matrimonial é muito séria e profunda. Conforme nos diz Jesus, “uma só carne”.


Muito mais que ficar discutindo se é permitido ou não a separação, deveríamos nos preocupar mais com as causas de tantas separações. Por que, depois de tantos anos da humanidade acumulando experiência e sabedoria, tanta gente, ainda, se une em casamentos que não permanecem? Por que ainda acontecem essas situações que trazem tanto desgaste e sofrimento para vida das nossas famílias? Por que o ser humano ainda não aprendeu a construir melhor sua própria vida? Ainda mais se pensarmos que são situações que afetam, de maneira profunda, a vida das famílias...


Essa citação do livro do Deuteronômio (Dt 24,1-4) que os fariseus usaram como argumento, na verdade é uma concessão feita para a fraqueza humana, uma dispensa do plano original de Deus para o ser humano. Jesus mostra, com uma passagem também do Antigo Testamento, que o projeto original de Deus é mais antigo que essa concessão. A vontade de Deus é que todo casamento durasse a vida inteira. Uma união que não pudesse e nem devesse ser desfeita. Ou seja, essa autorização do livro do Deuteronômio foi uma concessão para remediar, para resolver um problema que veio em decorrência da fraqueza humana.


O final da rica passagem colocada para a celebração deste domingo, ainda, traz Jesus falando da importância do “jeito de criança”, que é preciso ser cultivado por todos que querem fazer parte do Reino de Deus. Normalmente, as pessoas identificam a figura da criança com a pureza, inocência, simplicidade e desprendimento. São mesmo características importantes para que alguém possa acolher na vida o que vem de Deus. Mas, há, também, uma característica da criança que é valiosa para nossa reflexão. A criança é um ser humano que se encontra em situação de dependência em relação a quem lhe dá o sustento e criação. Precisamos nós, também, nos fazer e querer ser dependentes de Deus. Reconhecer nossa limitação e a necessidade da graça divina para que possamos ser completos.

 

Padre Guilherme da Silveira Machado é administrador paroquial na Paróquia de São Sebastião, em Leandro Ferreira.