Com Adélia, pelo Brasil

Quinta-feira, 26 de janeiro de 2017 às 7h 54  - Atualizado às 16h 37

Perante a plateia, no Grande Teatro do Palácio das Artes, Adélia Prado desculpou-se ao avisar que não estava disposta a dar autógrafos ou tirar fotos naquela noite. Pediu um minuto de silêncio e puxou um pai-nosso cantado pelo Brasil, algo que tinha muito mais importância do que “um rabisco” no livro, explicou.

 

O vídeo foi bastante compartilhado, e deu para sentir a atmosfera energética que aflorou, ali, da dedicação espiritual compartilhada. Adélia é católica, todo mundo que a conhece, conhece. Tornou-se notável por fazer versos como quem ora, falando a Deus pela expressão das pequenas coisas (mesmo das sujas).

 

Várias interpretações podem ser tiradas do gesto da poeta. A preocupação, por certo. Rogar ao mais alto é demonstração de quem receia o pior. Adélia poderia fazê-lo em casa, em Divinópolis, incluir o país em suas orações noturnas, que antecedem o sono. Certamente o faz, há muito. A crença, ela já desnuda em poemas, desde 1976. Mas desnudá-la no palco, diante de, provavelmente, mais de mil pessoas, é simbólico. Demonstra a convicção na força da prece comungada e, sobretudo, na necessidade de colocar essa comunhão em prática, aqui e agora.

 

Quando se ora em grupo, primeiro, irmanam-se os indivíduos em uma causa comum, o que já é bastante significativo. Mas a soma das vibrações da alma, como ondas que se movem para uma mesma direção, é potência.

 

O gesto foi nobre e corajoso, mesmo para ela, estabelecida e laureada, em razão da troca que propôs. Selfies e autógrafos são pequenos bens customizados, com grande valor para consumidores-fãs desejosos, e a substituição desses prazeres individuais por um esforço coletivo pode ter sido renúncia doída. Fato é que o pedido se somou a correntes, mensagens e imagens que têm aportado pelo WhatSapp e pelo Facebook: orar pelo Brasil diariamente a tal hora.

 

Pois, se você tem alguma crença, leitor, cumpra a rogativa de rezar, orar, fazer preces pelo Brasil. Se você acredita que entidades superiores podem interferir espiritualmente em nosso estado de ânimo coletivo, faça-o. Se tem pelo menos a intuição de que sua mente é capaz de emanar energia em você mesmo e em quem o rodeia, faça-o e some sua oração às de outros brasileiros.

 

Ir às ruas, altercar, esforçar-se para vencer discussões acaloradas, tudo isso que a política em nosso cotidiano pede, acaba por nos submeter a quadros de desgaste psicológico. E, no mais, o que se desdobra daí não rende boa coisa, geralmente.

 

Orar pode ser o melhor que podemos oferecer, de fato. Os facínoras egoístas e gananciosos, incautos os elegemos. A maldade tem muitas artimanhas, e a violência explícita e cruel é seu ardil extremo. Peçamos a quem é melhor do que nós para que se suprima o ódio, a intolerância, e se evite o sangue. Não é essa a nossa vocação e não há de ser nosso destino.

 

“Eu necessito por detrás do Sol / do calor que não se põe e tem gerado meus sonhos / na mais fechada noite, fulgurantes lâmpadas”. Como Adélia sonha, deixemos brilhar nossas luzes pelo Brasil.

 

 

Texto de: João Gualberto Jr.

Publicado no Jornal O Tempo (Opinião) em 22/03/2016

Foto: Diário do Nordeste

Vídeo: Sempre Um Papo

 

 

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