Nós que aqui estamos por Vós esperamos

Romper com a(s) morte(s)
 

A inscrição “Nós que aqui estamos por vós esperamos” está impressa na entrada principal de um cemitério e dá nome a um documentário, (assista aqui) que retrata vários acontecimentos e personagens marcantes e conhecidos, historicamente, que emergiram entre o final do século XIX e durante o século XX. O enredo é um convite a pensar em muitos conflitos criados pelo próprio ser humano que, em algum momento, passaram a interferir no próprio jeito de ser. Além disso, percebe-se que a sociedade foi re-criada e levada a re-organizar suas ações a partir da produção de guerras, novas formas de produção, liberdade de expressão, conquista de direitos pelas mulheres e uma re-interpretação do próprio pensamento, levando em consideração o surgimento de pensadores como Freud, o qual descreve as ações inconscientes – “o homem não é mais senhor nem mesmo dentro de sua própria casa”.


Como é verificado, nunca se produziu e inventou-se tanto, quanto nos últimos anos. Quando falamos em produção, dizemos das coisas que proporcionam prazer ao serem consumidas, conferem poder a quem as possui, máquinas para auxiliarem no processo de produção em massa, além dos processos de comunicação que rompem com o espaço geográfico entre as pessoas, porém, as distanciam, cada vez mais, observando do ponto de vista antropológico do encontro e ser-com-o-outro. A indústria bélica também aprimorou e aumentou sua produção, tornando-se um meio de enriquecimento por um lado e do outro um potente instrumento de destruição de sonhos e esperanças. Ao contrário de épocas clássicas em que se estimulava o pensamento e a reflexão, o século XX foi alvo de pesadas ditaduras sobre a condição de liberdade que o homem carrega desde a sua concepção.


Uma ideia muito presente nas cenas do documentário, que são bastante fortes em alguns momentos, é sobre o que o ser humano produz materialmente e culturalmente, mas não o realiza, não lhe dá sentido e não põe a esperança diante dele. Isso tudo é destruído, chega ao fim, rui, cai e é rejeitado. Sendo assim, retomando a interpretação do título do filme – no cemitério que guarda os acontecimentos passados que não prosperaram, não tiveram razão de ser ou foram rejeitados pelo mesmo ser humano que os criou, espera-se o tempo que a história determinar, para lá também receber, os acontecimentos indesejados do presente e outros que ainda surgirão para fazer parte do mesmo espaço onde as frustradas lembranças passadas, empoeiradas nos porões da história, se possível, de lá não saírem nunca mais. Agora, se o cemitério for visitado, que seja como fato lembrado para que a própria sociedade que o produziu, tenha cautela para não gerar novos ancestrais do que está depositado nessas memórias, como é o caso do Nazismo e das Guerras Mundiais.


Em todos os lugares onde foram mostradas situações de sofrimento, crise, torturas, mortes e falta de sentido, estavam pessoas. Cada indivíduo é um universo em si mesmo e deve ser considerado como único, mesmo fazendo parte de um grupo maior que é a sociedade. Foram apresentadas situações em que as pessoas estavam expostas à insegurança, desesperança e risco de morte. O inquestionável respeito pela vida rompe até os limites religiosos para ser defendido em uma esfera maior do cuidado. Nisso, nos ajuda o papa Francisco com a Encíclica Laudato Si (2015) . Mesmo em condições sub-humanas de trabalho, exposição ao perigo, privação da mínima dignidade para se viver, os corações continuavam a pulsar como até hoje pulsam no Mundo, mesmo diante de fatos que insistem em querer aniquilar o Ser ontológico que cada pessoa, desde a sua concepção, carrega interiormente.


Um dos axiomas que aparece nas chocantes cenas do filme é: “em algum lugar, Deus está perto do inferno”. Por mais hostil que seja o comportamento de alguém, o Criador não abandona a(s) criatura(s). Sabemos que onde há vida sempre há esperança e, por isso mesmo, até nas situações mais desumanas possíveis, sempre aparecerão lampejos de esperança para avançarem-se na direção certa, aquela querida por Deus na criação e revelada por Jesus para que o Reino fosse realidade entre nós. Fatos históricos, convenções sociais, desentendimentos entre nações, assunção de Impérios, tudo têm seu destino certo – o cemitério. Em contrapartida, a morte não é capaz de levar à corrupção a vida que traz consigo a esperança. Tudo que foi tocado pelo amor e ternura do Criador sempre romperá com os limites impostos pela morte. A esperança foi depositada na humanidade para que ela transborde o toque cuidadoso de seu Criador. A morte pode colocar um ponto final em tudo que tenta aniquilar a dignidade da pessoa humana mas não tem a última palavra sobre a vida de quem se deixa guiar pela esperança!

 

Por Padre Daniel Santos Leão