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Homilia para a ordenação presbiteral do Padre Elder Alves

sábado, 23 de março de 19 às 11:07

Igreja Nossa Senhora da Guia, Divinópolis, 22 de março de 2019

 

Caro Diácono Elder, chegou a tua hora! Depois dos teus irmãos Pe. Anderson e Pe. Alex, é hora de a Igreja ouvir teu sim. Um sim que coroa os três dons que Deus concede a nossa Igreja jubilar neste ano festivo e nos 60 anos desta paróquia, criada em 21 novembro de 1959. Obrigado, Elder, pela tua perseverança!

 

Neste tempo fecundo da quaresma, a liturgia nos recorda que somos pó e tornaremos a ele, que temos uma vida mortal e circunstanciada por dias e anos, que “somos condenados a morrer” (como lembra o salmista), que precisamos enriquecer de sentido e beleza a nossa existência, que devemos nos comprometer com a construção de uma existência sempre inacabada, sempre incompleta (e suplicamos também com o salmista que o Senhor complete em nós a obra começada!), uma existência em processo permanente e dialético de conversão. Uma conversão que ora nos faz avançar, ora nos sujeita, infelizmente, a retrocessos. Mas o que conta verdadeiramente é manter os olhos fixos em Jesus, como aqueles na sinagoga de Nazaré. Olhos fixos não como gente manipulada e dependente, mas como quem espera ansioso por uma palavra, um comando, um encaminhamento, uma resposta, uma luz, uma direção que nos venha do alto... Olhar para Jesus, recomeçar d’Ele, converter-nos a Ele, querer ser como Ele: eis o dinamismo da quaresma. Jesus nos ensina a vencer o tentador e as tentações, leva-nos à montanha para a experiência do Pai e nos devolve à planície para a missão que nos cansa, desfigura e crucifica... Vamos com Ele! Atrás d’Ele, como discípulos! Permitamo-nos conduzir por Ele. Recebemos a sua unção, a unção do Espírito, para a missão que enche de sentido nossa vida e enriquece de bens e de graça a vida do mundo e da Igreja; unção que nos convoca e educa para relações fraternas de cuidado e para o anúncio alegre das ações salvíficas de Deus em nosso favor.

 

Contudo, olhamos para Jesus não como discípulos prontos e maduros, mas como aprendizes de santidade, como peregrinos que não chegamos à meta, como ungidos que ainda não experimentamos todo o poder da unção, como discípulos de Adão querendo ser discípulos de Cristo, como pecadores proativos na via da conversão. Não haveria quaresma se não existissem pecadores. Aí seria sempre páscoa! Levamos ainda a marca do pecado porque não atingimos a plenitude da estatura de Cristo, como lembra Paulo aos efésios (4,13). Independente do nosso lugar no Corpo místico de Cristo e no edifício da Igreja, somos tocados todos os dias pela experiência do pecado e da fragilidade humana. Todavia, a graça e a investidura batismal nos garantem a possibilidade do progresso humano e espiritual na direção de Cristo, graças à nossa incorporação a Ele, pelos mesmos vínculos dos ramos com a videira. Somos santos n’Ele, por Ele, com Ele. Ele nos torna semelhantes a si. Comemos d’Ele na Eucaristia para que Ele nos transfigure n’Ele, ensinava Agostinho.

 

Digo isto, caros irmãos e irmãs, querido Diácono Elder, para fazer eco à leitura que escolheste para este dia da tua unção sacerdotal. O autor da carta aos Hebreus nos permite visitar a biografia do sacerdote, de todo sacerdote, a tua e a minha biografia, caro diácono! Pensando ainda no sumo sacerdote hebreu e, sobretudo, no Cristo, chamado uns versículos antes de “sumo sacerdote eminente”, o autor quer retratar as origens e a validade do sacerdócio ministerial cristão. “Todo sacerdote é tomado do meio do povo e representa o povo nas suas relações com Deus”, num sacerdócio misterioso e eterno como o de Melquisedec. O sacerdócio de que tomamos parte, diácono Elder, emana do único e supremo sacerdócio de Cristo. Sacerdote é Ele por natureza e essência, nós por participação e chamamento. Eu, teus irmãos presbíteros e tu mesmo fomos tirados do meio das nossas famílias, da nossa gente, da humanidade pecadora e fomos colocados como ministros de Deus para intermediar as relações da humanidade com Deus, para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados, os nossos pessoais e os pecados dos demais irmãos que creem conosco. Somos pecadores que cuidamos de pecadores, oferecendo cotidianamente por nós e por eles o sacrifício pascal que cura e restaura nossa natureza. Temos compaixão e devotamo-nos à santificação dos demais pecadores porque nós mesmos estamos cercados de fraqueza. Tua biografia vocacional e tua unção têm raízes, têm endereço, têm paternidade, têm passagem pela história de pecado da humanidade. Esta é a história de cada filho de Adão. Obrigado, queridos pais do Diácono e Padre Elder. A humanidade e a paternidade de vocês geraram mais um colaborador nosso no serviço da santificação e da conversão dos irmãos e irmãs, e, neste múnus, o filho de vocês fará também progressos pessoais na sua própria dinâmica de maturidade humana e cristã. Um dia o verão santo e maduro! Mesmo que este dia esteja do lado de lá deste mundo! Obrigado pelo consentimento de vocês à resposta que seu filho hoje deposita diante de Deus. Ele tem o desejo de ser santificado e de exercer um ministério santificador. A Igreja precisa deste ofício de amor que Pe. Elder haverá de realizar com zelo e dedicação.

 

Os textos do rito da ordenação presbiteral sinalizam muitas vezes para a missão santificadora do sacerdote. Perguntar-te-ei em breve, Diácono Elder: “Queres celebrar com devoção e fidelidade os mistérios de Cristo, sobretudo pelo sacrifício eucarístico e o sacramento da reconciliação, para o louvor de Deus e a santificação do povo cristão?” Ouviremos o teu sim. Ainda manifestarás teu desejo de unir-te cada vez mais ao Cristo, sumo sacerdote, e ser com ele consagrado a Deus para a salvação de todos. Este é outro sim de tua parte, que aguardamos ansiosos. Pelo teu ministério sacerdotal, o povo de Deus renascerá pela água batismal e se colocará no caminho permanente da conversão a Cristo, ganhará novas forças do altar cujo sacrifício presidirás; os pecadores serão reconciliados e os enfermos se reanimarão pelo teu ofício de amor... Enfim, Deus se servirá da tua fraqueza, Diácono Elder, para fazer fortes e santos os irmãos confiados a ti. A Igreja espera muito do teu ministério, precisa dele, precisa do teu sim, do teu cansaço, das tuas fraquezas... Tuas fraquezas, oferecidas humildemente para o ministério da santificação dos teus irmãos, serão de grande proveito para a tua própria bem-aventurança neste mundo e no outro!

 

O texto do terceiro evangelho que ouvimos hoje nos põe diante da unção espiritual do Cristo. Jesus toma para si e realiza em si a profecia de Isaías. O Messias, o Ungido, o Cristo é ele, o filho do carpinteiro, o filho de Maria, o conhecido em Nazaré! Aquela unção atinge hoje teu coração e tuas mãos, Diácono Elder. Receberás em breve a unção que te unirá ao Cristo: “Nosso Senhor Jesus Cristo, a quem o Pai ungiu com o Espírito Santo e revestiu de poder, te guarde para a santificação do povo fiel e para oferecer o santo sacrifício”. Com estas palavras, tua missão e a de Cristo se fundirão. E serás ainda convidado a conformar tua vida ao mistério da cruz do Senhor, para que vivas e morras por aquilo porque Cristo morreu: a reconciliação da criatura com o Criador, a conformação do pecador a Cristo!

 

Antes de terminar, quero dirigir-me à comunidade eclesial diocesana que precisa, no caminho da fé e da conversão, do ministério dos sacerdotes. Digo-lhes em alto e bom tom: eu e os sacerdotes que estamos aqui não estamos prontos, não somos santos nem anjos, não atingimos ainda a estatura plena de Cristo. Somos pecadores, fracos, indignos. Mas continuamos querendo servir, sendo úteis à santificação de vocês, oferecendo o sacrifício pelos nossos próprios pecados e pelos pecados de vocês! Vejam-nos também, por favor, como gente no caminho da conversão, como pecadores em processo de conversão. Não optamos pelo pecado, seria contrassenso, mas estamos tentando progredir humana e espiritualmente pela força e a graça da unção que recebemos. Tenham paciência conosco. Rezem por nós. Sempre e com insistência!

 

Escuto da parte de muitos leigos, leigas, comunidades – não propriamente de vocês aqui nesta noite (mas de muitos que lerão, escutarão e assistirão esta homilia pelas mídias!) – escuto, às vezes, uma crítica mordaz, injusta e apressada aos sacerdotes. Não conheço sacerdote que tenha prazer em ser pecador! Ou que tenha optado por não continuar na via da conversão! Nenhum pecador deveria ter prazer de estar nesta condição! Não temos outros padres senão estes, cujas caras, endereços e limitações vocês conhecem bem! Vocês têm estes padres e este bispo. Não somos os melhores do mundo, mas não somos os piores, sem falsa modéstia. Preciso dizer isto em defesa dos nossos padres! Estamos na luta! Estamos tentando ser bons pastores! Mas também somos fracos, limitados, humanos, pecadores. Estamos com os olhos fixos no Senhor! Nossos olhos estão na direção certa. Nossos esforços e ânimos é que nem sempre são constantes! Como os de vocês também não são! Mas vamos juntos! Rezando uns pelos outros! Esta oração recíproca é remédio e adubo espiritual para nossa contínua conversão. Quem disser que conversão é coisa fácil mentiu! Ela é obrigatória, necessária e boa, mas nunca fácil nem rápida nem plena. É processo, às vezes lento e doloroso, com avanços e recaídas! Mas, posso prometer em meu nome, em nome dos padres e do Pe. Elder que faremos esforços maiores de progresso para que, como pastores, sejamos capazes de, pela força do testemunho, estimula-los a progredir também sempre mais na tarefa cotidiana e pessoal de conformação a Cristo. Esta é a meta de todos, independente da missão ou do lugar que ocupamos no Corpo místico do Senhor, que é a Igreja.

 

Pe. Elder, conto com tua conversão pessoal cotidiana! Conto com teus esforços para ser bom pastor! Reza pela minha conversão que rezarei pela tua! Nossa Igreja precisa da tua e da minha santidade! Ajudemo-nos uns aos outros, irmãos e irmãs, a carregar o fardo que nossos pecados nos impõem! Rezem também pela minha conversão, eu lhes peço!

 

Creio que nestas três ordenações que vivenciamos e nas três pregações proferidas, o bispo, os sacerdotes e as comunidades descobrimos que temos ainda muito a fazer pela Igreja, pelo mundo, por Cristo e por nós mesmos. Arregacemos as mangas e vamos ao bom combate, para merecermos a coroa da glória! Amém.

 

Dom José Carlos de Souza Campos

Bispo Diocesano de Divinópolis – MG

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