Em construção

Dentre as características que compõem a pessoa humana, chama nossa atenção a dimensão de abertura. Nunca estamos prontos, acabados. Há sempre algo a aprender, a construir. Muito, embora, em alguns momentos, para que isso aconteça, seja necessário desfazer-se de algo. Como quem deseja construir um prédio, às vezes, precisa demolir uma casa velha. Nossa vida é um constante processo de construções e desconstruções. A todo tempo nos assentamos sobre nossas verdades e, ao confrontá-las com a verdade do outro, reavaliamos o que somos e pensamos. Isso é positivo. Porque realça a capacidade de aprendizado de cada ser humano. Aprendemos com a vida, com as pessoas, com Deus, enfim... Podemos rever nosso caminho, refazer nossas escolhas, recomeçar... O que revela o desejo de sermos melhores a cada dia.

 

OLHAR PRA TRÁS...

Hoje, quando olhamos para trás, nos envergonhamos de certas atitudes. Nos arrependemos de certas escolhas. Sofremos por causa de determinados erros. No entanto, é possível refazer. Recomeçar outra vez. Tentar acertar. O Sacramento da Reconciliação ou Penitência, ou simplesmente Confissão, como chamamos, realça este aspecto de nossa vida. Esta dimensão de abertura, de mudança, de crescimento. Muitos têm, na confissão, uma espécie de tribunal onde Deus, por meio do sacerdote, nos condena, repreende e pune. No entanto, trata-se de uma experiência de libertação, e porque não dizer terapêutica, onde nos colocamos diante de nossas misérias e proclamamos que a graça de Deus é maior em nossas vidas. O papa Francisco tem insistido: “Deus nunca se cansa de perdoar.”

 

OLHAR PRA FRENTE...

No Sacramento vivemos essa dimensão. A misericórdia do Pai que nos assume, nos abraça e nos eleva. “Depressa, tragam a melhor túnica para vestir meu filho. E coloquem um anel no seu dedo e sandálias nos pés. Peguem o novilho gordo e o matem. Vamos fazer um banquete. Porque, este meu filho estava morto, e tornou a viver. Estava perdido, e foi encontrado” (Lc 15,22-24). O perdão renova, reintegra, refaz. Assim, para celebrar esta experiência de reconciliação é preciso admitir o erro. Muitas vezes, temos dificuldade para isso. Não admitimos nossa culpa. Ë sempre o outro quem erra. A culpa é do outro. Assumir-se pecador é o primeiro passo para sentir-se livre diante do pecado. Trata-se de uma experiência profundamente humanizadora. Admitir meus limites. Meus fracassos. Ser limitado em si não é algo negativo, pelo contrário. Não somos super-heróis. Às vezes, nos cobramos mais do que podemos ou temos condições. O problema está quando diante de nossa limitação nos deixamos levar pelo mal. Aqui é uma sabedoria, reconhecer o mau uso da liberdade: “Pai, pequei contra Deus e contra ti; já não mereço que me chamem teu filho” (Lc 15,19).

 

PEDIR AJUDA...

Contudo, “por insondável e gratuito mistério da divina disposição, acham-se os homens de tal modo sobrenaturalmente unidos entre si, que o pecado de um prejudica aos outros, como também a santidade de um traz benefícios aos outros”. Deste modo, a penitência exige sempre a reconciliação com os irmãos, aos quais o pecado prejudica. Isso se expressa pelo fato de buscarmos na igreja a mediação do perdão de Deus. Muitos pensam: eu me confesso diretamente com Deus. O que é extremamente absurdo. Nosso erro sempre afeta o outro. É o ministro da igreja que realça a dimensão comunitária do sacramento. Ademais, é um gesto de humildade, de reconhecimento de nossa pequenez, e acima de tudo, de abertura a graça de Deus e a ajuda dos irmãos.

 

 

COMEÇAR OUTRA VEZ...

O gesto de pedir perdão se torna autêntico quando ele se vincula a um projeto de vida. Eu quero ser melhor! O arrependimento precisa converter-se em ato. Propósito de mudança. Aqui, vale cada um confrontar-se com o projeto de Deus e perceber as diferenças ou contradições existentes em sua vida. O que Deus espera de mim, como pai e mãe de família? Como esposo, esposa? Como filhos? Como irmão? Como profissional? Como pessoa? Como cristão? A matéria de confissão nasce dessa consciência. É preciso diagnosticar em nós o que nos impede, ou nos atrapalha chegar à santidade.

 

 

SONHAR UM SONHO NOVO...

A partir deste momento, nos lançamos no horizonte da grandeza de Deus. Que sonhou para nós um sonho bom. Que acredita no sucesso de cada um de nós. Que deposita em nós sua confiança. Como quem escreve a história de uma vida, é preciso, agora, passar a página do erro e colocar-se a escrever novas linhas. O Sacramento da Reconciliação nos recoloca neste caminho, o caminho do bem, da verdade. O mais importante da confissão é esse momento, o esforço de nos levantarmos, de sermos melhores, de crescermos.
A Páscoa é tempo de renovar em nossos corações a certeza de que somos bons. Afinal, Deus se fez homem para nos lembrar isso: somos d’Ele. A mensagem dos anjos aos pastores na noite de Natal nos conforta: “Coragem, não tenhais medo.” É preciso coragem para diante do erro nos reerguermos. Construir um caminho novo. Construir relações novas. Construir, enfim, uma vida nova. Uma boa confissão, talvez, seja o primeiro passo para você recomeçar. Deixar o homem velho para deixar-se invadir pela luz de Deus. Abrir mão de coisas que têm trazido sofrimento e dor a você e às pessoas que lhe cercam. Fazer uma verdadeira faxina espiritual.
Faça essa experiência, deixe a vida se renovar em você.

 

 

Por Padre Carlos Henrique Alves

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